A coligação militar internacional que combateu o Estado Islâmico na Síria matou mais de 1 600 civis, devido a ataques pouco precisos, revelou esta quinta-feira uma investigação conduzida pelas organizações Amnistia Internacional e Airwars.

A partir de uma investigação no terreno e com recurso à análise de imagens de satélite feita por voluntários que monitorizaram os ataques militares a Raqqa, as organizações não-governamentais (ONG) Amnistia Internacional e Airwars concluíram que a localidade síria foi a “cidade mais destruída nos tempos modernos”, apesar de a coligação internacional que executou os ataques ter-se referido à “campanha aérea mais precisa da história”.

De acordo com as duas ONG, mais de 1.600 civis foram mortos, como resultado direto de milhares de ataques aéreos conduzidos pelos EUA, Reino Unido e França, em Raqqa, entre junho e outubro de 2017.

A esses ataques aéreos juntaram-se ainda dezenas de milhares de ofensivas de artilharia norte-americana, que terão estado na base de muitas das mortes de civis neste conflito contra o grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, naquela cidade síria.

A investigação hoje revelada mostra como, “apesar da retórica que apresentou o ataque da coligação internacional como a campanha aérea mais precisa da história” militar, houve centenas de civis mortos e mais de 80% da cidade de Raqqa ficou destruída.

Por isso, o projeto agora divulgado pelas duas ONG intitula-se “Retórica versus realidade: como a ‘mais precisa campanha da história’ deixou Raqqa como a mais destruída cidade nos tempos modernos”.

A investigação decorreu durante dois anos, após os ataques de 2017, e envolveu mais de três mil voluntários de 124 países (vários deles portugueses), mais de dois milhões de imagens analisadas e mais de quatro mil horas de trabalho.

Agora que revelam o resultado, a Amnistia Internacional e a Airwars pedem que a coligação militar liderada pelos EUA termine os dois anos de negações sobre a responsabilidade na morte de civis e na destruição da cidade síria.

“As forças da coligação arrasaram Raqqa, mas não podem apagar a verdade”, afirmou Chris Woods, diretor da Airwars.

Este responsável da Airwars disse ainda que “a coligação deve investigar totalmente o que correu mal e aprender com a lição, para evitar infligir tamanho sofrimento em civis, em futuras operações militares”.

Graças ao trabalho dos mais de três mil voluntários, alguns dos quais passaram cerca de dois meses no terreno, foram identificados cada um dos 11 mil edifícios destruídos em Raqqa e foram reunidos os nomes de mais de mil das vítimas civis dos ataques da coligação.

“Milhares de civis foram mortos ou feridos nas ofensivas da coligação internacional, cujos francoatiradores e minas transformaram a cidade numa armadilha mortal. Muitos dos bombardeamentos aéreos foram imprecisos”, explicou Donatella Rovera, consultora sénior da Amnistia Internacional.

Ambas as ONG partilharam informações com as forças armadas da coligação internacional, bem como com os governos dos EUA, França e Reino Unido.

Apesar disso, dizem os responsáveis das duas agências, a coligação admitiu a responsabilidade pelo assassínio de 159 civis (cerca de 10% do total apurado pela investigação), rejeitando os restantes casos como “não credíveis”.

As duas organizações dizem que a coligação não investigou adequadamente os relatórios disponíveis, nem fez o devido trabalho de pesquisa no terreno.

A investigação hoje revelada será apresentada futuramente num portal da Internet interativo, em que poderão ser analisadas fotografias, vídeos e experiências imersivas de 360 graus, através de imagens de satélite e de mapas, para destacar casos de civis vítimas dos bombardeamentos da coligação internacional.