Fernando Rosas entrou na campanha do Bloco de Esquerda com honras de cabeça de cartaz do primeiro comício. Em Torres Novas, terra de outra histórica bloquista — Helena Pinto –, o fundador do partido fez uma intervenção centrada no balanço positivo que faz da legislatura e usou este capital para fazer uma apelo ao voto útil à esquerda. “Gostámos da geringonça, para nós é um trabalho respeitável e é um caminho a prosseguir”, disse, para mais tarde acrescentar: “Em nome da possibilidade de continuar e de aprofundar a experiência da geringonça (…) pedimos duas coisas: que o voto impeça a repetição da maioria absoluta e que reforce a esquerda à esquerda do PS”. 

Um pedido direto e conciso que ganha nova importância por acontecer num dia marcado pelo desentendimento entre Bloco de Esquerda e PS em torno da origem da geringonça.

Em menos de um quarto de hora, o historiador apresentou aquilo que considera serem as quatro grandes novidades desta campanha eleitoral. A primeira é a assunção da derrota da direita. A segunda é o facto de, pela primeira vez, os eleitores serem chamados às urnas sabendo que o BE e o PCP fazem parte de “uma esquerda que afinal não é só declarativa, nem só de combate“, mas antes “capaz de cumprir com responsabilidade os compromissos”. O terceiro destaque, mais umbiguista, é a constatação de que foi o BE, juntamente com o PCP — que nunca foi esquecido nesta intervenção –, que conseguiu que fossem ultrapassadas “as hesitações do PS”. Para o fim, deixou a sobremesa: “Facilmente se compreende que com uma maioria absoluta do PS é irrepetível a experiência da geringonça”, afirmou.

Quatro “novidades” desta campanha que levam Fernando Rosas a concluir que o desejável é evitar a maioria absoluta do PS. E aproveitou para dramatizar: isso é sinónimo de “arbítrio absoluto, abuso absoluto, compadrio absoluto, nepotismo absoluto e corrupção absoluta”. Ganhou fôlego e concluiu: “Não queremos repetir uma maioria absoluta”.

Foi para o fim que deixou as alfinetadas à posição do PS nos últimos dias. “O BE não reivindica a paternidade de cada coisa, não temos de espetar bandeirinhas em cada coisa a dizer ‘isto é nosso, isto é nosso’. As pessoas sabem“. Recorde-se que o despique entre PS e BE conheceu um novo desenvolvimento esta noite, com as declarações de Fernando Medina a afirmar que “a reunião com o Bloco não foi a cimeira fundadora da geringonça”. Uma frase que não vai merecer resposta por parte dos bloquistas, que consideram o assunto encerrado.

Catarina Martins dedica intervenção ao SNS mas não esquece fricção com Costa

Já Catarina Martins, a quem coube o encerramento do comício, dedicou grande parte dos seus 25 minutos de discurso a falar do Serviço nacional de Saúde e da importância de, na próxima legislatura, se caminhar para um SNS que não seja “de mínimos”. Um SNS “com investimento para responder a toda a gente em todo o território” e que seja “universal, público e gratuito”.

O discurso não é novo na narrativa do partido, mas a líder bloquista quis reforçar a mensagem dizendo que o SNS, “é o coração da democracia”, vai ser um dos “principais compromissos” do BE e “um dos temas principais da próxima legislatura”. “Se há serviço público a defender agora, é o SNS”, resumiu.

Os cerca de 200 presentes só mostraram verdadeiro entusiasmo no fim, com a sala a levantar-se quando a coordenadora do BE partiu para o ataque: “Tudo o que mudou no nosso país nos últimos quatros anos tem a marca do BE”, considerou antes de afirmar que, na sua ótica, e ao contrário do que António Costa tem dito, “o Bloco é a garantia de estabilidade” em nome da vida das pessoas.

E aproveitou o embalo para escrever mais uma linha no caderno de encargos para a próxima legislatura: “A partir do dia 6 de outubro, se não regressarmos aos tempos das maiorias absolutas, cá estaremos para retomar o nosso debate, para salvar o SNS, para combater a precariedade, para puxar pelos salários, para subir pensões e para responder à emergência climática”. A escolha de temas coincide com os que já tinham sido levantados pela própria líder bloquista no debate de segunda-feira à noite, quando confrontou António Costa. Andarão aqui novas linhas vermelhas?