O conselho de administração da Caixa não foi avisado nem conhecia os riscos da operação designada Boats Caravela que gerou perdas de 340 milhões de euros ao banco Estado. A afirmação foi feita pelo antigo administrador, António Tomás Correia, que fazia parte da gestão liderada por João Salgueiro que assinou este contrato.

Apesar do seu nome aparecer em várias atas de reuniões onde o tema foi tratado, Tomás Correia não se recorda de quem propôs a operação que veio da área tutelada então por Vieira Monteiro. Mas assinalou, em resposta ao deputado do PS, João Paulo Correia, que o problema estava no contrato de gestão que permitiu ao Crédit Suisse trocar os ativos que estavam no veículo a que a Caixa estava exposta. O antigo gestor testemunhou que o departamento financeiro deveria ter alertado para essas cláusulas. E quem chefiava esse departamento? António Vieira Monteiro tinha esse pelouro, respondeu, mas ao mesmo tempo reafirmou que este gestor (que mais tarde viria a liderar o Santander Totta) jamais teria aceite um contrato com estas características.

Das apresentações feitas, segundo recorda, não seria possível antecipar risco dessa natureza num operação que classifica como de “tesouraria”. Se não, assegurou, a operação não se teria iniciado. “Ninguém troca um risco de 25 milhões de euros de provisões, que não são perdas, por um risco dessa dimensão”, respondeu quando confrontado com as perdas de 340 milhões que este negócio trouxe à Caixa. Tomás Correia admitiu que ficou “surpreendido” com a dimensão dos prejuízos, mas defendeu que o caminho deveria ter sido outro, o da contestação judicial, sugerindo mesmo que essa troca de ativos pelo banco suíço, sem o consentimento da Caixa poderia configurar uma fraude.

“Surpreende como é que alguém aceite que a contraparte troque ativos a seu belo prazer, sem defraudar a outra. E porquê chegar a acordo e não se discutir o tema em tribunal até às últimas consequências?”  Tomás Correia assumiu a sua discordância da opção tomada por António de Sousa que acabou por vender o produto ao banco suíço, já depois de o ex-administrador ter abandonado as funções no banco do Estado. “Entendo que a Caixa deveria ter ido para tribunal até às ultimas consequências” e defendeu essa posição no conselho de administração, acrescentou. Para Tomás Correia, o facto de a Caixa ser reconhecida como investidor qualificado não evitava que o contrato pudesse ser contestado em tribunal.

“Foi falha monumental. Não consigo encontrar explicações”

António Tomás Correia reafirmou várias vezes que o conselho não foi informado sobre as tais cláusulas e que a direção financeira não terá tido “o cuidado de enviar o contrato para analise jurídica”. Se assim foi, “houve uma grande distração”, admitiu. António de Sousa na sua audição afirmou que a administração de João Salgueiro não sabia o que estava a assinar quando fez este contrato que dava ao Crédit Suisse liberdade para trocar os ativos do veículo por outros de pior qualidade, o que gerava as perdas. Essas cláusulas terão sido contratadas já depois da operação ter sido aprovada em conselho de administração nos últimos dias de 1999.

Ou houve incompetência ou um administrador sabia e não avisou, insistiu Mariana Mortágua. “Foi uma falha monumental”, respondeu, mas Tomás Correia não acredita que os administradores tenham sabido dos riscos deste contrato. “Não consigo encontrar explicação”. Nem avançou com nomes de eventuais responsáveis, apesar do seu nome estar em atas do conselho de administração que discutiram o tema.

O deputado do PS insistiu no tema: Quem devemos responsabilizar?, pergunta feita várias vezes por João Paulo Correia.

“Tenho a certeza que nenhum dos administradores foi alertado para essas cláusulas. Perguntem aos auditores”, sugeriu.  E reafirmou que aprovou uma operação que não tinha o contrato anexo onde estavam as cláusulas que permitiam a total discricionaridade à contraparte. O conselho de administração decidia e a respetiva direção tratava da contratação alinhada com a decisão do conselho de administração. O ex-gestor da Caixa não se recorda quem apresentou a operação no conselho de administração e nos concelhos diários. “Não pode exigir isso passado 20 anos”. E voltou a apontar Vieira Monteiro que era o administrador do pelouro, uma personalidade que não consta da lista de antigos gestores da Caixa cujas audições foram já aprovadas neste inquérito parlamentar.

A operação em causa foi proposta como um swap de ativos que tinha vantagens na tesouraria porque evitava provisões, com impacto negativo nos resultados, e foi decidida dias antes de terminar o ano de 1999. Segundo Tomás Correia, o banco público estava habituado a trabalhar com crédit default swaps (CDS), o tipo de produto estruturado e complexo que foi subscrito com o Crédit Suisse.

O “desconforto” com decisões crédito da Caixa, críticas ao “Sr. Dr. Sousa” e a venda do Brasil

António Tomás Correia saiu da administração e da própria Caixa em 2003, a seu pedido. Renunciou ao cargo depois de 36 anos de casa. por discordância com o “caminho que a Caixa estava a trilhar”, disse o atual presidente da associação mutualista Montepio na comissão parlamentar de inquérito à gestão da CGD. “Foi o dia mais triste da minha vida”.

Em resposta ao deputado socialista João Paulo Correia, admite que havia também divergências com a linha seguida no crédito que não era a mais adequada. A cultura conservadora na análise dos créditos perdeu-se e invocou uma cultura de discussão aberta por todos os administradores e diretores que também deixou de ser seguida, o que causou algum “desconforto”, afirmou sem especificar casos. Nesse sentido, Tomás Coreia disse que estava alinhado com as preocupações manifestadas por Almerindo Marques, administrador à data, junto do Banco de Portugal e acionista, mas acha que esta iniciativa acabou por não ter grandes efeitos.

Ao longo da audição, Tomás Correia foi deixando várias críticas ao homem que ocupava a liderança da Caixa quando abandonou funções e que tratou várias vezes por Sr. Dr. Sousa (António de Sousa).

A venda das operações bancárias no Brasil foi um das razões invocadas por Tomás Correia para sair do banco. O gestor sublinhou que era contra a venda das participações nos bancos Unibanco e Itaú que mais tarde se fundiram, criando o maior banco da América Latina. Se a participação se tivesse mantido, a Caixa poderia não ter precisado de um esforço tão grande de recapitalização, admitiu. Mas na altura, “após a entrada do Sr.Dr. Sousa (António de Sousa)” percebeu que este achava que era um projeto muito difícil e arriscado e que queria vender.

“A crise explica muita coisa, mas a visão do Sr. Dr. Sousa também não teve um bom resultado”. Se a direção de risco que diz ter sido criada por imposição regulatória tivesse sido devidamente capacitada e apoiada no papel, “não estávamos aqui nesta comissão de inquérito”. Tomás Correia confessou que lhe doeu a venda da operação no Brasil que poderia ter consolidado resultados de 700 a 800 milhões de euros por ano para a Caixa se não tivesse sido vendida por decisão do então presidente da Caixa.

“Ele tinha uma visão, mas e realidade e o futuro demonstraram uma outra coisa diferente. Estou a tentar ser civilizado”.

Tomás Correia foi administrador da Caixa até 2003, na equipa liderada por António de Sousa e saiu do banco por alegadas divergências estratégicas com a gestão do banco. Depois da Caixa foi para a caixa económica Montepio onde foi presidente executivo até 2014 e atualmente é presidente da associação mutualista Montepio Geral