Tem 41 anos, é licenciada em Biotecnologias Industriais, doutorada em Neurociências e tem uma especialização em Ciências da Comunicação. Foi investigadora na Universidade de Turim e hoje é colunista em vários jornais e revistas italianas. Através da Frame, agência de comunicação e divulgação científica que fundou no final de 2017, Beatrice Mautino é também e curadora e produtora de exposições e eventos científicos. Foi em 2015 quando, com Dario Bressanini, escreveu “Contro Natural (Rizzoli)”, um best-seller que explora o sistema de produção alimentar e desmitifica uma série de mitos relacionados com o tema, que Beatrice Mautino sentiu necessidade de lançar um livro que abordasse o mundo dos cosméticos de uma forma científica. Uma ideia pertinente numa altura em que somos inundados diariamente com todo o tipo de informação sobre o universo da beleza e do bem-estar, em que o marketing e publicidade prometem produtos milagrosos ou ingredientes amigos do ambiente, torna-se difícil fazer escolhas corretas, conscientes e seguras.

Em maio, Beatrice lançouAs Mentiras da Cosmética, um livro onde desfaz lendas e mitos sobre os produtos de beleza e revela truques para escolher o mais eficaz, apesar dos artifícios usados pelas marcas. Dos processos de produção à experimentação em animais, dos protetores solares à agua micelar, a autora tenta encontrar estudos que respondam às preocupações e perguntas dos consumidores. “O creme mais barato tem menos qualidade que o mais caro? Os tratamentos para as rugas resultam? A pele habitua-se aos produtos que usamos?” são apenas algumas questões abordadas num livro que também ensina a ler rótulos e a identificar os melhores ingredientes para a nossa saúde. Existem capítulos dedicados à pele, aos cabelos, à depilação, às rugas ou à celulite, e pelo meio Beatrice Mautino conta ainda a história de uma indústria apelativa, competitiva e em permanente evolução, apelando ao sentido crítico do consumidor, desfazendo e desmontando uma série de teorias e mentiras sobre o maravilhoso universo dos cosméticos.

Quando se começou a interessar pelo mundo dos cosméticos?
Tudo começou com as pesquisas para o meu livro anterior “Contro Natura”, escrito com o cientista Dario Bressanini, sobre alimentação, agricultura e os seus mitos. Nessa altura percebi que muitas tendências no mercado e na comunicação da alimentação também podiam ser usadas no setor da cosmética. Em cada pacote de bolachas sem óleo de palma ou glúten podemos encontrar um anti transparente sem parabenos. Como existem super alimentos, também podemos encontrar super cosméticos com ingredientes que acreditamos serem mágicos e milagrosos. Comecei assim a procurar informação e percebi que pelo menos em Itália não existe comunicação ou um tipo de jornalismo independente sobre cosmética. Decidi preencher o vazio e decidi escrever sobre o assunto.

Por onde começou?
Um certo dia estava num supermercado a fazer a minha pesquisa para o livro e encontrei um sabonete que dizia “não tem sabão”. “Porquê?”, perguntei-me. Uma pessoa que procura um sabonete sente-se atraída por um sem sabão? Quimicamente falando, o que existe num não sabão? Intrigada com este facto, comecei a ler todas as informações da embalagem e o produto continha óleo de argão e outros ingredientes “orgânicos”. Questionei se serão estes ingredientes perigosos? Qual é a vantagem de um sabonete sem sabão? Serão todas estas informações garantia de qualidade? Percebi que tinha imensas perguntas e que não encontrava informação útil, válida e rigorosa que satisfizesse a minha curiosidade. O “não sabão” foi então um estímulo para contar o que os rótulos dos cosméticos não dizem.

O mais a surpreendeu neste processo de pesquisa e escrita do livro?
Fiquei realmente surpreendida quando percebi que os preços dos cosméticos não estão relacionados com a qualidade. Para fazer este livro entrevistei uma das maiores empresas de máscaras de beleza, disseram-me que produziam máscaras para várias marcas, desde as de luxo às mais low cost. A diferença do custo de produção das mais económicas às mais caras era apenas de alguns cêntimos. O que as distingue está na sedução à volta do mundo da cosmética e isso é demonstrando em diferentes experiências. Por exemplo, se der um creme de rosto a dois grupos de pessoas e se num grupo der uma embalagem de luxo e a outro uma mais económica, vai obter diferentes reações sobre o mesmo produto. As pessoas que recebem a embalagem luxuosa ficam mais satisfeitas e sentem-se melhores e mais importante do que as que recebem a embalagem mais económica.

