Naquela foi apenas a sua segunda intervenção na Câmara dos Comuns depois de se ter demitido do cargo de primeira-ministra, Theresa May usou a expressão que, provavelmente, melhor descreve ou resume este sábado, em mais um capítulo da história do Brexit: “Tenho uma sensação clara de déjà vu“.

Na altura, a mulher que tentou três vezes aprovar um acordo para a saída do Reino Unido da UE — e das três vezes falhou — ainda não sabia o quanto aquilo faria sentido, com o Brexit de novo em risco e um adiamento nas mãos dos 27 Estados-membros.

Nos seus tempos de governante, nenhum argumento ou chavão lhe valeu: invocou o “interesse nacional”, o “cumprimento da vontade do povo em referendo”, o “vamos conseguir o Brexit”, mas ficou sempre longe de ganhar no parlamento. Este sábado foi a vez do primeiro-ministro Boris Johnson tentar a sua sorte. O sucessor de May — e, em parte, um dos responsáveis pela sua queda — dramatizou o discurso: falou na necessidade de “sarar as divisões do país” para convencer os deputados a aprovarem o seu acordo e disse-lhes que era altura de “unir o país”.

É certo que, nas tentativas de Theresa May, o acordo acabou chumbado. Desta vez foi uma espécie de anticlímax: o acordo conseguido por Boris Johnson em Bruxelas não foi nem aprovado nem chumbado pelos 639 deputados com direito a voto. Na verdade, o acordo não chegou sequer a ser colocado a votação e a sessão parlamentar extraordinário a um sábado — algo que não acontecia há 37 anos — terminou pouco depois da hora de almoço, com mais perguntas do que respostas. A emenda Letwin obrigou a adiar a data da votação do que acordo o que, tendo em conta a lei Benn anteriormente aprovada, obrigando o primeiro-ministro a pedir formalmente um adiamento do Brexit à UE até às 23h deste sábado.

A reação de Boris Johnson foi imediata e inflexível: “Eu não vou negociar um adiamento com a UE, nem a lei me obriga a fazê-lo”. Horas depois, porém, cedia sem ceder: à Sky News, fonte de Downing Street fazia saber que a carta com o pedido do Reino Unido de uma extensão do prazo de saída até 31 de janeiro seguiria até ao prazo limite, 23h em Londres, 00h em Bruxelas. Mas com uma nuance: essa carta não seria assinada por ele — nem por ninguém — e com ela seguira uma outra missiva, na qual Johnson deixaria claro que o fazia de forma “forçada” — se não o fizesse, violaria a lei —, mas “destemida” porque está contra essa solução e não a quer. Na prática, é o mesmo que dizer aos outros Estados-membros que o Governo britânico não tem qualquer interesse no prolongamento do prazo que está a pedir, tentando os outros líderes europeus a recusá-lo.

O pedido de extensão seria, depois, confirmado por Donald Tusk, que, no Twitter, confirmou a recepção da comunicação britânica.

Será, na perspetiva de Boris Johnson, a única forma de “sair por cima” de um dia em que o parlamento o voltou a derrotar. Tudo por causa de uma emenda proposta por Oliver Letwin — um dos chamados “rebeldes” conservadores que foram expulsos do partido por Boris, por terem furado a disciplina de voto partidária — que trocou as voltas a todos, Governo incluído. Planeada para garantir que se evitava um no deal a 31 de outubro, mesmo que por acidente, a emenda determinava que fossem, primeiro, aprovados todos os passos legislativos relacionados com o Brexit antes da votação final (o chamado meaningful vote) sobre a totalidade do acordo de Boris Johnson — o que, na prática, forçaria o Governo a pedir um adiamento, por não conseguir ter o acordo aprovado a 19 de outubro, como prevê a lei Benn. Forçaria e forçou. Agora só falta a resposta da UE, que pode tardar alguns dias.

O acordo que foi afastado ainda antes de ser votado

A maioria dos deputados, que já deixou claro múltiplas vezes naquela câmara que não deseja uma saída sem acordo, apoiou essa emenda precisamente para tentar forçar Boris a pedir o adiamento. Foi à justa — 322 votos a favor e 306 contra —, mas foi suficiente para que o Governo tenha decidido não colocar, então, o acordo a votação este sábado, chutando essa decisão para a próxima semana.

A emenda reuniu o apoio não apenas de deputados conservadores — nomeadamente os que foram expulsos do partido por Boris Johnson em setembro —, como também do Partido Trabalhista (à exceção de seis rebeldes pró-Brexit) e inclusivamente do DUP, o partido unionista norte-irlandês que está profundamente desagradado com o acordo alcançado por Boris Johnson, tendo até anunciado que votará contra ele.

Isso mesmo explicou o seu líder parlamentar, Nigel Dodds, no cenário que antecedeu a votação: “Este acordo atropela o Acordo de Belfast, como uma carroça puxada a cavalos, devido ao mecanismo de consentimento encontrado”, acusou o deputado, referindo-se ao nome usado pelos unionistas para os Acordos de Sexta-Feira Santa, que estabeleceu a paz nas Irlandas.

Pode haver condições especiais na Irlanda do Norte, mas o consentimento [ao acordo] tem de ser dado por unionistas e nacionalistas em conjunto”, afirmou.

A irritação por parte do DUP é de tal forma vincada que os seus 10 deputados apoiaram a emenda Letwin, apesar dos apelos nos bastidores por parte do Governo de Boris.

