Em 1982, Franklin J. Schaffner realizou um filme muito, mas muito mau chamado “Yes, Giorgio”, com que Hollywood pretendia capitalizar na crescente popularidade de Luciano Pavarotti. “Yes, Giorgio” mete mesmo dó, quer porque Schaffner tinha assinado antes fitas como “O Senhor da Guerra”, “O Homem que Veio do Futuro” e “Patton”, quer porque o argumento trata Pavarotti como um estereótipo, envolvendo a sua personagem, um cantor lírico que perde a voz durante uma digressão aos EUA e se apaixona pela médica que vai consultar, numa série de situações cada uma mais embaraçosamente ridícula do que a outra. Numa delas, o tenor entoa uma peganhenta canção romântica, metido num balão que ruma a um vinhedo californiano. Um susto de piroso e uma pérola de comédia involuntária.

[Veja uma sequência de “Yes, Giorgio”:]

Depois de ver aquilo, quem nunca tivesse andado de balão, jamais o faria, e quem já tivesse passeado num, não o voltaria a fazer, tal o trauma. O cinema nunca mostrou lá muito interesse pelos balões e pelo balonismo. Entre os raros filmes em que os balões têm um papel central, contam-se a adaptação do clássico de Júlio Verne “5 Semanas em Balão”, de Irwin Allen, em 1962; “Night Crossing”, de Delbert Mann (1982), com John Hurt, a história real de duas famílias que fugiram da RDA para o Ocidente num balão; ou ainda a animação da Pixar “Up-Altamente”, realizada por Pete Docter (2009), onde os balões transportam a casa da personagem principal, o idoso Carl, e um pequeno clandestino, para a América do Sul.

[Veja o “trailer” de “Os Aeronautas”:]

De súbito, aterra nos cinemas “Os Aeronautas”, do inglês Tom Harper, passado na Inglaterra vitoriana, todo ele balões e balonistas, com uma história que mistura liberalmente factos e ficção. No lado factual, temos o aeronauta, astrónomo e pioneiro da meteorologia James Glaisher (Eddie Redmayne); do lado ficcional, temos a piloto de balões Amelia Wren (Felicity Jones). Ela é um compósito de várias aeronautas dessa época, nomeadamente a pioneira francesa Sophie Blanchard. (O imperativo que vigora atualmente no cinema, de pôr sempre mulheres em posições de destaque em qualquer tipo de história, mesmo quando na realidade lá não estiveram, levou a que o verdadeiro co-piloto e habitual companheiro de ascensões de Glaisher, o balonista Henry Coxwell, tivesse sido omitido do filme).

[Veja uma entrevista com Eddie Redmayne e Felicity Jones:]

Redmayne e Jones já contracenaram em “A Teoria de Tudo” (2014), interpretando Stephen e Jane Hawking. Em “Os Aeronautas”, James Glaisher é um cientista que pretende mostrar aos seus céticos e escarninhos colegas que as suas teorias meteorológicas estão certas e não são nem absurdas nem ridículas, enquanto Amelia Wren é uma mulher que desafia as convenções do tempo e tem que enfrentar um desafio pessoal, ligado à trágica morte do marido, também ele balonista. Ambos têm muito a provar aos outros e si mesmos quando se metem no balão, cuja largada é rodeada da indispensável espectacularidade (até há um cão páraquedista), para atrair muito público e satisfazer os patrocinadores da missão, que também poderá bater o recorde de altitude da especialidade.

[Veja uma cena do filme:]

“Os Aeronautas” é um filme pedestre quando está no solo, o que acontece sempre que há um “flashback”, mas ganha asas cinematográficas e emotivas quando a ação se concentra no que se passa no balão. A produção não se limitou a recriar a ascensão através de efeitos de computador. Fez construir um balão de ar quente semelhante aos que voavam nesses meados do século XIX, no qual o duo de intérpretes foi metido, combinando sequências fabricadas digitalmente com outras filmadas em voo real, belíssimas quando o tempo está bom e emocionantes quando muda para pior e testa a coragem, a destreza e a resistência de James e Amelia, e a solidez do balão. (A cena em que esta tem que trepar até ao topo da aeronave para descongelar a válvula de controlo do ar quente, é de nos fazer encolher na cadeira.)

Um verdadeiro OVTI (Objeto Voador Totalmente Inesperado) no presente panorama da exibição, sobretudo considerando que as festas natalícias estão aí à porta, este diligente e muito agradável “Os Aeronautas” conta o que tem a contar na canónica hora e meia, só se desaconselha a quem sofra de vertigens e recomenda-se àqueles que, por causa de “Yes, Giorgio”, tenham ficado desavindos com balões no cinema.