“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”

Das suas estadias, desde 2009, na aldeia dos índios brasileiros Krahô, e do convívio e da confiança que desenvolveram com eles, João Salaviza (“Montanha”) e Renée Nader Messora tiraram este filme, feito em película e sem equipa, que não é nem um documentário etnográfico convencional nem uma ficção aberta, quedando-se numa zona indistinta entre ambos. “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” regista, ao mesmo tempo, o modo de vida destes nativos e rituais coletivos tão importantes para eles como o do luto pelos mortos, e desenvolve a história de um jovem índio de 15 anos, Henrique Ihjãc, casado e com um bebé, que não consegue encarar a morte do pai e fazer o respetivo luto, ouve as queixas do seu espírito inquieto e, desorientado, acaba por fugir para a vila mais próxima. Através dele, Salaviza e Messora sugerem também a situação dos índios brasileiros, postos entre a sua vivência ancestral e tradicional nas tribos e a tentação da assimilação social e cultural. A fita ganhou o Prémio do Júri da secção paralela Un Certain Regard do Festival de Cannes.

“O Poder da Palavra”

Numa universidade de Paris, um catedrático (Daniel Auteil) dado aos comentário politicamente incorretos e provocadores, aceita ser o mentor de uma aluna árabe dos subúrbios “problemáticos” (Camélia Jordana) para o concurso nacional de eloquência em que esta vai entrar, depois de terem tido uma altercação numa aula plenária, com as consequentes reações indignadas do corpo discente nas redes sociais, e o melindre da direção da escola, que quer dar uma imagem “progressista” mas também evitar uma sanção disciplinar ao docente. O realizador Yvan Attal glosa a história de Pigmalião, afeiçoando-a ao sinistro clima político-social contemporâneo, nesta comédia dramática convencionada e previsível, mas que defende princípios e valores positivos, cada vez mais fora de moda e “reacionários” (a tolerância, a importância do saber falar bem e apresentar-se e estar em sociedade, o esforço pelo melhoramento pessoal, o gosto pela palavra e pelo discurso). Auteuil e Jordana estão ótimos nas personagens inicialmente opostas, que acabam por se encontrar no terreno da cumplicidade, da estima e da compreensão.

“Réplicas”

Keanu Reeves interpreta, neste filme de ficção científica que é também um “thriller” de ação, o papel de Will Foster, um brilhante neurocientista instalado num ultra-sofisticado laboratório em Porto Rico, onde trabalha, sem sucesso, na transferência da consciência humana para um robô. Uma noite de tempestade, quando vai no carro com a família, há um acidente e todos morrem menos ele. Em vez de chamar a polícia e os socorros médicos, Will contacta um colega, levam os corpos todos para sua casa, instalam lá material do laboratório e o cientista consegue não só clonar, como também ressuscitar, a mulher e a filha e o filho mais velhos (a mais nova é a sacrificada, porque sofreu lesões irreparáveis), apagando-lhes também a memória. “Réplicas” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.