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Moda

“Era uma vez em… Hollywood”: Tarantino e um guarda-roupa cheio de tesouros

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"Era uma vez em... Hollywood" é uma viagem pela moda dos anos 60 e 70. Entre preciosidades vintage, réplicas de peças icónicas e tendências atuais, Tarantino continua a dar (também) lições de estilo.

Cliff Booth, personagem de Brad Pitt, traz um clássico do guarda-roupa tarantiniano: a camisa havaiana

Sony Pictures Entertainment

Quentin Tarantino é um mestre a muitos níveis, mas a habilidade com que coroa as suas personagens com guarda-roupas espetaculares é digna de destaque. Não é há toa que o fato de treino amarelo de Uma Thurman, nos dois volumes de “Kill Bill”, permanece até hoje como um dos visuais mais emblemáticos da sétima arte. Em “Pulp Fiction”, nunca uma simples camisa branca e um banal corte de cabelo —  falamos da personagem Mia Wallace, desempenhada pela mesma atriz — se tinha tornado tão icónico. Em “Amor à Queima-Roupa” (“True Romance”, o título original), filme de 1993, o ator Christian Slater divide o protagonismo da sua personagem com a camisa havaiana com que aparece na maior parte da fita. O mesmo poderá dizer-se de Tim Roth, Pumpkin em “Pulp Fiction”.

Brad Pitt é Cliff Booth e Leonardo DiCaprio é Rick Dalton no novo filme de Quentin Tarantino © Sony Pictures Entertainment

Agora, em “Era Uma Vez em… Hollywood”, coube a Brad Pitt trazer a famosa camisa havaiana de volta. Cliff Booth, um duplo de cinema, surge de calças de ganga de corte regular, a usar uma t-shirt com logótipo (já lá vamos) e lentes de aviador. Resumindo, a farda de um ilustre desconhecido na Los Angeles de 1069, porém confiante na sua própria pele. Por sua vez, Rick Dalton, personagem de Leonardo DiCaprio, é o ator que, em bicos de pés, tenta agarrar uma carreira no cinema, inseparável do seu blusão de couro castanho. “Os grandes figurinos têm o poder de transportar o público para um tempo e para um lugar sem que se diga nada”, afirmou Arianne Phillips, responsável pelo guarda-roupa do filme, à revista Vogue. “Walk the Line”, “Um Homem Singular”, “Animais Noturnos” (este dois realizados por Tom Ford) e um vasto rol de produções de Madonna, entre videoclipes e documentários — no currículo, a designer só ainda não tinha uma produção de Tarantino.

Parece óbvio que o nervosismo antecedeu o momento da entrevista, embora Arianne já tivesse andado a pesquisar sobre a moda da década de 1970 e do final dos anos 1960, por conta de um outro trabalho que não chegou a avançar. “Tive de ler primeiro o guião, claro. Mas não me deixaram tirar notas nem fotografias enquanto lia, o que me assustou bastante. Como é que ia fazer uma apresentação para o Quentin com base no esqueleto de um guião e sem notas?”, partilhou com a mesma publicação. Ao fim de duas horas e meia de leitura, teve a certeza de que nunca tinha lido um guião assim. Para o realizador, preparou dois livros de fotografias e colagens. “Pu-los numa caixa preta, juntamente com uma camisa havaiana vintage, no tamanho do Quentin, gel para o cabelo e uns óculos de sol antigos que o Rick Dalton talvez usasse”, revelou.

Leonardo DiCaprio troca o blusão de cabedal por um fato © Sony Pictures Entertainment

O sortido revivalista não ficou por aí. Havia ainda um CD com uma miscelânea de canções, todas elas tocadas pela rádio KHJ no final dos anos 1960 — Paul Revere & the Raiders, Tom Jones, Elvis Presley e The Mamas and the Papas. “Ele tem uma confiança quando pensa e fala sobre os figurinos que os realizadores, normalmente, não têm”, acrescentou Phillips. Tarantino juntou-se à equipa nas primeiras provas. “Não é um filme de moda. a moda é um reflexo da cultura, um reflexo do que aconteceu numa determinada época. Havia referências históricas reais a tendências, mas a maioria dos figurinos veio das personagens e das suas personalidades, tal como Quentin as criou no guião original”, contou.

