Depois de ter sido reduzido a pouco mais de 4% nas legislativas, o CDS ficou sem líder. E embora todos digam que o momento é de “reflexão” e de “ponderação”, e que a liderança é neste momento o menor dos problemas, a verdade é que os candidatos perfilam-se. João Almeida e Filipe Lobo d’Ávila admitem ter “responsabilidade” e apresentam uma moção de estratégia global ao Congresso, na qual pode vir uma candidatura à liderança, Pedro Mota Soares diz que “não é candidato a nada” e há uma auto-intitulada “maçã sumarenta” que não quer deixar de ser considerada, apesar de ter falhado a eleição para o Parlamento: Francisco Rodrigues dos Santos, o líder da JP. Também Telmo Correia é considerado por alguns como um ativo a não descartar, por já ter tido “experiência governativa” e por ser, a par de João Almeida, um dos cinco deputados eleitos este domingo. Ser deputado é, de resto, um requisito que muitos apontam como essencial para a próxima liderança. Mas, lá está, é tempo de reflexão.

Foi numa publicação no Facebook, esta tarde, que Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido por Chicão e representante da ala mais conservadora do partido, usou a metáfora das maçãs para, de alguma forma, dizer ‘presente’ à chama. A metáfora das macieiras, é de resto, muito usada entre os democratas-cristãos, que citam uma velha máxima de Adriano Moreira, na despedida do partido: “Vou plantar macieiras”, terá dito. Pedro Mota Soares recorreu a essa mesma metáfora quando se despediu do Parlamento, no final da legislatura passada, e agora é Chicão, 31 anos, que faz o mesmo para dizer que as macieiras do CDS estão a dar fruto: “A renovação do partido velho partirá necessariamente dessas maçãs sumarentas”, escreveu.

“O Professor Adriano Moreira transmitiu-nos na abertura do último Congresso do CDS, que a liderança já está entregue à geração que recebe a defesa dos valores da democracia-cristã. Agora é preciso olhar para a mudança do mundo e adaptar a intervenção. As macieiras deram frutos e a renovação do novo partido velho partirá necessariamente dessas maçãs sumarentas”lê-se na publicação de Facebook, onde Francisco Rodrigues dos Santos diz ainda que neste momento “difícil” do partido é preciso “coragem para continuar” e não ter “medo de falhar”. Questionado pelo Observador, o líder do JP não acrescentou mais nada, limitando-se a remeter para a publicação de Facebook. Francisco Rodrigues dos Santos era o número dois pela lista do Porto mas falhou a eleição para o Parlamento e não vai ser deputado na próxima legislatura, o que é visto como um handicap.

Os eleitores infligiram uma pesada derrota ao CDS. Os resultados comprometem-nos com uma ponderação lúcida e serena, que…

Posted by Francisco Rodrigues Dos Santos on Monday, October 7, 2019

Com 43 anos, quem também não se exclui do momento que se segue no CDS é João Almeida, que, ao contrário de Chicão, faz parte do restrito leque de centristas que conseguiram o lugar de deputado na Assembleia da República. Em declarações à Rádio Observador logo esta segunda-feira de manhã, João Almeida mostrou-se “ciente da responsabilidade” que tem neste momento, sobretudo por ser dos poucos que resta na bancada parlamentar e por ser importante para o CDS ter um líder com presença mediática no Parlamento. Admitindo que essa responsabilidade se vai concretizar, “muito provavelmente”, na apresentação de uma moção global ao Congresso, há quem lembre ao Observador que se das outras vezes João Almeida apresentou moções estratégicas ao congresso sem candidatura à liderança, agora o mais provável é que o faça sob a forma de candidatura.

“O resultado não foi mau, foi péssimo. E há muitas questões que têm de ser ponderadas. A questão da liderança é muito relevante mas não é a primeira de todas. É preciso pensar o partido, pensar no que une o partido e não o que o divide. Estou ciente da responsabilidade que tenho, como outros colegas estão, e num grupo parlamentar reduzido obviamente que os que foram eleitos têm de pensar estas questões”, disse à Rádio Observador. João Almeida, curiosamente, não esteve na noite eleitoral ao lado de Assunção Cristas, no Caldas, e, durante a campanha eleitoral, recebeu um apoio de peso: Paulo Portas era mandatário do CDS pelo distrito de Aveiro, por onde João Almeida concorria, o que fez com que Portas aparecesse primeiro ao lado de João Almeida do que da própria Assunção, que só apareceu no último dia.

João Almeida é, de resto, uma opção apreciada por alguns dirigentes do CDS, que defendem que “é muito mais fácil para o CDS que o líder esteja no Parlamento”. Diogo Feio, dirigente centrista, por exemplo, defendeu isso mesmo esta segunda-feira em declarações à Antena 1, defendendo que o próximo líder deve ser alguém que tenha sido eleito deputado. Telmo Correia é outro nome que se fala, precisamente por cumprir esse requisito, ser deputado, e por ter um extra (que João Almeida também tem, e que Francisco Rodrigues dos Santos não tem): experiência governativa.

Quem também tem experiência de governo é Filipe Lobo d’Ávila, que foi secretário de Estado da Administração Interna de 2011 a 2013 (João Almeida foi o seu sucessor no cargo). Lobo d´Ávila é um conhecido crítico da liderança de Assunção Cristas, integrando mesmo um movimento interno no partido chamado “Juntos pelo Futuro” e tendo deixado o lugar de deputado no Parlamento por não estar alinhado com a direção. No rescaldo da noite eleitoral, Lobo d´Ávila escreveu no Facebook que estava em “estado de choque” — o que fez soar alarmes. “Todos sabemos o que, em político, quer dizer estar em estado de choque”, comentou com o Observador uma fonte do partido, referindo-se ao que António Guterres disse depois de Jorge Sampaio ter visto, como líder do PS, Cavaco Silva ganhar a segunda maioria absoluta.

Em estado de choque num dos dias mais tristes da minha vida política no CDS mas consciente das responsabilidades que um resultado destes tem para todos nós no CDS. Sempre CDS. Nos bons e nos maus momentos.

Posted by Filipe Lobo d'Avila on Sunday, October 6, 2019

Em declarações à Rádio Observador, Filipe Lobo d’Ávila disse estar em “reflexão” mas admitiu que tenciona “dar o seu contributo”, que passa nomeadamente por apresentar uma moção global ao congresso que pode ser uma moção “alternativa”. “Este é tempo de reflexão de todo o partido e de cada um de nós. Eu próprio estou a fazer essa reflexão e essa ponderação, é normal e natural que o façamos. Não é o Filipe Lobo d’Ávila que está em causa, mas tenciono dar o meu contributo, e não deixaremos de apresentar também uma moção ao Congresso, e, se for o caso, apresentar uma alternativa”, disse.

Já quanto a Pedro Mota Soares, está fora. Esta sexta-feira, o jornal Sol noticiou que o ex-deputado preparava a sucessão, mas a notícia foi desmentida pelo próprio no Facebook. Contactado pelo Observador esta segunda, limitou-se a remeter para o que tinha dito nessa altura, dizendo que continuava atual. “Não preparo qualquer sucessão”, “não sou candidato a nada”, disse. Já em julho, quando se despediu do Parlamento, disse no programa da Rádio Observador Vichyssoise que não iria disputar a liderança sob qualquer cenário.