José Cid vai ser galardoado com um Grammy Latino de excelência musical, foi anunciado esta quinta-feira. O cantor e compositor português, musicalmente ativo desde meados dos anos 50, vai receber o Lifetime Achievement Award pelo seu importante contributo para a música latina.

Em comunicado, a Latin Recording Academy, que atribui os Grammys Latinos, que premeiam trabalhos em língua portuguesa ou espanhola, destacou a adaptação da influência da música popular inglesa a um “estilo original” de pop-rock português. A academia recordou ainda o percurso de Cid, que começou em 1956 com a banda de covers Os Babies e se prolongou durante as décadas seguintes. Nos anos 80, quando o compositor se virou para as “raízes de Portugal”, ganhou uma maior popularidade.

Este ano, além de José Cid, vão receber o Lifetime Achievement Award os artistas Eva Ayllón, Joan Baez, Lupita D’Alessio, Hugo Fattoruso, Pimpinela, Omara Portuondo e José Luis Rodríguez “El Puma”. Os prémios vão ser entregues em novembro, numa cerimónia conduzida por Jonnhy Ventura e Paola Rojas em Las Vegas.

“Cada uma destas lendas continua a deixar a sua marca no mundo da música latina através do seu talento, encanto e paixão por criarem sons que vibraram através das nossas comunidades, ao mesmo tempo que ajudaram a construir a nossa música durante décadas”, declarou Gabriel Abaroa Jr., presidente da Latin Recording Academy.

Os Grammy Latinos celebram em 2019 o seu 20.º aniversário.

José Cid ao Observador: “Há muito tempo” que o pop-rock português “merecia uma celebração a nível mundial”

Em declarações à Rádio Observador, José Cid declarou não estar surpreendido com a homenagem, não pelo seu caso, mas “porque há muito tempo que a música portuguesa e o pop-rock português, que é tão rico, merecia uma celebração a nível mundial”. Apesar de lhe ter calhado a si, como admitiu, o músico garantiu que existe muita gente talentosa em Portugal, “grandes poetas, grandes vozes, grandes músicos, grandes produtores que também poderiam ter recebido este prémio”. Cid lembrou o caso do “colega” Carlos do Carmo, que vendeu o mesmo prémio em 2014. Embora, “o fado seja uma coisa à parte”.

Sobre a divulgação e reconhecimento da música portuguesa, Cid apontou que “Portugal é um país muito pequenino” e que as suas “fronteiras são muito limitadas”. “O nosso mercado é, para as multinacionais, reduzidíssimo. Espanha não quer saber de nós, mas sempre tivemos melhor música do que eles. O Brasil também não quer saber de nós. Temos músicas que nunca foram reconhecidas no Brasil, e injustamente. Estamos confinados às nossas fronteiras e ainda por cima só metade do país é que gosta de poesia com sonho, de produções rigorosas. De grandes temas, mas produzidos de uma forma absolutamente atual e muito portuguesa também”, declarou. Na opinião do músico, isso “limita ainda mais o reconhecimento do pop-rock português” a nível mundial.

José Cid esteve em directo na Tarde da Rádio Observador e reagiu ao prémio num conversa com Ana Filipa Rosa e João Alexandre

Cid garante que vai receber o seu galardão “em nome da música portuguesa”, dos seus colegas e daqueles que “gostam verdadeiramente de música de qualidade em português”. “Receber um prémio paralelamente à Joan Baez, que admiro imenso, é extraordinário para mim”, admitiu ainda. “Recebi prémios importantíssimos, mas este vem acrescentar muito. É a confirmação a nível mundial de que existe muita criatividade no nosso pais. Infelizmente, não jogamos futebol e não emigramos, portanto não temos esse reconhecimento lá fora e as fronteiras de Espanha estão-nos fechadas.”

Questionado sobre o facto de a Latin Recording Academy ter destacado a popularidade que o cantor e compositor, passados mais de 60 anos de carreira, tem junto do público português, Cid referiu que os espectadores continuam a aplaudi-lo nos muitos concertos que ainda dá e que “ninguém sai de lá”. “Isto é um sonho. É também muito um pouco da minha teimosia, mas eu gosto muito da minha profissão”, disse.

Marcelo Rebelo de Sousa: José Cid é um “orgulho” para os portugueses

O Presidente da República felicitou o músico português, num telefonema feito a partir de Lagos, pela atribuição do muito merecido Grammy Latino por ‘Excelência Musical'”. Numa nota publicada no site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou a “importância de José Cid no panorama da música nacional e internacional, ao longo de uma brilhante carreira de seis décadas, agora justamente reconhecida”.

“O prémio, anteriormente atribuído a Carlos do Carmo, distinguiu este ano nomes tão importantes quanto Joan Baez e Omara Portuondo, a quem a Academia reconheceu igualmente contribuições excecionais para a música latina”, acrescentou Marcelo, afirmando que o cantor e compositor é um “orgulho” para os portugueses.

“Do Quarteto 1111 ao Festival da Canção, do rock progressivo às baladas e aos sucessos trauteados por várias gerações, a constância e a diversidade de José Cid, há muito reconhecidas em Portugal, recebem agora uma distinção internacional que é justo motivo de orgulho para o premiado e para os portugueses”, concluiu.

António Costa: “Importante prémio” para um dos “mais populares artistas portugueses”

No Twitter, o primeiro-ministro considerou que o Grammy atribuído a José Cid um “importante prémio” para um dos “mais populares artistas portugueses”. “Felicitei hoje José Cid pelo Grammy Latino de Excelência Musical. Se o Cid já era um dos mais populares artistas da música portuguesa, este importante prémio reconhece que o seu contributo é além-fronteiras. Parabéns”, referiu António Costa.

Ministra da Cultura: canções de José Cid são “montra inovadora que marcou o pop rock em Portugal”

A ministra da Cultura felicitou, em comunicado, o prémio atribuído ao músico português. “O excecional percurso de José Cid faz parte do cancioneiro nacional pop”, afirmou Graça Fonse, ao início da noite desta quinta-feira. “As suas canções atravessam gerações e são uma referência no panorama musical, montra inovadora que marcou o pop rock em Portugal.”

Na opinião da ministra, “o reconhecimento internacional é também o reconhecimento de uma inventividade linguística atenta aos fenómenos musicais do seu tempo, que permite à música portuguesa, e à sua história, dialogar com um território mais vasto como é o espaço latino”.