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O apelo à vida e “a tudo o que nos transmite sentimento” de João Vasconcelos, o “irmão mais velho” dos empreendedores

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João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria, morreu esta noite com um ataque cardíaco, aos 43 anos. Era o "irmão mais velho" dos empreendedores, que queria valorizar a vida e as emoções.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria deste Governo, morreu na noite de segunda-feira. A causa da morte foi um ataque cardíaco, aos 43 anos. João Vasconcelos era uma das figuras mais relevantes do ecossistema de empreendedorismo, tendo liderado o projeto Startup Lisboa de raiz e sido um dos principais impulsionadores da permanência da Web Summit — a maior conferência de empreendedorismo, tecnologia e inovação da Europa — em Lisboa até 2028.

Escolhido por António Costa, na altura presidente da Câmara Municipal de Lisboa, para ser o rosto da incubadora de empresas da Rua da Prata (projeto que saiu do Orçamento Participativo da Câmara), em 2012, só saiu da casa dos empreendedores em 2015 para — novamente a lado de António Costa — assumir a liderança da secretaria de Estado da Indústria. Foi com esta pasta que assumiu o Startup Portugal, organização que viria a dar corpo àquela que era a estratégia nacional para o empreendedorismo do Governo de Costa.

No anúncio da iniciativa, na inauguração do escritório da Uniplaces no Rossio, Vasconcelos lembrou aquela que seria uma das suas grandes bandeiras ao serviço do empreendedorismo nacional: o desbravar caminho de “uma nova geração de empreendedores, com ambição global, com respeito pelo ambiente, pela criatividade e pela inovação”, que representam “uma nova economia em Portugal”.

Dois dias antes de morrer, o ex-secretário de Estado fez um post nas redes sociais que é, no fundo, um apelo à vida e às emoções: “Quanto mais tempo passamos online mais valorizamos tudo o que é offline, a natureza, as emoções, a arte, a cultura, a manufatura, tudo o que nos transmite sentimento. Bom domingo, aproveitem o digital e usem-no como ferramenta para valorizar o analógico. Agora, vou passear que está um dia fabuloso”.

Já na sequência das notícias sobre a sua morte, Manuel Caldeira Cabral, ex-ministro da Economia, lembrou ao Observador o “amigo”, referindo-se a João Vasconcelos como sendo uma “pessoa muito dedicada às suas causas e ideias”. “Destacou-se muito no trabalho com as startups e com a inovação. Empenhou-se muito em lançar para a frente uma economia moderna e esse legado ficou“, acrescentou.

No trabalho, tinha uma enorme paixão e uma enorme entrega, sempre a trabalhar por muitas horas e com muito entusiasmo e pondo o coração em tudo”, continua o ex-ministro.

Caldeira Cabral, que foi ministro da Economia quando João Vasconcelos era secretário de Estado da Indústria, contou como os dois ficaram amigos: “Quando o convidei para o Ministério não tínhamos grande proximidade pessoal, mas ganhei e tornou-se um amigo. Muito leal e muito divertido, tinha um sentido de humor fantástico e é desse amigo que vou sentir falta“.

Também Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, disse que “a Lisboa do futuro fica hoje sem um dos seus nomes mais destacados” e que “a sua energia, alegria e capacidade de agregação para o empreendedorismo e economia digital eram hoje ímpares no nosso país.”

A notícia desta partida “cruel” apanhou todo o ecossistema de empreendedores desprevenido. Miguel Fontes, que sucedeu a Vasconcelos na direção da Startup Lisboa, diz ao Observador que ainda não consegue acreditar na morte do amigo. “Estou em choque.”

Ainda não acredito. A vida prega-nos partidas difíceis de aceitar. É muito cruel ver alguém tão novo, com tanta energia e com tantos projetos ser parado assim tão de repente. O meu pensamento, neste momento, está com a mulher, Isabel, e com os seus dois pequeníssimos filhos.”

