As publicações, de 2012 a 2015, mostram elogios ao ditador português ou à PIDE e críticas ferozes ao cônsul que salvou muitos judeus do holocausto. Em declarações ao Expresso, Abel Matos Santos diz que essas publicações tiveram “o seu contexto”. Já a Direção do CDS diz desconhecer as declarações, mas lembra que pensamento de dirigente já era “conhecido” do partido.

Os comentários encontram-se em publicações, mais antigas ou mais recentes, feitas – e ainda disponíveis – no Facebook de Abel Matos Santos, dirigente nacional do CDS que passou a fazer, com a eleição de Francisco Rodrigues dos Santos, parte da Comissão Executiva do CDS. Questionado pelo Expresso, que divulgou a notícia, Matos Santos diz que as afirmações tiveram, “como tudo nas nossas vidas, o seu momento e o seu contexto”.

As polémicas declarações, publicadas na página que usa para expressar posições públicas, multiplicam-se pelo menos desde outubro de 2012, data em que partilhou uma notícia do “Público” titulada “Embaixador de Israel diz que Portugal tem uma «nódoa» que os judeus não esquecem” para fazer o seguinte comentário sobre Aristides Sousa Mendes, o diplomata que concedeu contra a vontade de Salazar milhares de vistos a refugiados: “Porque será que defendem Sousa Mendes, que foi um agiota dos judeus?”.

Depois de, num primeiro momento, ter confirmado a veracidade das declarações, Abel Matos Santos enviou um e-mail ao Expresso em que defendia que “expurgar frases desses textos e descontextualizá-las não é um exercício sério”, deixando de fora o presidente do partido: “É totalmente alheio ao que escrevi”.

As posições são de um dirigente nacional do partido que foi até agora porta-voz da Tendência Esperança em Movimento, da ala mais conservadora do CDS, tendo feito parte, por inerência, da Comissão Política anterior. Durante o congresso deste fim de semana, Abel Matos Santos declarou o seu apoio a Francisco Rodrigues dos Santos, desistindo assim da sua candidatura a favor do atual presidente e passando a integrar a nova Comissão Executiva do partido.

Ao Expresso, o vice Filipe Lobo d’Ávila reage garantindo que a direção “desconhece” estas posições mas que o pensamento de Matos Santos, tendo exercido cargos locais e feito parte da Comissão Política anterior, é “conhecido” do partido. “Esta direção é plural e inclui várias opiniões diferentes, mas a moção vencedora é clara. O que faz sentido para esta direção é falar do futuro”, sublinha.

“A integração de dirigentes profundamente conservadores”

Apesar da nova direção desvalorizar as declarações de Abel Matos Santos, o mal estar já está instalado no partido centrista. Na crónica “Congresso do CDS”, publicada no início da semana no Jornal de Negócios, Adolfo Mesquita Nunes nunca referiu nomes mas revelava o seu desconforto na análise ao fim-de-semana em Aveiro.

“Não sabemos, por exemplo, se a integração de dirigentes profundamente conservadores (um deles acha que a minha orientação sexual pode ser curada, por exemplo; só não me ofereço como cobaia para o provar errado porque tenho coisas melhores para fazer) é mero arranjo de listas ou se, ao invés, importa para o discurso da direção esse conservadorismo de quem considera Aristides Sousa Mendes um agiota de judeus“.

Também na crónica publicada no Observador, Pedro Gomes Sanches se mostra preocupado com a deriva do CDS, “democrata na medida em que é populista, mas é iliberal na medida em que é intolerante”. E para o mostrar, transcreve as publicações de Abel Matos Santos que, tal como o próprio já assumiu, tiveram “o seu momento e o seu contexto”.