São terabytes de informação que podem ser cruciais para o caso Football Leaks e a Polícia Judiciária (PJ) não consegue vê-los. Tudo porque Rui Pinto — o hacker acusado de 147 crimes de acesso ilegítimo, violação de correspondência, sabotagem informática e tentativa de extorsão — utilizou um sistema de encriptação difícil de corromper, avança o Público (edição impressa).

Ao todo, foram confiscados 12 discos externos e dois computadores. De acordo com a PJ, “há fortes indícios” de que em 10 dos discos externos ainda estejam dados roubados pelo pirata informático. A Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da PJ diz que estas unidades de dados são um “repositório de informação exfiltrada” semelhante aos que conseguiu aceder e que levaram à acusação do hacker.

A informação que a PJ conseguiu descodificar nas outras unidades de dados permitiu descobrir que, entre 2015 e 2019, Rui Pinto acedeu a 488 contas de email de organizações públicas e privadas. Segundo a acusação, o hacker terá conseguido infiltrar-se no sistema informático da Procuradoria-Geral da República, tendo tido acesso à caixa de correio eletrónico de vários magistrados.

Durante o mesmo período, terá também conseguido aceder ao emails de Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, Pedro Guerra, diretor de conteúdos da Benfica TV, ou de Domingos Soares de Oliveira, administrador do clube dos encarnados. A PJ afirma que o hacker também terá entrado no sistema de informação do FC Porto.

Outra das provas que podem levar à condenação de Rui Pinto, segundo o Público, é um papel encontrado pela polícia húngara. Este documento, escrito à mão, descreve um plano de contingência que seria acionado pelo hacker caso fosse descoberto. Há planos futuros, como a “a principal guerra” do processo ir ser travada em Portugal, e a possibilidade de fazer entrevistas para defender a sua causa.

Sem se poder provar a autoria das frases, o juiz Carlos Alexandre autorizou que a cela de Rui Pinto fosse revistada. Nas buscas, as autoridades encontraram um bloco de notas que pode ligar o documento a Rui Pinto uma vez que a caligrafia ser a mesma. Contudo, esta prova pode ser considerada nula pela forma como foi obtida por a revista à cela “exceder o âmbito da busca e apreensão”, argumenta a defesa.

O bloco de notas era a única forma que Rui Pinto tinha para trocar cartas com a sua equipa de defesa e será também o diário do hacker. Este documento foi, entretanto, devolvido ao acusado.

A suposta ligação do filho de Pinto da Costa ao caso Doyen

Em maio deste ano, quando foi interrogado, Rui Pinto levantou suspeitas relativamente a Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente do FC Porto, avançou a Sábado. De acordo com o hacker, havia “comportamentos muitos estranhos de negócios envolvendo o seu filho, Alexandre Pinto da Costa, e a Doyen”.

Já disse que considero o presidente do FC Porto um dos maiores presidentes do futebol europeu. Mas o facto de que encontrei comportamentos muitos estranhos de negócios envolvendo o seu filho, Alexandre Pinto da Costa, e a Doyen deixou-me aqui nervoso. Nem sei explicar… senti-me ferido”, disse.

O hacker afirmou ainda: “Sempre pensei que no FC Porto estas coisas não aconteciam. E quando vi algo assim fiquei: Será que isto é mesmo verdade? Tenho de descobrir. A melhor maneira que achei foi esta. Sei que não foi a melhor”.

Rui Pinto foi acusado também acusado de ter entrado nos sistemas da Doyen Sports, um fundo privado que gere a carreira de futebolistas, e do Sporting. O hacker terá ainda tentado extorquir Nélio Lucas, presidente executivo do fundo.

Ainda em maio,Rui Pinto disse que o Football Leaks “é site é um coletivo de pessoas, de fontes” e acusou os visados da página, como Nélio Lucas, de cometerem ilegalidades para justificar as tentativas de extorsão.