Já a incubadora de empresas, que está e estará sempre associada ao nome do ex-diretor e ex-secretário de Estado, está de luto: “A Startup Lisboa está de luto. Hoje, perdemos aquele que foi o primeiro diretor desta casa e que tanto lhe deu! É uma perda enorme! Todos os que conheceram o João e que com ele se cruzaram não o vão esquecer. O João foi e continuará a ser uma inspiração para todos nós”.

Paddy Cosgrave, fundador e presidente da Web Summit, que chamava carinhosamente a Vasconcelos “o ministro das startups”, também homenageou o ex-secretário de Estado, lembrando a paixão que tinha por Portugal e pelas startups: “Estou muito triste por saber que João Vasconcelos morreu. Enquanto ministro era tão apaixonado por startups e por Portugal. Fez uma quantidade enorme de coisas para promover as startups portuguesas no palco mundial. Vamos todos sentir a sua falta”.

Celso Guedes de Carvalho, ex-presidente da Portugal Ventures (operador público de capital de risco) na altura em que João Vasconcelos era secretário de Estado, disse ao Observador que o “amigo deixou um legado muito incompleto“, que havia trabalho para fazer no empreendedorismo durante “muitos anos”, graças às portas que o ex-secretário de Estado abriu abriu, e que esperava que o país estivesse “à altura do que ele nos deixou”.

O João era um amigo e isso é muito difícil nestas horas. Era sobretudo um amigo. Mas do ponto de vista profissional, acho que deixou um legado muito incompleto… Foram tantas as frentes que ele abriu que temos trabalho por muitos anos, para as gerações futuras. O que mais gostava era que estivéssemos à altura do que ele nos deixou. O João esteve muito pouco tempo connosco, temos muito trabalho pela frente. Se conseguirmos pegar em tudo aquilo que ele desbloqueou e projetou para o país, o amor que ele tinha ao país era tanto… E ele fez isto tudo com um grandeza e um desprendimento que muito poucos têm. Um dia veremos os frutos do que ele fez. Temos 10 anos de Web Summit que vamos sempre recordar por ter sido ele o impulsionador disto”, recorda.

Miguel Santo Amaro, fundador da Uniplaces — uma das primeiras startups a integrar a Startup Lisboa e que era um dos motivos de orgulho de João Vasconcelos — escreveu no Facebook que “o irmão mais velho”, como lhe chamou, tinha morrido “demasiado cedo para alguém que tanto deu e que tinha ainda tanto para dar” e que era sinónimo “de paixão, ambição e amizade”. “Foi um irmão mais velho para mim em Lisboa — acolheu-me na Startup Lisboa e daí para a frente foi um exemplo de como fazer acontecer. Foi o nosso porta-estandarte para o empreendedorismo em Portugal e no mundo”, escreveu.

Anthony Douglas, fundador da Hole19 — outra startup que faz parte do núcleo duro inicial da Stratup Lisboa e de João Vasconcelos –, também prestou homenagem ao “irmão” nas redes sociais: “Descansa em paz, meu irmão. Não consegues sequer entender tudo o que fizeste por todos nós que estamos nesta fotografia. Saudades tuas, irmão”.

Em 2015, ainda na Startup Lisboa, Vasconcelos organizou uma caravana de apoio para ajudar os refugiados que chegavam à Hungria — a caravana Aylan Kurdi Caravan, um movimento português criado com o nome da criança síria que morreu afogada. Conseguiu juntar três camiões carregados com 66 toneladas de roupa, comida, medicamentos e brinquedos para milhares de refugiados.

Com uma vida dedicada às causas do empreendedorismo, sempre foi seu objetivo no Governo replicar a fórmula da Startup Lisboa pelo país. Foi da estratégia nacional que delineou para o empreendedorismo que saiu a Rede Nacional de Incubadoras, o Startup Voucher, a rede nacional de FabLabs ou os benefícios no IRS para quem quer investir em startups.

“[Quero] que os jovens de várias cidades do país tenham iguais oportunidades” no empreendedorismo”, disse em 2016, quando foi anunciado o vencedor do Startup Lisboa Momentum, uma bolsa destinada a apoiar alunos que foram abrangidos por bolsas da ação social em instituições do Ensino Superior e que queriam lançar um negócio próprio.

