A agência de notação financeira Fitch estima que Angola consiga evitar uma nova recessão este ano, crescendo 0,4% e acelerando para 2% em 2020, apesar de manter uma Perspetiva de Evolução Negativa sobre o rating.

“A Perspetiva de Evolução Negativa reflete uma deterioração das métricas da dívida, a contínua queda nas reservas externas e a constantemente adiada retoma económica, que é balanceada com a capacidade do governo para fazer ajustamentos macroeconómicos e orçamentais significativos”, escrevem os analistas da Fitch num relatório sobre os ratings na África subsaariana.

No documento, enviado aos clientes e a que a Lusa teve acesso, a agência de rating diz que as reservas em moeda externa caíram para o valor mais baixo dos últimos nove anos devido às pressões sobre o kwanza, que desvalorizou para um nível maior do que o esperado, e alerta que o “risco de perdas maiores nas reservas externas continua”.

Sobre a dívida pública, a Fitch aponta que “com a inclusão da Sonangol nas contas, o total da dívida do setor público vai subir para 88,8% em 2019”, mas salienta que o cenário base para as previsões aponta para uma estabilização do rácio da dívida face ao PIB em 2020, nos 77,4%.

O programa de assistência financeira do Fundo Monetário Internacional, no valor de 3,7 mil milhões de dólares, cerca de 3,3 mil milhões de euros, acordado em dezembro do ano passado, é fundamental “para os esforços de consolidação orçamental e ajuda Angola a aceder a fontes de financiamento externo, permitindo ao governo cumprir as necessidades de financiamento de cerca de 6% do PIB este ano”, escrevem os analistas.

No relatório, a Fitch salienta ainda que há um “desempenho pobre” nos indicadores estruturais, nomeadamente no desenvolvimento humano e na governação, que estão abaixo da média, e no PIB per capital abaixo da média dos países cujo rating está em B, para além da dependência do petróleo, sendo o país mais dependente de uma só matéria-prima entre todos os soberanos analisados pela agência.

Entre os fatores positivos, a Fitch Ratings aponta um contínuo aumento nas receitas petrolíferas, um declínio firme na dívida pública no futuro e uma melhoria no ambiente de negócios, no rendimento per capita e nos padrões de governação.

Pelo contrário, entre os aspetos negativos, são salientados os falhanços na estabilização da dívida pública face ao PIB, na implementação de uma agenda reformista que apoie o crescimento do setor não petrolífero e que mantenha o acesso a fontes de financiamento externa e, por último, uma deterioração acrescida nas reservas internacionais.

No relatório, a Fitch afirma, a nível geral, que a dívida pública na região deverá estabilizar nos 56% este ano, o que compara com a previsão de 83,8% para Angola, 123% para Cabo Verde e de 100,7% para Moçambique, os três países lusófonos analisados pela Fitch Ratings.

“A subida da dívida combinada com um recurso crescente à dívida comercial e a emissões de dívida fez com que os gastos dos países da África subsaariana em juros da dívida tenham subido, para uma média de 13% em 2019, com cinco dos 19 países analisados com um rácio superior a 20%, o que sugere que há uma margem limitada em caso de choque”, alertam os analistas.

Entre os 19 países analisados pela Fitch, três têm uma Perspetiva de Evolução Negativa, um está com Perspetiva de Evolução Positiva e todos os outros têm uma Perspetiva de Evolução Estável.

A Fitch espera um crescimento de 4,1% este ano, ligeiramente acima dos 4% de 2018, e espera um crescimento um pouco maior em 2020, estimando que as duas maiores economias africanas, a Nigéria e África do Sul, tenham um crescimento em linha com o do ano passado, e antecipam que Angola “consiga simplesmente evitar uma nova contração do PIB em 2020”, com o resto da região a dividir-se entre importadores de matérias-primas, que terão um crescimento rápido, e um grupo de exportadores destes materiais que ainda estão a recuperar do choque.