O Reino Unido vai a eleições antecipadas a 12 de dezembro. A decisão foi tomada pelo parlamento britânico na tarde desta terça-feira, depois da proposta apresentada pelo governo, com 438 votos a favor e apenas 20 contra. Os deputados aprovaram a moção de Boris Johnson, sem qualquer alteração. Nenhuma das emendas apresentadas para modificar a lei proposta foi aprovada.

Termina assim o braço de ferro entre o governo e a Câmara dos Comuns. Esta foi a quarta vez que Boris Johnson apresentou uma proposta para eleições gerais antecipadas. Todas as anteriores foram chumbadas pela maioria dos deputados.

É certo que Boris Johnson chegou a esta votação com o caminho mais desimpedido, depois de, logo de manhã, o Partido Trabalhista ter anunciado que ia apoiar a proposta do governo. Mas a verdade é que a votação desta terça-feira chegou a estar em risco, por causa de duas emendas, apresentadas pelo Labour e pelos escoceses do SNP, que pretendiam alargar o voto a todos os cidadãos da União Europeia que vivam no Reino Unido e aos jovens a partir dos 16 anos.

As duas emendas foram apresentadas durante a tarde e eram vistas pelo governo como mais uma forma de adiar o Brexit. O objetivo era claro: numa posição frágil nas sondagens, perante um Partido Conservador perto da maioria absoluta, os partidos da oposição queriam incluir no grupo de eleitores pessoas que, em tese, preferem a manutenção do Reino Unido na UE e não concordam com a política de Boris Johnson.

As propostas levaram mesmo o governo britânico a ameaçar retirar a moção para eleições antecipadas, caso o parlamento aprovasse as duas emendas. Se isso acontecesse, a ida às urnas em dezembro seria cancelada.

Colocado nas mãos do vice-speaker da Câmara dos Comuns, o impasse acabou por ser resolvido na escolha das emendas que seriam submetidas a votação. Lindsay Hoyle decidiu que essas duas propostas de alargamento dos direitos de voto não seriam consideradas na tarde desta terça-feira. Em contrapartida, aceitou a emenda que mudava a data das eleições — de 12 para 9 de dezembro —, que acabou por ser chumbada, com 315 votos contra, 295 a favor.

O Reino Unido entra, assim, em pré-campanha eleitoral. A esta distância, as sondagens dão a vitória a Boris Johnson — algumas delas com maioria absoluta.

Vitória de Boris em dia de adiamento oficial

Boris Johnson não falou, de imediato, na Câmara dos Comuns. A Sky News diz, porém, que o primeiro-ministro foi recebido em festa pelos deputados do Partido Conservador.

Numa declaração depois da votação, Jeremy Corbyn ligou o “modo campanha”:

Esta eleição é a oportunidade de uma geração de transformar o nosso país e defender os interesses das pessoas de novo. A escolha nesta eleição não poderia ser mais clara. Um governo do Labour estará ao seu lado, enquanto os conservadores de Boris Johnson — que pensam que nasceram para mandar — só cuidarão dos privilegiados.”

O debate na Câmara dos Comuns teve, pelo menos, um espectador atento: a meio da tarde, no Twitter, Doanld Tusk escrevia aos seus “amigos britânicos”, confirmando o adiamento formal do Brexit e pedindo que “usem este tempo da melhor maneira”, com um aviso: “Este pode ser o último”.

A votação desta terça-feira aconteceu depois de o governo de Boris Johnson ter apresentado de novo, no parlamento, a proposta para eleições antecipadas em dezembro. Na sua primeira intervenção, o primeiro-ministro reafirmou que “o governo está a ser razoável” e lamentou que a Câmara da Comuns tenha recusado aprovar o acordo do Brexit a tempo de cumprir a saída a 31 de outubro — o que levou o governo a avançar para a proposta de eleições antecipadas.

Na semana passada, quando esta lei [do acordo de saída] foi debatida, não houve uma única ideia nova. Só queriam mais tempo, mais semanas, mais meses. Tudo o que querem fazer é procrastinar. Eles não querem cumprir o Brexit a 31 de outubro, nem a 31 de janeiro. Só querem adiar”, criticou.

Boris Johnson sublinhou ainda que os novos adiamentos trazem “danos sérios” ao país diz que essa postura da oposição fazia com que as eleições antecipadas fossem inevitáveis, para que “todos” se submetam “à avaliação” dos eleitores.

Na sua reação, o líder da oposição Jeremy Corbyn confirmou a posição do partido de apoio à ida às urnas, dizendo que “a ameaça de um no deal foi retirada de cima da mesa”: “O Labour apoia uma eleição geral, porque quer que este país se livre deste Governo irresponsável”, declarou, sublinhando a necessidade de o país se focar no combate à austeridade e às desigualdades.

Também o SNP prometeu votar a favor. O porta-voz, Ian Blackford, diz que o partido vê nas eleições antecipadas uma forma de travar o Brexit e avançar para um segundo referendo à independência da Escócia, que não quer sair da União Europeia.

Corbyn cedeu e apoiou novas eleições

O dia começou com o anúncio do apoio do Partido Trabalhista, feito em comunicado durante a manhã, de que iria apoiar a realização de eleições antecipadas, votando a favor da moção do primeiro-ministro.

“A extensão do Artigo 50 foi confirmada”, declarou o líder, Jeremy Corbyn, em comunicado, “portanto a nossa condição de retirar um no deal da mesa foi cumprida.” “Iremos agora encetar a campanha mais ambiciosa e radical para uma mudança real que o nosso país já viu”, termina o líder no comunicado enviado às redações britânicas, como a Sky News.

O líder confirmou entretanto a informação na sua própria conta de Twitter, repetindo o que consta no comunicado e acrescentado a frase “Está na hora”.

O Labour alterou, assim, completamente a sua posição face à véspera — quando se absteve por não “confiar” que o primeiro-ministro possa ter afastado o risco de no deal. De acordo com Lewis Goodall, jornalista da Sky News, o partido deu instruções aos seus deputados para que votassem favoravelmente a ida às urnas, fosse em que data fosse.