No ecrã, Catarina Martins estava à direita e Assunção Cristas à esquerda no único debate entre mulheres nestas eleições legislativas. Mas só se podia enganar quem tivesse a televisão com o ‘mute‘ ligado. No debate na RTP3, a líder bloquista não deixou ficar mal Keynes e Cristas não desiludiu os liberais da escola de Chicago. Uma quer mais investimento público, outra defende que o motor da economia deve ser o investimento privado. Uma quer baixar impostos às empresas ao ponto de Portugal ser uma nova Irlanda, outra acusa-a de querer tornar Portugal num offshore. Ficou claro porque o Bloco tem esquerda no nome e porque o CDS é o único partido parlamentar que assume ser de direita.

Um, dois, esquerda-direita. O ritmo foi de marcha e de batalha. Assunção Cristas e Catarina Martins estiveram em sucessivos ataques e contra-ataques. A política fiscal dominou a maior parte do debate de apenas meia-hora, mas houve tempo para a austeridade, para o investimento e para duas pequenas, ainda que muito pequenas, concordâncias: o aumento da licença de parentalidade e a ideia de que há desigualdade entre homens e mulheres.

Cristas começou por dizer que só tinha lido algumas partes do programa do Bloco de Esquerda, mas acabou a dizer que tinha lido tudo muito bem. Catarina Martins começou por dizer que leu tudo e acabou a ouvir a sua adversária a dizer que não se tinha preparado.

Impostos: Centeno vs Gaspar

Assunção Cristas tem uma bandeira de que não abdica: “A prioridade número um do CDS é libertar as pessoas, as famílias e as empresa da maior carga fiscal de sempre“. Para a líder centrista o governo da geringonça “apropriou-se da riqueza que as pessoas foram criando”. A solução de Cristas é assim baixar impostos, com particular destaque para o IRS (numa baixa média de 15%) e para o IRC.

Catarina Martins, claro, não concorda com nada. A bloquista disse que tinha lido o programa do CDS e criticou o facto de os centristas quererem colocar a taxa de IRC ao nível da Irlanda. “Em seis anos“, ainda retificou Cristas (o programa fala em chegar a um IRC de 17% em 2020 e 12,5%, o valor da Irlanda, em 2026). Mas a líder bloquista ia lançada a acusar Cristas de defender uma “ideia do Portugal offshore“, em que a economia é “assente na redução dos impostos para as empresas”.

A líder do Bloco fez ainda a defesa de honra de Centeno, destacando que a “receita fiscal aumentou”, mas não resultou num “esforço fiscal, porque a receita do Estado aumentou.” Lembrou, por exemplo, que “as contribuições para a Segurança Social aumentaram em 2,2 mil milhões de euros, porque o emprego aumentou”, que “o IVA aumentou sem as taxas terem aumentado, e até baixou na restauração”, entre outros exemplos.

E se Cristas defendeu que este governo castigou as famílias, Catarina Martins também teria resposta para isso: “Não sei que famílias é que a dra. Assunção Cristas conhece, as que eu conheço lembram-se do brutal aumento de impostos de Vítor Gaspar e agora reconhecem que estão a pagar menos impostos do que pagavam.” E viria ainda mais um ataque a Cristas: “É bom não dizermos coisas no ar, é bom olharmos para os números e sabermos o que estamos a dizer. A OCDE diz que rendimento disponível aumentou acima da média da OCDE”. Cristas ripostou que “Portugal está apenas à frente da Grécia e do Chipre” nessa matéria.

O regresso ao passado

A matéria dominou uma boa parte do debate. Se Catarina Martins lembrou Vítor Gaspar (e ainda foi a Paulo Núncio), Assunção Cristas acusou a bloquista de estar a querer comparar o incomparável: “Está a querer comparar um tempo difícil, de intervenção da troika, de excecionalidade, com um tempo de normalidade”. A líder centrista recordou que o “enorme aumento de impostos de Gaspar foi revogado pela carga fiscal máximo de Mário Centeno”. E aí atirou com um pronome possessivo para colar Catarina a António Costa: “[Mário Centeno] do seu governo, do governo que o Bloco apoia. Esse tempo [excecional] já passou. Não têm a desculpa da troika. Naquele tempo, por muito que quiséssemos, não era possível baixar impostos. Agora é”.

Cristas quis depois mostrar que, afinal, tinha o programa do Bloco na ponta língua e acusou Catarina Martins de querer “acabar com 127 benefícios fiscais, que incluem “isenções de quem vende e compra uma casa”. A líder centrista diz que o Bloco Esquerda “propõe-se acabar com todos estes benefícios fiscais porque entende que é combater abusos e repor a igualdade” e depois questionou, num piscar de olho à classe média e média alta que troca de casa: “Pergunto, vender a sua casa e comprar outra é abuso porque trocou de habitação?”. Para Cristas isto só quer dizer uma coisa: que Catarina Martins é não só “responsável pela maior carga fiscal de sempre”, como “propõe-se a aumentar ainda mais”.

