A continuidade de Iker Casillas no futebol é ainda uma incógnita (e, pelo que se percebe, um assunto secundário nesta fase de recuperação após o enfarte agudo do miocárdio sofrido no treino matinal da passada quarta-feira) mas começam a surgir nomes de possíveis sucessores do espanhol na baliza do FC Porto. José Sá, emprestado pelos dragões ao Olympiacos esta temporada, aparece sempre como possibilidade – apesar de ter apenas mais um ano de contrato. Do México chega também a informação de que o internacional Guillermo Ochoa, atualmente nos belgas do Standard Liège, poderá estar nos planos dos azuis e brancos. E ainda há Diogo Costa, jovem de 19 anos que foi campeão europeu de seleções Sub-17 e Sub-19 e que é visto como uma promessa da formação do clube. No meio deste cenário, existe Vaná, que ocupou esta noite a baliza.

Apesar de ter feito apenas uma temporada em Portugal ao serviço do Feirense, onde até começou como suplente de Peçanha, o guarda-redes de 28 anos acabou por ser a grande surpresa do FC Porto no mercado de verão de 2017: apesar de ter havido saídas de jogadores que renderam muitos milhões aos cofres dos azuis e brancos (como André Silva ou Rúben Neves), as contingências financeiras dos azuis e brancos transformaram alguns elementos que andavam emprestados em “contratações” para Sérgio Conceição. Com sucesso, acrescente-se, como se viu com Marega, Ricardo Pereira, Aboubakar, Sérgio Oliveira ou Hernâni. Houve apenas uma exceção nesta realidade “a custo zero” dos dragões, Vaná. E também porque a continuidade de Iker Casillas no clube, em virtude do salário elevado que auferia, estava em risco. Os dragões pagaram um milhão de euros pelo brasileiro.

O espanhol ficou mesmo mas, no período de mais de três meses em que saiu das opções iniciais, foi José Sá o guardião chamado para ser o número 1. Assim, o máximo que Vaná obteve até à última jornada foi o conjunto de dez jogos, entre Campeonato e Taça de Portugal, em que ocupou o banco de suplentes sem ser utilizado. O seu momento, efémero, ficou guardado para a derradeira jornada, quando o já campeão FC Porto se deslocou a Guimarães. E nem o facto de ter cumprido apenas 80 minutos ao longo de toda a temporada retirou ao brasileiro entusiasmo na festa da conquista do título.

Vaná levava até agora cinco jogos esta época, todos na Taça da Liga incluindo a final com o Sporting (MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images)

“Gostaria de agradecer, antes de mais, a Deus, por este momento. Quero dedicar este prémio à minha família, à minha mulher e aos meus filhos. Este prémio é para vocês. Quem trabalhou e sofreu tanto durante o ano sabe como é importante estar ali dentro, nem que seja por um minutinho. Quero dar também os parabéns ao Fabiano, que sofreu teve uma lesão grave e hoje mereceu jogar uns minutos e ser campeão. No FC Porto ganhei um amigo e um irmão, que é o Fabiano, uma pessoa maravilhosa. Tinha consciência das dificuldades que era jogar no FC Porto, mas nunca deixei de trabalhar. O treinador disse que não colocava ninguém a jogar por favor, eu mereci, como o Fabiano mereceu. Foi uma temporada longa, com muitos jogos, fiquei muitas vezes na bancada, mas estive sempre com o grupo, a trabalhar. Foi uma época indescritível”, comentou no final.

A continuidade no Dragão voltou a estar em dúvida no último defeso mas a saída de José Sá acabou por abrir espaço a Vaná, que foi opção em todos os encontros da Taça da Liga da presente temporada, incluindo a final frente ao Sporting. Agora, a três rondas do final, o brasileiro teve a oportunidade de fazer o primeiro encontro como titular no Dragão para o Campeonato quase dois anos depois de ter sido contratado, por impossibilidade de Casillas. E o espanhol já tinha deixado elogios ao brasileiro em dezembro, no último jogo da fase de grupos da Champions. “Tento fazer as coisas bem para ajudar o FC Porto porque a concorrência é muito grande, sobretudo com o Vaná e o Fabiano, que são guarda-redes estupendos. Mas logo a seguir vem um craque, o Diogo Costa, que me parece que vai ser um grandíssimo guarda-redes”, comentou o espanhol em Istambul.

Nascido em Planaltina, rumou ao Paraná em 2006 quando tinha apenas 15 anos, para representar o Atl. Paranaense (onde foi companheiro de equipa do lateral Alex Sandro, ex-FC Porto que está agora na Juventus). Esteve depois no Irati, no Londrina e no Operário até 2009, altura em que o pai sofreu um enfarte. Regressou ao Distrito Federal para ajudar a família. Pouco depois, e com o pai recuperado, deu o maior salto da carreira. Vaná agarrou a oportunidade no Coritiba graças ao contacto com um antigo treinador nas camadas jovens, passou uma época no Canoas (em Rio Grande do Sul) mas regressou ao clube original, onde ficou até 2016, ano em que foi cedido ao ABC Natal, onde ganhou o Campeonato Potiguar e foi considerado o melhor guarda-redes do estadual. Foi essa temporada que despertou o interesse do Feirense, que o contratou em 2016/17. Um ano depois, chegou ao Dragão. E estreou-se esta noite em casa pelo FC Porto no Campeonato.

Em declarações ao Mais Futebol, o irmão do guarda-redes, Vinicius, explicou a forma como Vaná reagiu a tudo o que se passou no treino de quarta-feira e acrescentou ainda que Casillas sempre foi uma referência para o brasileiro. “Conversámos ontem [quinta-feira] e o Vaná ainda estava abalado, um pouco assustado até. Estava surpreendido pelo que aconteceu no treino. Além de colega de equipa, o Casillas é uma referência para o meu irmão. Ele diz-me por vezes: ‘Como o Casillas é inteligente… Que leitura de jogo que ele tem! Vinícius, ele parece que tem um íman na bola vem até ele. Ele sabe onde ela vai!’ [risos] O meu irmão está a competir com aquela que é maior lenda das balizas, juntamente com o Buffon. Vive um sonho e ao mesmo tempo uma aprendizagem, sempre com aquela esperança de estar pronto quando a sua hora chegar”, comentou.