Uma equipa de investigadores criou em laboratório uma estrutura parecida a um embrião de rato sem recurso a um espermatozoide e um óvulo, usando apenas as células da orelha do animal. Estes “blastóides” — assim se chamam os ditos embriões — têm a capacidade de se serem implantados no útero e se desenvolverem, mas não ao ponto de se tornarem um organismo funcional. Serão usados para revelar a origem dos problemas de infertilidade e de algumas complicações de saúde.

Um comunicado de imprensa do Instituto Salk explica que os cientistas colocaram as células de ratos adultos numa sopa de químicos que as obrigou a regredir para células estaminais pluripotentes — aquelas que se podem transformar em quase todos os tipos de células do organismo. Quando foram transferidas para outra sopa de químicos, começaram a juntar-se. Algumas desenvolveram-se numa placenta, outras no que seria um novo ser vivo. Estava criado um embrião sintético: o “blastóide”.

Segundo o Instituto Salk, os embriões sintéticos tinham os três tipos de células primordiais de onde se desenvolvem os tecidos que compõem os mamíferos nos primeiros tempos de vida. Todos tinham tamanhos e características genéticas semelhantes ao de um embrião natural. E, se postos no útero de um rato, conseguiam desenvolver-se durante alguns dias, embora nunca se conseguissem tornar organismos funcionais, já que parariam de crescer ao fim de pouco tempo.

Essas estruturas são muito semelhantes ao blastocisto, o nome dado à esfera oca de células embrionárias nos primeiros tempos de gestação que dão origem ao feto e à placenta. Esta é a fase mais crítica da gravidez, aquela em que ocorrem mais vezes falhas e em que as células dos órgãos se começam a desenvolver. No entanto, os cientistas não sabiam exatamente como é que os blastocistos se desenvolviam, nem a origem dessas falhas. Até agora.

Utilizando estes “blastóides”, podem observar como é que as primeiras células de um novo ser vivo se desenvolvem, o que provoca os problemas de infertilidade ou a origem de doenças como o Alzheimer. Criar embriões naturais não só levantava problemas éticos, como não era prático: eles têm de ser implantados no útero dos ratos de laboratório, que não conseguem desenvolver embriões suficientes para serem usados nos estudos.

Com esta alternativa, o problema é ultrapassado. Os cientistas podem produzir embriões sintéticos em quantidades suficientes para estudarem os efeitos da malnutrição no desenvolvimento dos embriões, testar como é que as células respondem à exposição de toxinas nos primeiros tempos da gravidez ou a origem de mutações genéticas que podem condenar a viabilidade de um ser vivo.

Juan Carlos Izpisua Belmonte, um dos investigadores do Instituto Salk envolvidos nesta descoberta, acrescentou que esta descoberta “vai ajudar a perceber como é que os seres vivos evoluem de uma única célula para milhões delas”, passo a passo. “Vamos compreender os primeiros tempos da vida. Como é que as células se organizam no espaço e no tempo para dar origem a um organismo totalmente desenvolvido. Tudo sem uso de embriões naturais”, termina.