Uma equipa que se resume no olho negro de Bruno – e nas meias de Mathieu (a crónica do P. Ferreira-Sporting)

Podia ter sido outra noite de horrores, acabou como novo dia de esperança: Sporting não convence mas soma terceiro triunfo seguido na Liga com P. Ferreira (2-1) por obra do suspeito do costume.

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Bruno Fernandes marcou um golo (de penálti), fez uma assistência e foi o MVP da vitória do Sporting na Capital do Móvel

Ivan Del Val/Global Imagens

Bruno Fernandes marcou um golo (de penálti), fez uma assistência e foi o MVP da vitória do Sporting na Capital do Móvel

Ivan Del Val/Global Imagens

As meias de um jogador de futebol são muitas vezes como aquelas barras de energia dos jogos de computadores que vão diminuindo com o passar do tempo. 100%, 77%, 56%, 34%, 12%. E isso até é mais percetível quando o jogo em causa mete prolongamento pelo meio – não se regressa aos anos 80 quando havia heróis da cabeça à canela que alinhavam de meia baixa e dobrada ao nível do tornozelo mas é um bom barómetro para medir a fadiga acumulada que se começa a sentir mais ou menos naquele gémeo. No entanto, também há quem consiga ludibriar essa mesma regra para se assumir como uma exceção. Neste caso, um jogador de exceção. Mas que também falha.

Pela forma como tinha as meias arranjadas na primeira parte do jogo com o V. Guimarães, no passado domingo, Mathieu, que fez esta semana 36 anos, parecia ter a barra já em baixo. Em cima do minuto 90, e quando a equipa adversária tentava um último forcing para chegar ao 3-2 que reabrisse ainda o encontro, o francês ganhou a bola na defesa, fez uma primeira finta e continuou uma cavalgada de cabeça levantada até o árbitro Artur Soares Dias dar indicações de que a partida estava já interrompida. Uma hora e meia depois, continuava a fazer sprints. Uma hora e meia depois, aquela tal barra alegórica da condição física parecia estar a subir e não a descer.

“Mathieu e Coates foram os pilares da equipa”, reconheceu Silas após essa partida com os vimaranenses. “Ele é daqueles jogadores com quem precisamos de falar muito para sentir como estás. De momento está bem, a treinar bem mas no dia em que não estiver, não vamos correr riscos. É uma questão de muito diálogo. Joguei até aos 40 anos e sei que a partir de certo momento fazer três ou quatro jogos consecutivos começa a pesar. Mas tem-se portado como um jovem, essa é que é a verdade”, destacou na antecâmara da deslocação a Paços de Ferreira. Tão ou mais importante pelo que joga, o francês tornou-se uma espécie de trave mestra naquele que é o grande objetivo do técnico nesta fase: estancar o número de golos sofridos pela equipa verde e branca.

“Quando chegámos a nossa preocupação era a nível defensivo e ainda está a ser. Precisamos de estabilizar a equipa, porque os golos pesam muito. Temos 14 golos marcados e dez sofridos. Dez sofridos nesta altura é muito para uma equipa que quer lutar pelo título. O primeiro e segundo classificados têm três e quatro, nós temos dez”, sublinhou no lançamento da partida que poderia dar ao Sporting a terceira vitória seguida na Liga da temporada.

Ficha de jogo

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P. Ferreira-Sporting, 1-2

9.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Capital do Móvel, em Paços de Ferreira

Árbitro: Rui Costa (AF Porto)

P. Ferreira: Ricardo Ribeiro; Bruno Santos, Bruno Teles, André Micael, Reabciuk; Diaby (Douglas Tanque, 58′), Luiz Carlos, Pedrinho; Hélder Ferreira (Zé Uilton, 65′), Welthon e Murilo (Dadashov, 81′)

Suplentes não utilizados: Simão Bertelli, Jorge Silva, Rafael Gava e Bernardo Martins

