“Professor tem que ensinar e não doutrinar”. Na conta de Twitter do presidente Jair Bolsonaro, que se acredita ser gerida principalmente pelo filho Carlos, foi partilhado este domingo um vídeo que foi captado por uma aluna que se insurgiu contra as opiniões políticas transmitidas por uma professora, em plena aula de gramática — incluindo chamar “anta” a Olavo Carvalho, o chamado “guru” intelectual de Jair Bolsonaro.

No vídeo não aparece o rosto da professora de gramática, apenas o rosto da aluna — cuja identidade não é conhecida –, filmado de baixo para cima. Consegue-se ouvir, no entanto, a professora a referir-se ao ideólogo Olavo Carvalho como uma “anta”, que “mete o pau em tudo”. Essa não terá sido a primeira crítica feita pela professora a pessoas próximas do governo, já que a aluna diz no vídeo que a professora tinha estado os 25 minutos anteriores a “expor a sua opinião politico-partidária”.

“A senhora não pode entrar aqui e falar o que a senhora quiser. Estou pagando pela aula de gramática”, afirmou a aluna, que garantiu à professora que iria passar a gravar todas as suas aulas para colocar os vídeos na internet (isto em resposta ao facto de a professora ter reagido às críticas pedindo à aluna que se fosse queixar ao diretor da escola).

Esta é uma luta antiga de Jair Bolsonaro, que logo nos primeiros dias como presidente se insurgiu contra a “doutrinação ideológica” que, na sua opinião, estava a ocorrer nas escolas — e que lhe seria desfavorável. O presidente brasileiro apoia o movimento “Escola sem partido”: “nós queremos a escola sem partidos, ou se tiver partidos, que tenha os dois lados. Não pode é ter um lado só na escola, isso leva ao que não queremos”, explicou Bolsonaro, recentemente.

Já depois da polémica partilha do vídeo por parte de Bolsonaro, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, defendeu que a aluna pode publicar este vídeo na internet, de um diálogo com uma professora. “Não incentivo ninguém a filmar uma conversa na rua, mas elas têm direito de filmar. Isso é liberdade individual de cada um”, defendeu, garantindo que se vai estudar “os casos com calma. Não faremos nada de supetão”.

O objetivo, continuou Weintraub, não é “criar um clima de caça às bruxas” nas escolas, pois “o direito de todos será preservado”, incluindo dos professores. Ainda assim, o ministro da Educação reconheceu que podem ser necessárias medidas para “melhorar o ambiente escolar”. “Pelo que me foi descrito, o dinheiro do contribuinte não estava sendo gasto da melhor forma. Se eu tivesse pagando por uma aula dessas, eu me sentiria lesado. Agora, vamos olhar com calma e analisar dentro da lei o que pode ser feito, respeitando professores, alunos e pagadores de impostos”, comentou.

Outro Bolsonaro, mas o filho Carlos (vereador no Rio de Janeiro), partilhou na sua conta um outro vídeo publicado pelo Twitter da Escola Sem Partido onde aparece um professor a gritar de forma furiosa e a referir-se ao presidente brasileiro como “essa merda desse Bolsonaro, esse safado de merda”.