Quem esperava perceber finalmente como Carlos Ghosn, vigiado 24 horas por dia, conseguiu escapar da prisão domiciliária no Japão, não vai ter esse gosto. “Não vou revelar o meu plano de fuga”, disse o empresário, antigo presidente do grupo Renault-Nissan, durante a sua primeira conferência de imprensa desde que saiu do Japão em direção ao Líbano. As declarações foram feitas esta quarta-feira em Beirute. Em vez da fuga, “a decisão mais difícil” da sua vida, o empresário preferiu apontar o dedo a uma alegada conspiração feita contra a sua pessoa e que comparou ao ataque japonês à base de Pearl Harbor. Os norte-americanos não deram conta de que o ataque ia acontecer e ele também não se apercebeu de que a conspiração crescia.

Muito se tem especulado sobre a fuga de Ghosn, acusado de fraude, e sobre o envolvimento dos seus familiares no desenho da estratégia. Mas em Beirute, o empresário preferiu falar das condições em que esteve detido: “Fui brutalmente arrancado do meu mundo”, disse.

Os responsáveis pela investigação criminal, acusou, avisaram-no de que o melhor era confessar, caso contrário a sua situação iria piorar — e as condições do seu encarceramento, disse, violavam as regras das Nações Unidas. Durante a sua prisão, não teve qualquer contacto com familiares, garantiu.

Ex-presidente da Nissan viajou no comboio “bala” para chegar ao jato e fugir do Japão

Falando sobre Greg Kelly, seu antigo assessor e que ainda se encontra sob custódia, Ghosn garantiu que este foi perseguido por se ter recusado a assinar um acordo com as autoridades japonesas. Kelly é uma “vítima do sistema”, asseverou.

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Sobre si próprio e sobre as acusações de fraude que lhe são atribuídas, Ghosn manteve o que tem dito desde o primeiro minuto: são falsas. E apontou o dedo a “indivíduos sem escrúpulos e vingativos” da Nissan e do seu escritório de advocacia, o Latham & Watkins, por terem congeminado as acusações. A sua única opção era proteger-se a si e à sua família, sublinhou frente aos jornalistas.

Não estou acima da lei”, afirmou o empresário, “mas não tinha escolha que não fosse a de fugir do Japão” onde a taxa de condenação é de 99%. “Optar por fugir foi a decisão mais difícil da minha vida.”

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Uma longa conspiração que Ghosn compara a Pearl Harbor

Embora não tenha revelado os detalhes da sua fuga, Ghosn não se importou de avançar com os detalhes daquilo que considera ter sido uma conspiração contra si. Tudo começou, diz, com o declínio da Nissan em 2017, e aponta o dedo a Hiroto Saikawa, o antigo CEO.

A relação Nissan-Renault estava tremida, havia alguma inveja dos japoneses em relação à marca francesa, e dentro da Nissan terão concluído que a melhor forma de acabar com a influência da empresa francesa era livrarem-se de Ghosn, relatou o próprio.

Foi então que fez uma comparação entre este plot e o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor: quando os amigos lhe perguntam se não percebeu que a conspiração se estava a formar, Ghosn responde-lhes que os Estados Unidos também não se deram conta do ataque de Pearl Harbor. Assim, na sua opinião, empresários da Nissan, procuradores e Governo japonês juntaram-se  numa “campanha sistemática, levada a cabo por uma mão-cheia de protagonistas malévolos, para destruir” a sua reputação e atacar o seu caráter.

Renault e Nissan perderam milhões de dólares desde 2018, afirma Ghosn

Carlos Ghosn afirmou ainda que as duas empresas do setor automóvel perderam, desde a sua detenção no Japão em novembro de 2018, dezenas de milhões de dólares por dia.

“O valor da Nissan, desde a minha detenção baixou mais de 10 mil milhões de dólares. Eles perderam mais de 40 milhões de dólares por dia durante este período”, afirmou aos jornalistas em Beirute, onde se encontra desde 30 de dezembro depois de ter fugido do Japão.

“A Renault não ficou melhor, porque o seu valor baixou, desde a minha detenção, mais de 5 mil milhões de euros por dia”, acrescentou.