Treinador: Pepa

Sporting: Renan; Ristovski, Coates, Mathieu, Acuña (Tiago Ilori, 88′); Doumbia, Eduardo; Bruno Fernandes, Vietto; Jesé Rodríguez (Bolasie, 65′) e Luiz Phellype (Borja, 81′)

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Neto, Miguel Luís e Rafael Camacho

Treinador: Silas

Golos: Luiz Phellype (11′), Douglas Tanque (74′) e Bruno Fernandes (79′, g.p.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Murilo (29′), Ristovski (43′), Diaby (49′), Acuña (60′), Pedrinho (60′), Hélder Ferreira (62′), Coates (64′), Doumbia (69′), Luiz Carlos (76′), Borja (84′), Renan Ribeiro (88′) e Eduardo (90+3′)

Mais uma vez, os leões voltaram a sofrer. E até podiam ter sofrido mais, nem tanto pela defesa em si mas pela forma como as descompensações no meio-campo iam fazendo cair como peças de dominó os opositores leoninos até os pacenses ganharem vantagem para o remate. Mathieu, esse, fez um sprint lá à frente mas acabou por revelar algum desgaste que lhe tirou clarividência em ações defensivas. A tal barra da condição física em queda, como se viu na forma como foi ultrapassado por Bruno Santos. Aí, entrou Bruno Fernandes e o seu olho negro, uma marca que vem ainda do jogo de domingo com o V. Guimarães: o Sporting ainda se tenta reencontrar, continua a estar longe de dominar todos os rounds de um jogo mas, quando chega a hora certa, aguenta-se e ganha aos pontos. E pontos, mais três, naquela que foi a primeira série de três triunfos consecutivos no Campeonato (2-1).

Com apenas duas alterações na equipa (a troca na lateral de Rosier por Ristovski e a aposta em Luiz Phellype na frente em vez de Bolasie), o Sporting entrou melhor. Mais do que isso, entrou a mandar, com capacidade de esticar jogo, com boas zonas de pressão a facilitarem a recuperação de bola. Assim, foi até com naturalidade que os leões chegaram à vantagem por intermédio de Luiz Phellype, a surpresa do onze que marcou à anterior equipa e acabou com um jejum de golos que vinha desde a quarta jornada após cruzamento de Bruno Fernandes (11′). A partir daí, um jogo quase sem balizas, sem um único remate até aos últimos momentos antes do intervalo mas com a equipa verde e branca a controlar as incidências da partida a meio-campo com e sem bola.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do P. Ferreira-Sporting em vídeo]

No segundo tempo, tudo mudou. Mudou na atitude, com os pacenses a acordarem para o jogo, a não terem medo de subir as linhas e a perderem o receio de invadirem o último terço do adversário. Mudou na capacidade, com os leões a ficarem privados da primeira zona de construção que permitisse explorar as transições rápidas e as saídas de unidades mais móveis como Vietto ou Jesé Rodríguez. Bruno Santos, numa oportunidade flagrante dentro da área, obrigou Renan Ribeiro a grande defesa para canto (48′) antes de Douglas Tanque, saído do banco para mexer ainda mais com o ataque dos visitados, tentar também a meia distância (68′).

Foi numa altura em que o P. Ferreira já estava por cima do jogo que surgiu o empate, neste caso de bola parada: canto apontado na direita para a zona do primeiro poste, cabeceamento de Tanque algures com pescoço ou ombro no meio dos defesas verde e brancos e 1-1 quando se entrava no último quarto de hora (74′). O Sporting enfrentava um duplo problema: estancar o habitual desequilíbrio emocional em momentos chave da partida desfavoráveis e encontrar uma forma de fazer aquilo que falhara durante meia hora e que passava por chegar à baliza contrária. Luiz Carlos, experiente médio dos castores, acabou por dar de forma involuntária uma mãozinha. Literalmente: ao cortar de forma irregular um livre lateral na área, deu oportunidade para Bruno Fernandes fazer o 2-1 de penálti e sedimentar o posto de jogador da Liga com mais intervenção em golos (cinco golos, cinco assistências).

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