Percebi que os empreendedores vindos de uma origem mais humilde revelavam ter uma capacidade de resiliência, de luta, uma determinação, uma vontade de vencer muito diferente. E decidimos aplicar as poucas verbas que tínhamos neste projeto”, afirmou João Vasconcelos, acrescentando que “ser empreendedor é para quem quer, não é só para quem pode“.

Como secretário da Indústria, um dos estandartes de Vasconcelos era conseguir que o setor tradicional se aproximasse e integrasse a inovação tecnológica, porque todos juntos faziam parte daquela que era, nas suas palavras, a quarta revolução industrial da história — a digital. “Esta é a primeira revolução industrial em que a localização geográfica não conta e estamos todos convocados. É este o desafio que tenho para vocês”, afirmou em 2016, durante a conferência Startup Go Global.

Numa entrevista que deu ao Observador em 2014, altura em que liderava a Startup Lisboa, João Vasconcelos explicou porque é que era importante ter incubadoras que dessem apoio e impulsionassem os promotores das novas ideias: porque são elas que dão a assistência que é precisa para que cada empreendedor possa fazer a sua corrida:

“Há uma analogia que podemos utilizar para aquilo que estamos a fazer aqui: imagine uma box de assistência numa corrida de Fórmula 1. Nós somos isso. Não somos o carro, nem os pilotos, mas eles têm de parar cá para trocar pneus, para por combustível. Ajudamo-los a fazer os upgrades para o ano que vem, a ver o que é que as outras equipas estão a fazer na estratégia da corrida. Damos-lhes formação, mas não somos nós que estamos a conduzir os carros. Isso devem ser os empreendedores, mesmo que se vão estampar na primeira curva. O nosso papel é o de assistência para quem está a correr.

Pedro Oliveira, fundador da Landing Jobs, outra startup que fez parte do primeiro núcleo de empresas incubadas na Startup Lisboa, diz ao Observador que a morte de João Vasconcelos “é uma perda enorme” que “não faz sentido” e que o ex-secretário de Estado tinha sido um “dinamizador” da marca portuguesa.

“É uma perda enorme, não faz sentido. Mas ele fez muito, foi na Startup Lisboa que cresci, foi a minha casa e foi ele que fez aquilo. Nunca te esqueces disto, o sentimento é de agradecimento, mas vai deixar muitas saudades. Há muita coisa por fazer ainda, mas ele tinha uma frase: “Mais vale feito do que perfeito” e foi o que ele fez. Pode não ter ficado perfeito, mas fez. É um sentimento um bocado inglório, porque havia muito por fazer. É engraçado que o João estava sempre a vender para fora as empresas, fossem elas quais fossem, só tinham de ter uma coisa em comum: serem portuguesas. A Web Summit veio para cá muito por culpa dele e há-de haver tantas outras empresas que fizeram o mesmo e que não sabemos. Ele era um dinamizador da marca e deixou legado, sem duvida”, afirmou.

Ana Lehmann, que ficou com a pasta da Indústria quando João Vasconcelos saiu do Governo, agradeceu a João Vasconcelos todo o seu trabalho em prol do empreendedorismo. “Com um sentimento de incredulidade, choque e imensa tristeza pela partida injusta e prematura do João. Os meus pensamentos estão com a Isabel, com os filhos ainda tão pequenos e com toda a Família e inúmeros amigos que tal como eu estão chocados com a notícia. Sem capacidade para articular muito mais, recordo-o como ele era: combativo, visionário, com uma imensa e contagiante energia positiva. Obrigada, João.”

Nuno Sebastião, presidente executivo da Feedzai, também partilhou uma fotografia com João Vasconcelos, onde se lia: “Tão triste. Vou recordar-me das gargalhadas, da energia e da força para fazer de Portugal um sitio melhor para as nossas crianças”.

