Quase 65 mil crianças e jovens sinalizados e acompanhados por estarem em risco ou serem vítimas de maus-tratos: é esta a contabilização da rede de Núcleos de Apoio a Crianças e Jovens em Risco (NACJR), unidade que se encontra presente na grande maioria dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e que o jornal Público dá a conhecer na sua edição desta segunda-feira.

Negligência e maus-tratos psicológicos são os dois tipos de agressão mais reportados junto desta rede que foi criada em 2008 e já conta com 269 núcleos espalhados pelo país. Segundo os últimos dados, 2016 foi o ano com mais sinalizações: 9.034 casos. Em 2017 houve uma redução — foram 8.670 — valor em linha com o número registado em 2015.

“À semelhança do acontecido em todos os anos anteriores estudados, a ‘negligência’ constitui o mau trato prevalecente, correspondendo a cerca de dois terços do total de registos”, lê-se no último relatório da Comissão de Acompanhamento da Acção de Saúde para Crianças e Jovens em Risco, da Direcção-geral da Saúde, que apresenta dados de 2016 e 2017. Em 2016 as negligências corresponderam a 67% das sinalizações e no ano seguinte a 62%.

Englobando fatores como “carências de higiene” ou falta de “seguimento de uma doença crónica diagnosticada”, explica Vasco Prazeres (coordenador da comissão de acompanhamento), aquilo que se enquadra na definição de “negligência” pode também incluir “sinais de uma alimentação descuidada ou falta de rotinas estabelecidas: sem horas para ir para a cama, come quando calha”.

O segundo tipo de sinalização mais comum, o mau trato psicológico, representou em 2016 cerca de 21% de todos os casos identificados, subindo para 27% em 2017. O relatório citado pelo Público explica que esta forma de violência tem aumentado, em detrimento dos casos de negligência.

O mesmo Vasco Prazeres explica que os maus-tratos, seja de que tipo forem, não se restringem a uma única classe social, é transversal a todas elas. “É a realidade que nos mostra que assim é. Eventualmente somos capazes de identificar, à partida, mais vulnerabilidades e mais fatores de risco que possam propiciar violência em determinados contextos sociais do que noutros”, admite o mesmo.

Luísa Horta e Costa, coordenadora do núcleo do centro de saúde de Lisboa Ocidental e Oeiras, explica que está a ser dada prioridade à prevenção e identificação precoce de casos de risco. “Temos tentado estabelecer que os núcleos tenham um olhar mais atento à primeira infância. Têm crescido as sinalizações durante a gravidez. Por exemplo, uma mãe que vem fazer o curso de preparação do parto e parentalidade e o enfermeiro percebe que não está bem ou o casal não está bem. Intervimos logo com uma primeira consulta de psicologia”, explica ao Público, acrescentando que muitas das sinalizações do núcleo são de crianças até aos dois anos. “O que fazemos é tentar parar tudo aqui”, reforça Luísa.

Já no que diz respeito aos desafios do futuro, Vasco Prazeres explica a importância de as equipas de saúde terem na sua bagagem de profissionais “a incorporação dos maus-tratos como um problema de saúde a rastrear de forma sistemática. Sabemos que a exposição a maus-tratos em idades precoces compromete em muito o desenvolvimento integral das pessoas. E que isso tem um efeito ao longo da vida. A intervenção tem o papel importante de poder travar a replicação do modelo de violência ao longo de gerações”, salienta o coordenador.