João Pedro Rodrigues sempre quis ser “tudo e mais alguma coisa”. Quando tinha apenas três anos, passava longas horas a montar e a desmontar computadores na empresa do pai. Tudo porque gostava de resolver problemas. Hoje, com 29 anos, João Pedro é engenheiro físico e lidera a equipa de desenvolvimento tecnológico da The Loop Company, uma startup portuguesa de economia circular, inovação social e que aplica a tecnologia espacial em várias áreas do quotidiano. O caminho até aqui envolveu uma experiência nos Estados Unidos e um regresso a casa mais cedo do que o que esperava: do centro do empreendedorismo — Silicon Valley — voltou para Coimbra, a sua cidade natal.

De 2015 a 2017, João Pedro partilhou os dias entre a cidade portuguesa e Stanford, na Califórnia, numa colaboração com o Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas, da Universidade de Coimbra. Nesta altura, o engenheiro tinha em mãos um trabalho numa nova geração de detetores de matéria escura — uma forma que não interage com a matéria através da qual as coisas visíveis no universo são feitas mas que, sem ela, as galáxias se desmantelam.

Pouco tempo depois, João Pedro fez oficialmente as malas e foi trabalhar a tempo inteiro para o Centro de Aceleração Linear de Stanford (SLAC), um laboratório do Departamento de Energia do governo dos Estados Unidos. Lá, o trabalho era igualmente complexo: desenvolver máquinas capazes de medir a matéria negra do universo ou a velocidade dos átomos. “Sempre tive a visão de que é importante ter experiências, não necessariamente no estrangeiro, mas também no estrangeiro por ser diferente e porque acontecem coisas que ainda não acontecem à mesma escala em Portugal”, conta o engenheiro ao Observador.

Quando chegou aos Estados Unidos, João encontrou “um ambiente muito diferente” do que se vive em Portugal, quer em termos científicos, quer em termos de tecnologia. A maior diferença, conta, era a escala em que tudo era feito.

O regresso a Coimbra para gerir tecnologia e pessoas

Em menos tempo do que teria inicialmente previsto, João Pedro regressou a Coimbra para começar um novo desafio. Tudo aconteceu depois de conhecer os responsáveis da The Loop Co., também eles de Coimbra e com um projeto que na altura consistia apenas na Book in Loop, uma plataforma que permite a compra e venda de livros usados, mas com controlo de qualidade, e na Baby Loop, que serve para equipamento de recém-nascidos. “Chegou uma altura em que sentiram a necessidade de ter uma divisão tecnológica. E foi assim que comecei a colaborar com eles”, explicou.

Entre a equipa do Loop Lab estão engenheiros físicos, biomédicos, engenheiros informáticos, designers e ainda uma equipa ligada à economia, direito e marketing

A empresa desenvolveu-se, adquiriu outras competências, contratou mais pessoas e o Loop Lab, o laboratório que João Pedro Rodrigues coordena, tornou-se numa divisão cada mais autónoma. João Pedro passou também a ter outros projetos. Foi aqui que a engenharia espacial se juntou a projetos da vida quotidiana.

“Trabalhamos em conjunto com outros parceiros, mas temos a grande visão de trazer para o mercado e para as indústrias mais do quotidiano, as técnicas, competências, tecnologias e as abordagens que se têm no chamado mundo da big science“. Para João, o mundo da grande tecnologia não está assim tão distante do dia-a-dia.

Mas, em termos práticos, como é que tudo se processa? Um dos projetos que a Loop Lab está a desenvolver, por exemplo, chama-se “Jacob” e aplica tecnologia do espaço em grandes obras, como a construção civil. “Existe um problema em obras de grande escala, que se estendem por dezenas de quilómetros. Há alguma dificuldade em ter contacto em tempo real entre as equipas de monitorização de obra e as equipas que estão no terreno, ao longo desta extensão toda”, explica o engenheiro.

Para resolver este problema, a equipa constituída por cerca de 15 pessoas desenvolveu um wearable — produto tecnológico pensado para usar na roupa ou no corpo — que cada trabalhador pode usar como parte do equipamento. Este aparelho permite detetar acidentes, quedas e, no futuro, vai também ter um “botão de pânico” para permitir aos trabalhadores comunicar em tempo real com a base, caso alguém tenha algum problema, e iniciar ações de socorro o mais rápido possível.

