Genética

Cérebro das gémeas geneticamente modificadas por cientista chinês pode ter sido alterado

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O gene que He Jiankui eliminou em duas bebés para torná-las imunes ao VIH está relacionado com a capacidade cognitiva. O cérebro das raparigas pode ter sido alterado, tornando-as mais inteligentes.

He Jiankui esteve numa cimeira para explicar a experiência, que gerou controvérsia na comunidade científica

AFP/Getty Images

O cérebro de Lulu e Nana, as gémeas geneticamente modificadas por um cientista chinês para serem imunes ao vírus da sida, pode ter sido alterado. Uma investigação da Universidade da Califórnia noticiada pela MIT Technology Review descobriu que a operação de He Jiankui no gene CCR5, que foi “desligado” por uma ferramenta de edição genética chamada CRISPR-Cas9, pode ter melhorado a habilidade das gémeas para aprender e criar memórias.

He Jiankui, desaparecido desde dezembro após ter falado sobre a controversa experiência numa cimeira, injetou essa ferramenta nos embriões e desligou o gene CCR5. Escolheu esse gene porque é ele que esconde o portal a partir do qual o VIH entra dentro das células e infeta o organismo: o CCR5 cria uma proteína que se liga à membrana do retículo endoplasmática, uma das peças que compõem as células, e aloja o vírus da sida quando ele tenta entrar na célula. Com ele desligado não é possível que o vírus penetre na célula.

A experiência parece ter resultado: dos 22 embriões que He Jiankui tinha em laboratório, 16 foram geneticamente modificados — os outros seis não foram porque os pais não o quiseram. Onze dos alterados foram usados em seis tentativas de implantação no útero das mães. E duas bebés gémeas vieram ao mundo, embora apenas uma delas tenha nascido alegadamente imune ao vírus da sida.

A comunidade científica recebeu mal a notícia por dois motivos. Em primeiro lugar porque, embora o CRISPR-Cas9 seja uma ferramenta promissora (e com provas dadas), não é totalmente precisa: basta que a alteração executada com o CRISPR seja feita num gene diferente para que a vida de uma pessoa possa ficar condenada. Aliás, mesmo que ela seja saudável, ninguém sabe que consequências pode vir a ter para as gerações seguintes. E em segundo lugar porque não conhecemos suficientemente o genoma humano para saber as consequências de o modificar: o gene CCR5 podia ter funções desconhecidas para os cientistas, mas essenciais à vida.

Agora, as descobertas da Universidade da Califórnia vieram confirmar este segundo ponto: o gene que o cientista He Jiankui modificou através do CRISP-Cas9 tem “um papel fulcral” na memória e na capacidade para formar novas conexões. Ou seja, essa capacidade pode ter sido alterada, neste caso para melhor, nas gémeas Lulu e Nana. “A resposta é que provavelmente sim, afetou o cérebro delas”, disse à MIT Technology Review o neurobiólogo Alcino J. Silva, que assina o artigo científico. “A interpretação mais simples é que essas mutações provavelmente terão um impacto na função cognitiva das gémeas. O efeito exato sobre a cognição das raparigas é impossível de prever e é por isso que não deve ser feito“, sublinha o cientista.

Embora não haja provas de que He Jiankui tenha eliminado o gene CCR5 para melhorar propositadamente a capacidade cognitiva das bebés, é possível que o cientista chinês soubesse dessa ligação. Em 2016, Miou Zhou e Alcino J. Silva já tinham mostrado que a remoção desse gene em ratos melhorou a capacidade de memória deles. A descoberta foi conseguida depois de os dois investigadores terem explorado 140 genes diferentes para perceber quais deles estavam mais relacionados com a cognição dos ratos.

Além disso, um estudo mais recente publicado na revista científica Cell sugere que as pessoas que nasceram sem o gene CCR5 recuperam mais facilmente de acidentes vasculares cerebrais (AVC). E pessoas sem pelo menos uma cópia desse gene mostram melhores capacidades de aprendizagem e mais inteligência em ambiente escolar. As conclusões são do biólogo S. Thomas Carmichael, cujas descobertas estão agora a ser usadas como base para a criação de um medicamento para doentes que sofreram AVCs e para pacientes com o vírus da sida que apresentem problemas de memória.

As novidades sobre o gene CCR5 e as consequências das experiências de He Jiankui surgem dois meses depois de ter sido confirmada uma gravidez de um terceiro bebé geneticamente modificado pelo cientista chinês. Entretanto, He Jiankui continua desaparecido depois de a Comissão de Saúde Nacional da China ter aberto uma investigação às experiências do cientista. A Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul (SUSTech), na cidade de Shenzhen, afirmou em comunicado que Jiankui tinha sido demitido.

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