Tempo de Catarina Martins responder que a proposta mencionada por Cristas tem detalhes que preveem que quem especula com imobiliário pague imposto e dizer que considera “má ideia baixar impostos sobre quem deve fazer o esforço fiscal porque não está a pagar o que deve” e “está a pagar menos do que quem paga o seu salário, a sua pensão”. A bloquista deixa claro que não quer baixar os impostos para as empresas, mas antes “desfazer o enorme aumento de impostos do governo” para as pessoas. Insistindo no governo de Passos, Catarina lembrou que Cristas fez parte de um governo que “impôs a ideia de que empobrecendo o país ia aparecer uma nova economia, pujante, que ia fazer o país crescer”. E guardou uns segundos para visar a própria tutela de Cristas quando lembrou a “lei das rendas, que despejou milhares de pessoas das suas casas”

Catarina Martins voltou a puxar da ideologia para dizer que a geringonça repôs salários, “ao contrário dos milionários que o CDS gosta de apoiar com benefícios fiscais”. O ênfase estava em “milionários”, um alvo do Bloco. Para a bloquista o país melhorou porque “quem ganhou o seu salário, a sua pensão não vai pô-lo numa offshore, vai gastá-lo aqui na economia”, daí que a economia tenha começado a melhor e a “respirar de alívio.” A líder do Bloco tentou ainda desmistificar a ideia de que o programa do BE quer aumentar impostos (embora assuma que não os quer baixar para as empresas e que no IRS quer “mexer nos escalões” para favorecer quem ganha menos): “Não é verdade que o programa do CDS é de descida de impostos e o Bloco de Esquerda de subida de impostos. A classe média do CDS é diferente da que conhecemos.” E lembra, por exemplo, que o BE defende a “descida do IVA da eletricidade”, que o CDS não acompanha.

Investimento público vs privado

Quando o moderador questiona Catarina Martins sobre uma série de medidas e sobre se é possível tanto investimento público, a coordenadora do BE responde: “É essencial. Ou o país investe ou não seremos capazes de resolver os problemas que temos. Aumentou-se a despesa neste período, mas não o suficiente para repor o que tinha sido cortado”, respondeu em mais uma farpa ao governo anterior.

E aqui voltaram as diferenças ideológicas. Para a bloquista, o SNS deve “voltar a ter capacidade de ter meios de diagnóstico, que hoje não tem, contratualiza com o privado, as pessoas andam de um lado para o outro e é mais caro”. Já o CDS, adverte Catarina Martins, “não quer creches públicas, quer contratualizar com privados. Não quer SNS, quer contratualizar com os privados. Põe o país mais fraco na mão dos privados“.

Assunção Cristas responderia que o CDS quer apenas uma “saúde centrada no utente”, mas admite o que chama de um “Estado social de parceria”, entre privado e público, para reduzir as listas de espera em cirurgias e consultar. Explica que se trata de uma questão de justiça para que, quem não tem seguro de saúde, possa também usufruir das comodidades do privado. Além disso, assume que se “utilize a rede de creches existente, com contratualização” ao invés de se construir creches públicas.

Cristas disse ainda que concorda que o “sem investimento o país não avança”, mas logo acrescenta que “tem de ser um essencialmente investimento privado”. Diz até que “foi o que puxou o país durante os últimos quatro anos”, já que “o investimento público nestes quatro anos ficou abaixo dos anos anteriores. O de 2018 está abaixo de 2015 e está abaixo da zona euro.” Tudo isto, em “quatro Orçamentos de Estado que o Bloco de Esquerda apoiou”. E explicou a sua visão mais liberal.  A líder centrista diz que é o “investimento privado que tornará” a sociedade portuguesa numa sociedade “mais robusta, mais livre, mais justa, para concretizarem a vida e os sonhos.”

Parentalidade, igualdade e ambiente. De acordo, mas pouco.

Catarina Martins disse logo no início do debate o que encontrou no programa do CDS que apoiaria: o aumento da licença de parentalidade. Mas acrescentou que o próprio CDS tinha chumbado essa proposta em julho. Mais tarde, Cristas ripostaria, dizendo que em março de 2016 já tinha defendido o aumento, mas que o Bloco chumbou. Na altura, lembra era para 210 dias, agora a ideia é que possa ir até um ano e que possa ser partilhado também por avós.

Quando se discutia igualdade, Catarina Martins teve um momento de aproximação a Cristas.  “Temos respostas diferentes, mas sentimos as duas a desigualdade de género da mesma forma“, afirmou. A líder bloquista diz que é a precariedade, uma luta de sempre do Bloco, que também provoca desigualdade quando “faz com que uma mulher seja despedida quando engravida”. Além disso, criticou os acórdãos (aqui o visado era Neto de Moura e outros juízes) que normalizam as agressões de violência doméstica.

Para Cristas também é uma prioridade criar “condições para reequilibrar as diferenças entre homens e mulheres” e que é por isso que o CDS insiste na licença de parentalidade a mãe, pai e avós. A líder do CDS lembrou ainda que os centristas defendem “smart working e trabalho a partir de casa”, que permite mais facilidade na vida familiar que “normalmente pesa sobre as mulheres”.

No ambiente, ambas defenderam que é preciso dar atenção ao ambiente e à escassez de água. Catarina Martins aproveitou para visar a EDP (“temos barragens a mais, as barragens provocam evaporação, portanto nós estamos sempre a perder água e isto é um problema muito complicado”), exigir métodos agrícolas que não desperdiçam água e apelou a negociações com Espanha (para a gestão dos caudais, principalmente do Tejo).

Cristas lembrou que o CDS juntou o tema “ambiente e território” e disse que, ao contrário do Bloco de Esquerda, os centristas querem “pensar, estudar, avaliar do ponto de vista ambiental e fazer alterações estruturais” que protejam da escassez de água a médio e longo prazo.