Pedro Rocha Vieira, cofundador e CEO da Beta-i, também lembrou João Vasconcelos:

Não deixava ninguém indiferente, era um homem de ação e um homem da comunicação. Era uma pessoa combativa e que tinha a coragem de lutar pelo que acreditava. Era um inimigo temível, mas também um amigo cuidadoso, e apesar do seu estilo imprevisível, era uma pessoa de natureza bondosa e um homem de grandes causas, desde os refugiados à reciclagem de plásticos.  Conheci-o há 10 anos, no início da fase louca de construção do ecossistema de empreendedorismo e inovação. Foi um dos principais protagonistas e dos poucos que lutou de forma inequívoca e contínua para que Lisboa e Portugal fossem o que são hoje. Fundou a Startup Lisboa e transformou-a num dos principais pilares do ecossistema. Enquanto Secretário de Estado da Indústria, deu corpo ao programa Startup Portugal, tornou real o WebSummit, e foi pioneiro do movimento Indústria 4.0, tendo alastrado a dinâmica positiva do empreendedorismo, a todo o país, e em particular para as PMEs e para indústria nacional, missão que continuou a desenvolver para além do seu mandato. O João Vasconcelos era o Delfim da inovação e empreendedorismo de Portugal, e o seu impacto na mudança de mentalidade e de construção duma nova narrativa, dum Portugal mais inovador e aberto ao mundo, foi ímpar e excepcional. Era um Embaixador incansável e imparável do optimismo e da acção. Deixa-nos cedo demais, ficamos todos mais pequenos sem ele, e com uma responsabilidade acrescida em tornar verdadeiro o seu e o nosso sonho. Vamos ter saudades. Até sempre João.

Ricardo Marvão, cofundador da Beta-i reitera que “o João era uma força da natureza. Sempre à frente no tempo, um líder e um lutador pelas causas que acreditava. Não desistia e fazia todos acreditar no impossível. Sempre com um sorriso, confiante e inteligente. Mas acima de tudo um homem cheio de vontade de fazer acontecer”, escreveu numa nota enviada ao Observador.

Das startups para o Galpgate e a saída do Governo

Quando saiu do governo, em 2017, exonerado num processo relacionado com o chamado caso Galpgate, João Vasconcelos escrevia: “Tenho 41 anos, estou a meio da minha vida e agora quero dedicar-me mais à minha família. Mas tal como aconteceu nos últimos 25 anos, podem contar sempre com o meu contributo para melhorar a minha comunidade e o meu país. Até porque quero continuar a ter a certeza que a minha filha terá sempre muito orgulho em tudo o que fiz, e que viva num Portugal melhor.” À data da sua morte, João Vasconcelos era pai de mais uma criança, um menino que nasceu no ano passado.

A vida política de João Vasconcelos terminou com o caso dos bilhetes e viagens para o Euro 2016 oferecidos pela empresa Galp, que levou a que fosse constituído como arguido pelo crime de recebimento indevido de vantagem. Depois, foi considerado formalmente suspeito de alegadamente ter favorecido uma empresa da mulher, Isabel Domingues dos Santos, num investimento que envolve fundos públicos. Vasconcelos e a mulher foram formalmente constituídos arguidos do crime de fraude na obtenção de subsídio em abril, aquando de buscas domiciliárias realizadas à casa do casal, noticiou na altura a revista Sábado.

Antes de ir para o Governo de António Costa, Vasconcelos tinha sido diretor executivo da Startup Lisboa, da Associação para a Inovação e Empreendedorismo de Lisboa, de 2011 até 2015, foi responsável pelo LIDE Empreendedorismo, uma associação com foco na promoção da sustentabilidade e responsabilidade social nos negócios e nas empresas.

Foi, também, adjunto e assessor do gabinete do primeiro-ministro, com responsabilidade na área dos assuntos regionais e economia, entre 2005 até 2011. Além disso, foi vice-presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), entre 1999 e 2005 e trabalhou como mentor de vários programas de aceleração empresarial, tal como o Startup Pirates, Founder Institute, Lisbon Challenge e Seedcamp.

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