A Rússia prometeu à Turquia que irá garantir a retirada das milícias curdas sírias que permanecem próximo da sua fronteira, consideradas “terroristas” por Ancara e alvo da sua intervenção militar, assegurou esta quinta-feira o chefe da diplomacia turca.

“A Rússia prometeu que as Unidades de Proteção do Povo [YPG, as milícias curdas sírias] não estarão do outro lado da fronteira”, referiu Mevlüt Çavusoglu em entrevista à BBC em Ancara.

No domingo, as milícias curdas chegaram a acordo com as forças leais ao Presidente sírio Bashar al-Assad, que recebe o apoio do Kremlin, para travar a incursão militar turca no nordeste sírio, iniciada em 9 de novembro com o objetivo de criar uma “faixa de segurança” com 30 quilómetros de profundidade, e onde eventualmente Ancara pretende instalar parte dos cerca de três milhões de refugidos sírios.

“Se a Rússia, acompanhada pelo exército sírio, eliminar as YPG da região, não nos oporemos”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros turco.

Uma delegação de Moscovo, liderada pelo enviado russo para a Síria Aleksandr Lavrentyev, reuniu-se esta quinta-feira em Ancara com o porta-voz da presidência turca, Ibrahim Kalin, para abordar a situação no nordeste da Síria.

“Os dois países concordaram em impedir a ameaça que representam todos os grupos terroristas, incluindo as YPG e o [grupo jihadista] Estado Islâmico, asseguraram fontes da presidência à agência Anadolu.

No encontro foram ainda abordados os últimos acontecimentos na cidade de Idlib e na região de Minbej, a leste do Eufrates, para onde foram deslocadas as forças governamentais sírias para forçar a retirada do exército turco da região.

Esta iniciativa diplomática coincidiu com a chegada a Ancara do secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo, e do vice-presidente Mike Pence, onde foram recebidos pelo Presidente turco Recep Tayyip Erodgan, para negociar um possível cessar-fogo no nordeste da Síria.

Erdogan disse na quarta-feira que a ofensiva militar contra os curdos sírios— onde participam como “guarda avançada” grupos rebeldes árabes treinados e armados pelos turcos — caso as milícias curdas locais se desarmem e retirem para o exterior da faixa de território junto à fronteira turca, que para além dos 30 quilómetros de largura deverá possuir 480 quilómetros de comprimento.

Em paralelo, o Kremlin revelou esta quinta-feira que o Presidente Vladimir Putin vai abordar problemas humanitários decorrentes da operação militar turca no nordeste da Síria quando se encontrar com o seu homólogo da Turquia na próxima semana.

Putin manifestou preocupação pelas “possíveis consequências humanitárias desta operação” no decurso de uma recente conversa telefónica com Erdogan.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse esta quinta-feira que o balanço da operação militar turca, que entrou no nono dia, “será um importante tema na agenda das conversações”. Os dois líderes deverão encontrar-se na terça-feira.

Peskov assinalou ainda estar surpreendido com o tom severo da carta enviada recentemente pelo Presidente dos EUA Donald Trump a Erdogan, e onde adverte o chefe de Estado turco para não ser “um tipo duro”.

“Esta linguagem não é encontrada muitas vezes na comunicação entre líderes de Estados. É uma carta muito pouco habitual”, sublinhou Peskov.