“Sinto-me grato por tudo aquilo que a equipa teve de passar, muitos desafios. Mas as pessoas da África do Sul estiveram sempre connosco e estamos tão agradecidos. Temos tantos problemas no nosso país mas conseguimos uma equipa destas. Viemos de diferentes contextos [backgrounds], diferentes raças mas juntámo-nos com um único objetivo: alcançar a vitória e mostrar à África do Sul que quando estamos juntos, conseguimos tudo. Desde que nasci, nunca vi a África do Sul assim. Sei aquilo que o Mundial de 1995 fez por nós mas agora, com todos os desafios que tivemos pela frente, o treinador disse-nos: ‘Já não estamos a jogar só por nós, estamos a jogar por um país’. Era isso que queríamos fazer hoje. Por isso, agradecemos a todos aqueles que estiveram connosco. Nós amamos a África do Sul e podemos fazer o que quisermos se estivermos juntos como um só”.

No final de todos os jogos do Campeonato do Mundo de râguebi, os capitães (e depois os treinadores, bem como o MVP) deslocavam-se sempre ao centro do relvado para uma flash interview transmitida para a TV mas também para todo o estádio. Enquanto a primeira pergunta estava a ser feita, Siya Kolisi, o líder sul-africano que manteve sempre um ar de serenidade enorme ao longo de toda a competição, olhava para todo o lado, fixava-se no chão para recuperar o fôlego, mordia o lábio. Aquela não era uma zona mista nem uma conversa qualquer – iriam ouvir-se as primeiras palavras do novo campeão do mundo. E até este momento ficará guardado na memória.

Aos 28 anos, o primeiro capitão negro dos Springboks já era um exemplo interno e mundial mas elevou o patamar pelo discurso que teve após a vitória da África do Sul frente à Inglaterra na final do Campeonato do Mundo por 32-13. O capitão que, tal como François Pienaar em 1995, usava também a camisola número 6. Um capitão que, neste momento ainda mais, poderá inspirar mais de metade da nação do arco-íris. “Se o Siya Kolisi levantar o troféu de campeão do mundo, terá um significado ainda maior do que 1995″, tinha afirmado na antecâmara da final Bryan Habana, um dos melhores jogadores sul-africanos de sempre que já tem hoje 36 anos.

“A história do Siya tem o potencial para tocar e marcar tantas, tantas pessoas. 60% das pessoas na África do Sul são carenciadas e ele será uma inspiração para todas elas. Este é um rapaz que, quando era mais novo, andava mais preocupado em saber de onde viria a próxima refeição e não que tipo de botas de râguebi iria utilizar”, destacou numa conversa citada pelo The Telegraph. “Será histórico. Não vai colocar bem todos os males da África do Sul, não vai resolver a situação política, não vai corrigir o crime ou a corrupção. Mas irá permitir que uma grande parte da população que nunca sentiu afinidade com os Sprinboks sinta uma verdadeira ligação à equipa porque um deles está ali. Quem não vive na África do Sul não consegue perceber o significado disso”, acrescentou.

Nascido e criado num complicado bairro de Port Elizabeth, filho de um casal que estava ainda a terminar o ensino secundário na altura apesar de ter sido criado pela avó a partir dos 15 anos após a morte precoce da mãe, Kolisi começou a jogar cedo râguebi, tendo sido detetado num torneio em Mossel Bay que lhe valeu uma bolsa de estudo no Grey Junior e, ato contínuo, na prestigiada Grey High School. Em 2013, o jogador (e também capitão) dos Stormers estreou-se pelos Springboks, chegando à liderança da equipa em maio de 2018 depois de já ter estado no Mundial de 2015, quando a África do Sul caiu de forma inglória com a Nova Zelândia nas meias-finais. Antes, em 2007, tinha guardado na memória o dia em que foi a um café ver o encontro decisivo dos Sprinboks com a Inglaterra por não ter televisão em casa. 12 anos depois, foi ele e não John Smit que levantou a taça.

Exemplo na escola, exemplo em campo, exemplo no balneário e exemplo na sociedade, nem tudo foram facilidades para Siya Kolisi. Longe disso. Na infância, pelas dificuldades que a família atravessava enquanto ia fintando todas as más tentações de um bairro considerado perigoso. Mais tarde, pelo casamento com Rachel Smith, a namorada de sempre com quem tem dois filhos e que sofreu ameaças e pressões por ser branca e estar com um negro – o que afetou e muito o jogador. Kolisi nunca cedeu e foi fazendo o bem: ser uma referência dentro de campo, ser um modelo fora dele e ajudar as pessoas mais próximas como as duas meias irmãs que, depois de terem estado cinco anos em orfanatos e famílias de acolhimento, passaram a viver consigo. Também por isso, é presença regular nos churrascos em casa dos companheiros como Eben Etzebeth, colega de quarto e um dos melhores amigos, como destacava o El Confidencial. E hoje teve ao lado o pai Fezakele, que saiu pela primeira vez do país.

“Fico contente apenas por ser capitão, pelo imenso privilégio que isso representa, mas ser o primeiro capitão negro não é algo que pense. Venham da minha comunidade ou de outra, quero é representar as pessoas”, descreveu um dia a propósito do papel na equipa o jovem que na adolescência nem três euros tinha para pagar o colégio que frequentava com uma bolsa, como contou o La Vanguardia, mas que se tornou num símbolo entre dificuldades que chegaram até do papel de líder: “No início foi complicado porque as minhas atuações baixaram um pouco e tive de trabalhar muito para recolocar o foco no meu jogo. Tive líderes fantásticos à minha volta como capitão, como o Handre [Pollard], o Duane [Vermeulen] ou o Eben [Etzebeth]. Somos sul-africanos diferentes, com um caminho de vida distinto mas que se juntaram e sabem o que querem”, disse antes da final, citado pelo The Guardian.