Sharon Tate, um ícone recriado

A ação tem três protagonistas. Rick Dalton e Cliff Booth são personagens ficcionais, Sharon Tate, atriz e fenómeno de popularidade da década de 1960, interpretada por Margot Robbie, não. Eis uma evidência impossível de contornar para Tarantino e Phillips — ao criarem um guarda-roupa para a personagem, estavam a recriar um ícone de estilo no ecrã. Entre os visuais mais icónicos está o do trench coat em pele de cobra, peça que o realizador viu numa fotografia antiga de Tate e que a designer de serviço reproduziu. O filme conta, aliás, com várias peças feitas de raiz, quase tantas quantas as que Phillips encontrou em lojas e negociantes de roupa da época.

Sharon Tate com o marido, o realizador Roman Polanski. Ao lado, Margot Robbie com uma réplica do casaco usado pela atriz nos anos 1960

Existem incontáveis registos fotográficos de Sharon, muitas vezes com a sua silhueta babydoll, ainda assim, Arianne procurou consultoria. Debra Tate, irmã da atriz brutalmente assassinada a 9 de agosto de 1969, foi uma ajuda imprescindível. “Coincidentemente, a Debra estava a preparar um leilão e acabou por conseguir um empréstimo de joias da Sharon para a Margot usar”, contou a designer ao Hollywood Reporter. Por outro lado, e apesar das centenas de referências visuais, Tarantino e Phillips acabaram por pôr de lado alguns visuais icónicos da atriz. O foco não eram as criações do britânico Ossie Clark ou da casa Chanel, o foco era a personagem.

Durante a preparação do guarda-roupa, Arianne Phillips teve oportunidade de ver e tocar em muitas das peças de Sharon Tate. “Ajudou-me imenso a perceber como era o gosto dela”, explicou a designer, desta vez ao site CR Fashion Book. Com uma constituição física semelhante, Margot Robbie empenhou-se em absorver os traços da atriz. “A Sharon era conhecida por nunca querer usar sapatos, o que era muito comum na época. Os restaurantes tinham os seus requisitos, então ela colocava elásticos entre os dedos dos pés para parecer que estava de sandálias. Isto é uma verdadeira carta de amor à Sharon, em muitos sentidos, quisemos mesmo honrar a memória dela”, concluiu a figurinista.

Anos 70: a década que foi e voltou com o que tem de melhor

Tal como aconteceu com muitas outras décadas, nem sempre estivemos dispostos a receber a moda dos anos 1970 de braços abertos — seja pelas bocas de sino, pelos cintos ostensivos, pelas lentes XL, pelas cinturas subidas ou pela escala de castanhos e beges, sem dúvida, difícil de engolir. Mas o que o novo filme de Quentin Tarantino deixa bem claro — a ação decorre em 1969, mas o momento é já um prenúncio do que viria a ser a década seguinte — é que a distância que nos separa do guarda-roupa de há 50 anos foi, naturalmente, encurtada pelo efeito cíclico da moda, o mesmo fenómeno que viabilizou o regresso da t-shirt da Champion, usada por Brad Pitt no filme. O fabricante norte-americano de componentes automóveis voltou a produzir a t-shirt branca com o logótipo esbatido, a mesma que aguçou o desejo consumista de meio mundo, assim que começaram a sair as primeiras imagens do filme. Custa 13 dólares, cerca de 11,60 euros, e está à venda online.

Uma lista de compras para o novo filme de Tarantino: botas Asos, óculos Ray-Ban, camisa Pull & Bear, cinto Etro, blusão Mango e t-shirt Champion

Na realidade, a t-shirt e a camisa havaiana de Cliff Booth, bem como a descontração com que adiciona um blusão de ganga a umas calças do mesmo material, não estão ali por acaso. No final dos anos 1960, o guarda-roupa masculino tinha passado por uma transformação significativa. Menos rígido — embora os fatos também façam parte deste retrato cinematográfico — e a meio caminho de um charme négligée que chegaria décadas depois. Afinal, o que há de realmente impraticável? O blusão de couro castanho de DiCaprio? As chelsea boots de camurça? A camisa espampanante? As calças bootcut? Os clássicos aviator não são, certamente.

Mas resumir o contexto histórico e social da época em que a ação decorre num moodboard é, no mínimo, redutor. Tal como hoje, em 1969, a moda não se limitava a um único estilo ou imagem modelo. “O filme é sobre mudança e sobre como Hollywood estava a mudar”, referiu Arianne Phillips ao CR Fashion Book. A multidão era, na verdade, bem mais heterogénea — dos hippies descalços e miúdos do colégio que andavam colares de missangas aos mais velhos, que ainda exibiam as modas da década que se aproximava do fim. A própria Margot Robbie, ao longo do filme, alterna visuais posh e calções de ganga cortados. DiCaprio chega a usar fato, referência formal do vestuário masculino. O retrato tarantiniano é, na verdade, fiel à mescla de Hollywood.

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