Que mensagem tenciona passar com estas experiências?
O objetivo é ajudar os leitores a ver os cosméticos de uma perspetiva diferente. Por um lado, como consumidores temos de ser mais céticos e exigir mais informação e mais transparência por parte das empresas, por outro lado, não podemos esquecer que os cosméticos são um prazer, portanto, devem ser agradáveis e devem fazer-nos sentir bem.

Existe muita informação dentro deste universo, em que medida o livro é diferente e inovador?
Neste momento somos esmagados com todo o tipo de informação sobre cosméticos, a televisão bombardeia-nos com publicidade, as revistas revelam as últimas novidades e tendências de beleza e há ainda imensos artigos que nos alertam para produtos e ingredientes que nos podem causas problemas e doenças. Tudo isto não é uma informação real, nós apenas sabemos o que o marketing quer que nós saibamos. Penso que o meu livro vais mais além, vais mais fundo.

Para si, qual é o aspeto mais perigoso no mundo da cosmética?
Estou francamente preocupada com a temática do detox e com todas as cápsulas e bebidas que legalmente não são considerados produtos cosméticos, mas que as pessoas os entendem como tal, uma vez que prometem milagres, como a eliminação da celulite ou o rápido emagrecimento. Estas modas e tendências são muito populares nos media e especialmente no Instagram, onde há muitos jovens. Penso que é importante vigiar de certa forma o que acontece e fornecer informação fidedigna, que seja capaz de evitar erros e excessos. Em Itália, antes de eu começar a investigar dados científicos e independentes, esse material era quase inexistente. No entanto, no último ano, surgiram na comunicação social alguns especialistas que difundem conteúdos verdadeiramente úteis. Espero que o mesmo possa acontecer em Portugal.

Por que razão o marketing se torna tão decisivo na hora de comprar cosméticos?
Porque somos seres humanos e o nosso cérebro atrai o que é novo e por aquilo que julga ser melhor que os outros, tentando também fugir do que lhe parece perigoso. Desta forma, o marketing mexe com as nossas emoções, com o objetivo de direcionar as nossas escolhas e isso, na prática, funciona muito bem.

Qual é o maior mito no mundo da cosmética?
Provavelmente que a celulite é uma doença e que pode ser curada. A celulite não é uma doença e infelizmente não pode ser tratada. Como explico no livro, apenas podemos retocar cosmeticamente para ter melhor aspeto, mas por agora é impossível eliminar.

O que deve ter um bom cosmético?
Diariamente nos media, e especialmente no Instagram, onde tenho quase 50 mil seguidores, recebo questões que começam “na sua opinião…” eu respondo que como escritora científica tenho naturalmente opiniões, mas elas não são relevantes. Por exemplo, podemos encontrar muitos prós e contras em ter um cosmético com poucos ingredientes. Esse tipo de produto por ser mais económico e ter menos impacto no meio ambiente, mas depende também da sua produção. Em cosméticos orgânicos, onde muitos ingredientes com parabenos não são permitidos, o produtor precisa de utilizar diferentes componentes que preservem o seu produto. Desta forma, é muito difícil ter uma regra para todos. Provavelmente a coisa mais importante para um bom cosmético é a transparência no rotulo e no seu objetivo principal.

Os cosméticos na farmácia têm mais qualidade do que nos supermercados?
Não, todos os cosméticos vendidos na União Europeia seguem as mesmas regras. A escolha da venda de um cosmético na farmácia ou num hipermercado é a escolha do posicionamento do marketing que depende simplesmente do objetivo e da expectativa da marca.

Há produtos milagrosos?
Não, de todo.

O que usa diariamente? Quais são os essenciais para si?
Basicamente o que me ajuda a sentir melhor. Os cosméticos não são drogas, medicamentos ou algo essencial, simplesmente ajudam-nos a sentirmo-nos melhor connosco próprios e com o mundo. É importante viver com eles livremente, mas mantendo sempre os olhos bem abertos.