E o que tem isto a ver com o espaço? Há três componentes de tecnologia espacial que são utilizadas para este wearable: a localização por GPS, a comunicação por satélite e as imagens satélite fornecidas pelo programa europeu Coopernicus. Estas três ferramentas só são possíveis através da tecnologia do espaço. A empresa pretende, no futuro, escalar este projeto para outras áreas, como a Proteção Civil e as Forças de Segurança.

Outro projeto que o Loop Lab está também a trabalhar, ainda que numa fase inicial, é um de incubação do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), na Suíça, onde o laboratório está a tentar desenvolver uma tecnologia de sensores com fibra ótica que permite medir, ao longo de vários quilómetros de extensão, parâmetros ambientais, como a temperatura e a humidade. “Há diversas indústrias em que o controlo ambiental é muito importante e tem de ser feito em larga escala, muitas vezes com centenas, milhares de sensores espalhados no espaço que é preciso monitorizar”, explica.

Tudo isto, conta João Pedro, era aquilo que sempre se viu a fazer: “Nunca quis fazer ciência sem ter um pé nas aplicações. Não é que a ciência pura não me fascine, só acho que a minha vida é muito curta nesses casos para ver os efeitos práticos do meu trabalho. Pode ser uma visão um pouco egoísta”.

O Loop Lab está também integrado num programa da Agência Espacial Europeia (ESA), que financia projetos que pegam em tecnologia espacial e aplicam em mercado ou o contrário, que pegam em produtos e adaptam para o espaço. A entrada no ESA Business Incubator Center (BIC) não foi “à primeira”, mas veio permitir dar um salto tecnológico. A empresa recebeu também, numa fase inicial, um investimento de 150 mil euros do Fundo Bem Comum, dedicado a projetos com impacto social.

“Não desenvolvemos um produto à porta fechada durante dois anos e depois vamos ao mercado tentar vender”

O grande desafio de trabalhar numa área como esta nem sempre está ligado à complexidade da tecnologia, mas à gestão de uma equipa inteira. “Muitas vezes, o desafio é gerir pessoas, ser o maestro de uma orquestra que tem de trabalhar bem”, admite o engenheiro. Entre a equipa do Loop Lab estão engenheiros físicos, biomédicos, informáticos, designers e ainda uma equipa ligada à economia, direito e marketing.

Além do desafio da gestão de equipas, e para quem vem de um “background todo de tecnologia”, João Pedro fala num erro que vê ser cometido com muita frequência: desenvolver uma “tecnologia que é fascinante, mas que é apenas isso: tecnologia, sem nenhuma aplicação de mercado”.

Se não tiver uma  aplicação de mercado, é uma tecnologia fascinante que nunca se traduz no impacto real na vida das pessoas. E, portanto, nós quando pensamos no que vamos desenvolver, pensamos sempre nas duas coisas: se há problemas, se há uma necessidade, o que é que o mercado quer e que tecnologia temos para oferecer”, acrescentou o engenheiro.

É por isso que, conta, um dos primeiros passos da equipa logo depois de ter uma ideia é ir à procura de parceiros que queiram dar o contributo ao projeto, para fazer um piloto. “Costumo dizer, nós não desenvolvemos um produto à porta fechada durante dois anos e depois vamos ao mercado tentar vender. Há uma grande probabilidade de fazer uma coisa que para ti parecia ser super necessária e depois chegas [ao mercado] e vês que não querem bem aquilo”, acrescenta.

Em Portugal, conta João Pedro Rodrigues, a área da engenharia do espaço está “no caminho certo”, uma vez que tem sido alvo de um crescente investimento, como é o caso da aposta de 250 milhões de euros de Portugal na ESA. No entanto, nem tudo está resolvido: “O mercado do espaço, principalmente no desenvolvimento, é um mercado relativamente fechado, onde tens de construir credibilidade. Entrar pela primeira vez é um pouco difícil. Penso que têm de ser encontradas algumas soluções para que empresas como a nossa, que também querem entrar nesse mercado, possam ter algumas soluções para se conseguirem provar”.

O próximo objetivo da Loop Co. é deixar de ser apenas do mercado português e apostar na Europa. “Estamos agora a avaliar em que modelos e em que dimensão”, sublinha. Da experiência nos Estados Unidos, João Pedro Rodrigues leva outra visão. Mas garante: “Voltei a adaptar-me. Acho que aqui [em Coimbra] há oportunidades que lá não há”.