Morreu a atriz e cantora Anna Karina, importante figura do movimento artístico da Nouvelle Vague e protagonista de vários filmes do realizador Jean-Luc Godard, com quem chegou a estar casada.

Anna Karina morreu este sábado aos 79 anos, doente com um cancro, conforme anunciou à AFP o seu agente, Laurent Balandras. “A Anna partiu ontem num hospital parisiense devido a um cancro. Foi uma artista livre, única”, anunciou o agente da atriz e cantora cuja presença no IndieLisboa deste ano, em maio, teve de ser cancelada por “razões de saúde”.

O ministro da Cultura de França, Franck Riester, reagiu a esta notícia no Twitter. “O seu olhar era o olhar da Nouvelle Vague e continuará sempre a sê-lo. Sobretudo ao lado de Godard, mas também de Rivette ou Visconti, Anna Karina irradiava luz. Ela atraía o mundo inteiro. Hoje, o cinema francês está órfão. Perdeu uma das suas lendas”, escreveu aquele governante.

Anna Karina nasceu na Dinamarca, no seio de uma família disfuncional. Filha de um pai ausente e de uma mãe pouco afetiva, fugiu para Paris em 1957, à beira de fazer 18 anos, para se tornar atriz. Os seus primeiros trabalhos como tal foram em anúncios, como um que fez, aos 17 anos, para uma marca de sabonetes, recorda o Le Monde.

Foi precisamente nesse anúncio que o realizador Jean-Luc Godard, à altura jornalista na revista Cahiers du Cinéma, descobriu a jovem atriz, oferecendo-lhe mais tarde um papel no seu filme “A bout de souffle”, de 1959. Por ter uma cena de nudez, Anna Karina recusou a oferta. Porém, mais tarde, o mesmo realizador viria a chamá-la para o filme “Petit Soldat”, uma crítica à guerra da Argélia que foi visada pela censura do tempo de Charles de Gaulle e que só mais tarde viu a luz do dia. Não obstante, foi aí que a atriz e o realizador iniciaram uma profícua relação profissional e também amorosa, tendo casado com Jean Luc-Godard.

Ao todo, participou em sete filmes daquele realizador, entre os quais esteve “Une femme est une femme”, que lhe valeu o Prémio de Melhor Interpretação do Festival de Cinema de Berlim de 1962. Além de musa de Jean-Luc Godard, acabou também por se tornar numa atriz exclusiva daquele realizador, mesmo que não por sua escolha ou do seu marido mas antes por receio dos outros cineastas. “Eu era a mulher do Jean-Luc. Isso dava-lhes certamente algum medo”, recordou mais tarde, de acordo com a AFP.

O casamento com Jean-Luc Godard durou entre 1961 e 1967. A partir daí, a atriz trabalhou com outros realizadores de várias partes do mundo, como o norte-americano George Cukor, o italiano Luchino Visconti e o alemão Rainer Werner Fassbinder.

Naquela época, conciliou também a carreira cinematográfica com a discográfica, na qual também se veio a destacar como intérprete da música “Sous le soleil exactement”, escrita propositadamente para a sua voz por Serge Gainsbourg. Dividida entre o cinema e a música durante toda a sua vida profissional, foi a esta última que se dedicou até mais tarde na sua vida. O seu último álbum “Je suis une aventurière”, compilação de vários extratos musicais de alguns filmes onde cantava, foi lançado em 2018.

Em 2018, teve honras de cartaz da 71ª edição do Festival de Cinema de Cannes.