Jim Wetherbee tem um tanto de control freak. Quando tem de subir um lanço de escadas, demora-se a olhar para elas, pousa o pé no primeiro degrau e tira alguns segundos para garantir que é seguro prosseguir. Se alguém lhe faz uma pergunta, primeiro mergulha no silêncio, mede o peso de todas as palavras e só então se aventura a tricotá-las numa frase. E quando o vento o atinge e lhe desarruma o cabelo, apressa-se a consertá-lo antes de voltar a sorrir para as câmaras. Quando lhe perguntamos porquê, tem a resposta na ponta da língua: “Fui comandante de veículos espaciais da NASA. Se alguma coisa fugir do controlo eu morro”.

Tem motivos para pensar assim. Jim Wetherbee é o astronauta que mais vezes comandou missões para passeios espaciais. Foram cinco. Entrou na NASA, a agência espacial norte-americana, dois anos antes de sete astronautas terem morrido a bordo da nave espacial Challenger perante o olhar das centenas de pessoas reunidas no Centro Espacial Kennedy. Mais tarde, em 2003, quando estava em casa a repousar depois de uma missão espacial, assistiu em direto na televisão à destruição da nave Columbia. Viu sete colegas morrerem — sete amigos, sublinha — do outro lado do ecrã.

Em conversa com o Observador, na conferência sobre segurança e gestão de riscos promovida pela Galp, Jim Wetherbee recorda esse 1 de fevereiro de 2003.

Tinha aterrado alguns meses antes, por isso estava em recuperação técnica. Era um sábado de manhã às nove da manhã, estava em casa a ver na CNN a aterragem. Quando eles perderam a calma eu não estava preocupado. Mas quando eles não apareceram na pista no momento em que devia ter aparecido, soube que o veículo tinha sido destruído. Corri para o Centro Espacial Johnson”, conta.

Quando lá chegou foi designado diretor da equipa responsável pela busca e reconhecimento dos restos mortais dos astronautas. Chamavam-se  David Brown, Rick Husband, Laurel Clark, Kalpana Chawla, Michael Anderson, William C. McCool e Ilan Ramon. Eram todos amigos de Jim Wetherbee, todos considerados “personalidades de tipo A” dentro da NASA. Os melhores entre os melhores. Mas tinham morrido. E Jim Wetherbee tinha de os “recuperar com dignidade e reverência”. E entender o que esteve por detrás dessa morte.

Jim Wetherbee descobriu o que tinha falhado: “A espuma no tanque externo tinha o tamanho de uma mala e caiu durante durante a descolagem. Bateu na asa e fez um buraco de metro e meio na asa. Isso não era um problema na subida para o espaço. Mas na reentrada na atmosfera, um gás quente entrou no buraco, derreteu o alumínio na estrutura da asa e ela caiu. O veículo ficou sem a estabilidade aerodinâmica para manter controlo e começou a girar. As forças eram equivalentes a 15 vezes a velocidade do som. E o veículo desintegrou-se”, resumiu o astronauta.

Mas Jim Wetherbee descobriu mais do que isso. Percebeu que a culpa tinha sido dos engenheiros aeroespaciais daquela missão e que ele próprio esteve mais perto da morte do que julgava — logo ele que tinha sempre nas mãos, ou julgava ter, o controlo de todas as situações.

“Nos dois voos anteriores ao desastre, a mesma peça já tinha caído, mas em vez de ter batido na casa, bateu no foguete com tanta força que amassou o metal. Aconteceu a primeira vez e eu era o comandante designado para o voo seguinte. E quando os responsáveis estavam a preparar tudo para esse meu voo convenceram-se que aquilo não era um problema. Ninguém se perguntou como é que aquele pedaço de espuma, que tinha a densidade do esferovite, podia ter feito tanto estrago. Na verdade, não mudaram nada após terem descoberto a falha. Mas no voo seguinte ao meu, esse problema foi fatal”, acusa o comandante.

Agora, Wetherbee tinha de ultrapassar a sensação de ter escapado à morte por mera sorte para fazer justiça em nome dos colegas mortos na missão seguinte à dele. Admite que liderou a investigação “em modo técnico”, “a tomar decisões da melhor forma que sabia e o mais depressa que podia”. Só quando parava durante uns segundos para descansar é que deixava os sentimentos subirem à flor da pele: “Um dia, espero ter a oportunidade de encontrar o comandante daquela missão na próxima vida para lhe dizer que fizemos o melhor que conseguíamos. Por isso, qualquer dor ou trauma têm de ser postos de lado. E não podemos pensar neles”, conclui.

Foi assim que aprendeu a lição: “Todos os acidentes podem prevenir-se”. “Nunca vi nenhum que não o fosse, caso as pessoas no topo, as responsáveis por tomar decisões, tivessem tomado decisões melhores. Isto que estou a dizer é muito simplista porque isto é muito difícil de fazer, mas é a verdade”, transmite Jim Wetherbee.

Questionado sobre como carregava esse peso nos ombros sempre que subia até ao espaço, o astronauta confessa que é “o trabalho de uma vida”, mas que teve um aliado: a música. “Tive conversas muito longas com o Max Weinberg, que é o baterista do Bruce Springsteen. Ele também precisa de muita disciplina para estar em palco a tocar perante milhares de pessoas. O Max tem de se distrair das coisas que não pode controlar. Mantém um olho no Bruce Springsteen, que é o chefe, para poder acompanhá-lo caso o plano mude. Se ele fizer um erro, ninguém deve perceber. Mas ele sabe que fez um erro, por isso tem de ter capacidade de ultrapassar isso e seguir em frente. É como eu”, compara Jim Wetherbee. Depois acrescenta: “Mas no meu caso, se eu cometer um erro, alguém pode perder a vida”.