Por ironia do destino, coube a Theresa May (mesmo com sensação de déjà vu) ser uma das deputadas conservadoras a fazer a defesa do Governo de Boris Johnson, que lhe sucedeu. “Quando esta câmara decidiu, por maioria, dar a palavra ao povo, em 2016, queria mesmo fazer isso? A resposta só pode ser sim, nós queremos isso. Sim, nós queremos cumprir o Brexit. Sim, nós respeitamos o povo britânico. Porque, se não estávamos mesmo a falar a sério, somos culpados de enganar os britânicos”, afirmou a antiga primeira-ministra, arracando aplausos a muitos dos conservadores que votaram contra o acordo que ela própria ali levou três vezes.

A BBC avançaria logo depois que May protagonizava ainda um momento “surpreendente”: depois da intervenção, a antiga primeira-ministra andaria nos corredores do parlamento a tentar “arregimentar as tropas” a favor do Governo. Esse trabalho, porém, não chegou. Aprovada a emenda Letwin, Boris Johnson acercou-se do púlpito para fazer uma declaração desafiadora: “Não irei negociar um adiamento com a UE e a lei também não me obriga a fazê-lo”, afirmou, o que, à altura, foi interpretado como um sinal de que o Governo estava disposto a levar a questão a tribunal, argumentando talvez que cumpriu a lei Benn ao apresentar um acordo à Câmara, muito embora este não tenha sido ratificado pelo Parlamento.

A oposição reagiu de forma irada. “O primeiro-ministro tem de cumprir a lei. Não pode continuar a usar a ameaça de um no deal para chantagear os deputados, a fim de que apoiem o seu acordo vendido”, decretou o líder dos trabalhistas Jeremy Corbyn, rapidamente secundado por Ian Blackford do SNP (nacionalistas escoceses), que acusou o primeiro-ministro de sentir que está “acima da lei”.

Mais calmo foi o próprio deputado Oliver Letwin, autor da emenda polémica. O conservador, responsável por aquela derrota, também falou para assegurar que, quando esse tempo chegar, irá votar favoravelmente o acordo de Boris e que pretendia apenas com esta manobra evitar um no deal. Mais que isso, garantiu acreditar que tudo ia correr como planeou: “Estou absolutamente certo de que o primeiro-ministro irá cumprir a lei”. Horas depois, a confirmação do Governo dar-lhe-ia razão.

Boris pede adiamento do Brexit? Afinal sim — e ainda este sábado

Já depois de o debate terminar, o Partido Conservador reforçava a mensagem nas redes sociais, ao garantir que o primeiro-ministro “não irá pedir um adiamento” e irá sim “dizer aos líderes da UE que não deve haver mais adiamentos e que é preciso avançar com o Brexit”.

E os tories estavam certos, pelo menos em metade: já depois das 20h, a Sky News noticiava que um Boris “destemido” iria, afinal, enviar uma carta formal a pedir o adiamento, mas deixando claro que não é esse o seu desejo e que apenas o fazia por ser obrigado — pela lei e pelo parlamento. Do lado de Bruxelas, confirmou-se também que Donald Tusk foi avisado de que iria receber a carta com o fatídico pedido de adiamento.

Pouco depois, era o próprio Tusk a revelar que o pedido tinha chegado a Bruxelas.

Confirmava-se, assim, a estratégia que tinha sido indiciada por uma fonte do Governo ao Telegraph, durante a tarde: “O primeiro-ministro vai dizer aos líderes da UE que não deve haver mais adiamentos, que devem rejeitar a carta do Parlamento a pedir um adiamento e que devemos ter o Brexit concluído a 31 de outubro”. A frase dava força a uma tese que circula já há algum tempo entre os media britânicos: a de que, se este dia chegasse, Boris Johnson entregaria duas cartas a Bruxelas, uma a pedir o adiamento, como é obrigado por lei (a “carta do Parlamento”), e outra a dizer que é contra essa mesma ideia — deixando assim o problema nas mãos dos europeus.

Segundo a Sky News, foi exatamente isso que aconteceu: para Bruxelas seguiu uma carta — a tal não assinada — com o pedido de extensão no prazo do Brexit; com ela seguiu uma segunda carta, onde o primeiro-ministro explicita bem a sua posição, na esperança de que os líderes europeus sigam o seu conselho — não dar o adiamento —, em vez do pedido feito pela lei.

Qual será a resposta dos líderes europeus? Rob Powell, jornalista da Sky News, prevê que a fadiga com o Brexit leve os líderes da UE a concederem apenas uma extensão curta do prazo — a chamada extensão “técnica” —, para que o acordo seja aprovado, em vez dos três meses previstos num adiamento normal. Dessa forma, numa futura campanha eleitoral, Boris poderia dizer que só não saiu a 31 de outubro porque não o deixaram. Seja como for, dizia a mesma fonte de Downing Street, a resposta de Bruxelas pode ainda demorar alguns dias — apesar de o tema ser debatido já no domingo pelos embaixadores dos Estados-membros na UE e, na segunda-feira, pelo Parlamento Europeu.

No meio de tantos avanços e recuos, a única certeza que parece cimentar-se dos dois lados do Canal da Mancha é que “fadiga” é mesmo a palavra de ordem. Peter Bone, um dos deputados mais eurocéticos do Partido Conservador que chumbou o acordo de Theresa May das três vezes que foi colocado a votação, estava pronto para, desta vez, seguir cegamente Boris Johnson e dar-lhe um voto de confiança. Mas, à saída da sessão parlamentar, depois de ver a emenda Letwin aprovada e a votação do acordo adiada, só teve estas palavras para os jornalistas: “Estou farto. Isto estragou o meu aniversário. Devia era estar a comer bolo.”

[Artigo atualizado com a confirmação da recepção do pedido de adiamento em Bruxelas, feita por Donald Tusk]