Foram necessários quatro anos para que o New York Times usasse a palavra “geringonça” — assim mesmo, em português — num dos seus textos. Como é que sabemos? Porque o robô (bot) @nyt-first-said, criado no Twitter por Max Bittker (engenheiro informático da Google), monitoriza todas as palavras publicadas pela primeira vez no jornal.

Na noite eleitoral, a 6 de outubro, o New York Times lembrou que, “em 2015, António Costa perdeu as eleições, mas acabou por se tornar ainda assim primeiro-ministro, depois de persuadir dois partidos de esquerda de menor dimensão”; e que, “na altura, a parceria foi ridicularizada como ‘geringonça’, que os seus adversários acreditavam que caísse em pouco tempo”’. Pelo meio, o jornal traduz a palavra como ‘contraption’, como é habitual na imprensa internacional.

“Quatro anos depois, a etiqueta “geringonça” foi usada na lapela por António Costa”, disse ainda o jornal americano. “Tornou-se algo raro na Europa — não só é um chefe de governo socialista, como supervisiona uma economia sólida, ajudada pelo turismo e por investidores estrangeiros, que provou estarem errados os críticos que há muito caricaturavam a esquerda como sendo incapaz de ter disciplina orçamental”.

At the time, the alliance was ridiculed as a “geringonça,” or “contraption,” that his opponents said would fall apart in no time. (…) “Four years later, the “geringonça” label has been worn as a badge of honor by Mr. Costa”

A palavra “geringonça”, em português, já tem sido usada em vários jornais internacionais, sobretudo na Europa, mas desta vez, por causa do software de Bittker, é possível assinalar a estreia linguística.

A “geringonça” de Pulido Valente, apropriada por Portas

Começou como uma descrição insultuosa ao frágil estado em que se encontrava o Partido Socialista no verão de 2014, a poucas semanas das eleições primárias — que seriam conquistadas por António Costa. Numa crónica com o simples título “A geringonça”, Vasco Pulido Valente escreveu no Público, a 31 de agosto, que “o eleitor médio de qualquer partido reforça a sua compreensível repugnância em votar nele [António José Seguro] e sobretudo para primeiro-ministro”. E acrescentou que esse mesmo eleitor médio “começa também a fugir da geringonça a que se chama PS”.

António Costa conquistava a liderança do PS a António José Seguro e, um ano depois, em 2015, ficou em segundo lugar nas eleições de outubro. O acordo inédito — e na altura impensável — que António Costa assinou com Bloco de Esquerda, PCP e Verdes permitiria ao secretário-geral do PS tornar-se primeiro-ministro.

A “geringonça” — a palavra — fez então o seu caminho. A 10 de novembro, Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, pediu emprestada a descrição de Vasco Pulido Valente para colocar uma nova etiqueta na parceria entre os partidos de esquerda. “Isto não é bem um Governo, é uma geringonça”, dizia Portas. “Temo que a geringonça deixe Portugal – a sua credibilidade, economia, etc. – à mercê das reuniões do comité central”. A palavra marcaria o debate, tendo sido usada por vários partidos.

Aos poucos, políticos, comentadores e imprensa começaram a absorver e a normalizar a metáfora, a tal ponto que o próprio PS começaria a usá-la como arma de arremesso. Em 2016, seria a palavra do ano.