José Sócrates já saiu do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, onde decorreu o terceiro dia de interrogatório, no âmbito da fase de instrução do processo Operação Marquês. À entrada, parou apenas para dar resposta à intervenção de Rosário Teixeira, o procurador que liderou o processo Marquês, que classificou como “profundamente infeliz e completamente imprópria”. À saída, após uma sessão mais longa que a de terça-feira, nada disse aos jornalistas.

Rosário Teixeira, recorde-se, comentou esta terça-feira à entrada do tribunal as críticas que o antigo primeiro-ministro fez na segunda-feira à acusação do Ministério Público, dizendo: “O senhor engenheiro diz o que quiser sobre essas coisas. No fim, a gente faz as contas”. Agora, Sócrates responde e atira que esta declaração “é muito reveladora daquilo que sempre esteve na base deste processo: uma certa motivação pessoal”. Acrescentou ainda que espera “que o senhor procurador tenha oportunidade de retificar esta infeliz declaração”.

Logo após esta crítica, Rosário Teixeira, também à chegada ao tribunal, esclareceu que não se referia a um ajuste de contas, mas sim à fase final do processo. “Não tem nada a ver com ajuste de contas nenhum. Vocês conhecem a expressão ‘Fazer contas no fim'”, disse aos jornalistas.

Este é o terceiro dos quatro dias consecutivos reservados pelo juiz Ivo Rosa para a inquirição do ex-primeiro-ministro, que chegou a estar detido preventivamente na cadeia de Évora durante 10 meses, e está acusado de 31 crimes — 3 de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 de branqueamento de capitais, 9 de falsificação de documentos e 3 de fraude fiscal qualificada.

O interrogatório de terça-feira teve um foco especial na rede de contactos do ex-primeiro-ministro. Segundo apurou o Observador, Sócrates foi questionado sobre a relação com o empresário luso-angolano Hélder Bataglia, fundador da Escom, e teve também de responder a perguntas sobre a ligação que tinha com Joaquim Barroca, ex-administrador do grupo Lena. O ex-primeiro-ministro terá dito que não conhecia Barroca, segundo disse aos jornalistas Castanheira Neves, advogado do empresário.

As perguntas focaram ainda o momento em que conheceu Carlos Santos Silva e a relação que com ele estabeleceu desde esse momento. Num interrogatório que demorou mais de cinco horas, José Sócrates foi ainda ouvido sobre as vindas de Lula da Silva a Portugal.