A autobiografia oficial do cantor ainda não está à venda, mas já é motivo de conversa, sobretudo depois de o Daily Mail ter publicado excertos do livro Me: Elton John, cuja publicação está prevista para o próximo dia 15 de outubro. Depois de em maio último ter chegado um filme dedicado à vida do artista britânico de 72 anos, agora é a vez de um livro escrito na primeira pessoa dar origem a manchetes de jornais, até porque as confissões são muitas. Na autobiografia, Elton John conta como ficou sete anos sem falar com a mãe, a qual dificilmente se orgulhava dos feitos do filho, como venceu o cancro da próstata e achou que ia morrer, e como foi reticente na decisão de criar uma família.

“Era como convidar uma bomba por explodir para almoçar”

A relação de Elton John com a mãe nunca foi fácil, mas começou a azedar depois da cerimónia civil de 2005, que uniu o cantor e o atual marido — já então David Furnish era o companheiro de longa data. Aquando da união de facto, que ficou legal no Reino Unido nesse mesmo dia, a mãe do cantor, Sheila Farebrother, terá tentado tudo para estragar a cerimónia, deixando que o mau humor que lhe era característico marcasse a respetiva conduta social. “Estava mais feliz do que alguma vez me lembro de ter estado. (…) E foi nesse momento em que a minha mãe apareceu, na personagem de uma sociopata delirante.” Mais tarde, o cantor haveria de descobrir que a mãe ligara aos pais de David Furnish para tentar travar a cerimónia civil, alegadamente por receio de que a união de facto prejudicasse a carreira do filho. A situação confundiu Elton John, até porque a mãe sempre o apoiara quanto à sua orientação sexual. “Como sempre, acho que o verdadeiro problema era que ela odiava qualquer pessoa que estivesse mais próxima de mim do que ela”, acrescenta a norte-americana People.

As coisas pioraram significativamente — “Passar tempo com ela era como convidar uma bomba por explodir para almoçar ou para ir de férias”, escreve o artista — e, após o nascimento do primeiro filho, em dezembro de 2010, Elton John e Sheila já não se falavam com regularidade. Quando o cantor despediu o assistente de longa data, Bob Halley, a decisão foi muito contestada pela mãe, que afirmou que este era mais um filho para ela do que o próprio Elton John. Mas a derradeira gota de água foi quando, no meio de uma discussão a propósito da saída do assistente, a mãe fez o seguinte comentário: “Preocupaste mais com essa coisa de m**** com que te casaste do que com a tua mãe”.

Depois daquele telefonema, mãe e filho não se falaram durante sete anos. O cantor continuou, porém, a apoiar financeiramente a mãe. “Foi triste, mas eu não a queria mais na minha vida. Não a convidei para a cerimónia quando a lei sobre parcerias gay mudou outra vez e eu o David casámos em 2014.” Elton John reaproximou-se em 2017 quando soube que a mãe estava seriamente doente. Quando lhe disse que a amava, a mãe respondeu: “Também te amo. Mas não gosto nada de ti”.

Elton John na companhia da mãe em fevereiro de 1998. © Dave Benett/Getty Images

“Na calada da noite, rezei: ‘Por favor, não me deixes morrer'”

Em 2017, o cantor foi diagnosticado com cancro da próstata e optou por uma cirurgia ao invés de recorrer a quimioterapia. Na base da decisão estava a vontade de não ter a doença a assombrar a família. Na sequência do procedimento, o cantor contraiu um infeção que o deixou a “24 horas da morte”. Apesar de a cirurgia realizada em Los Angeles ter sido um “sucesso completo” , o cantor sentiu-se mal passado dez dias e passou outro 11 num hospital em Londres, no qual passou noites em branco a interrogar-se se sobreviveria. “No hospital, sozinho na calada da noite, rezei: ‘Por favor, não me deixes morrer. Por favor, deixa-me ver os meus filhos outra vez. Por favor, dá mais um bocadinho [de tempo]'”. O sucedido encorajou-o a dedicar mais tempo à família: ao marido David Furnish e aos filhos Zachary e Elijha.

O cantor na companhia do marido e dos dois filhos, em fevereiro de 2015. © Getty Images for EJAF

“Eu não queria ter filhos. Era muito velho”

“Eu não queria ter filhos. Era muito velho. (…) Demasiado ausente — sempre em tournées”, escreve Elton John para justificar que foi o marido, com casou em 2014 depois de anos de relacionamento, que incentivou o artista a ter filhos. A decisão que mudou por completo a vida do cantor — atualmente pai de dois meninos, ambos nascidos de barriga de aluguer — não foi fácil de tomar, até porque a infância que tivera era, na verdade, a raiz de todas as suas objeções. “Criar filhos era um desafio incrível e eu sabia por experiência própria o quão horrível era se lixasse esse desafio. Não conseguiria viver com a ideia de tornar os meus filhos tão miseráveis quanto eu fui”, continua, citado pelo tabloide britânico.

Tudo mudou quando o casal visitou um orfanato na Ucrânia, onde o cantor sentiu uma “ligação imediata” com um pequeno rapaz de nome Lev. Elton John e David tentaram adotar o menino e o irmão. O fracasso da adoção não o desmotivou e, agora, o cantor queria tanto ter filhos como o marido. No dia de Natal, em 2010, nasceu Zachary, sendo que o irmão, Elijah, nasceu a 11 de janeiro de 2013. “Usámos a mesma barriga de aluguer e o mesmo doador de óvulos para ambos.”

“Se tentassem dizer ao Elton John dos anos 70 ou 80 que ele iria encontrar mais satisfação a um nível profundo a trocar uma fralda do que a escrever uma música ou a dar um concerto, provavelmente teriam de sair imediatamente da sala a correr, com loiças a voar sobre os ouvidos”, descreve o cantor, que admite ainda que gostou de tudo na paternidade, até das birras “estranhamente adoráveis” dos bebés.