A linha do metro tinha no destino “RIP Kobe”. As camisolas, principais ou alternativas, mostravam de forma unânime o nome Bryant com o 8 ou o 24 nas costas. Até os próprios treinadores tiveram a capacidade de criar uma homenagem muito própria, calçando os ténis do líder da equipa californiana durante duas décadas com o habitual fato. Aliás, se no interior do Staples Center todas as cadeiras tinham nas suas costas uma camisola do antigo astro da equipa, cá fora viam-se bolas, quadros, flores e grandes cartazes com mensagens para um ídolo muito maior do que o fenómeno desportivo. Todas as cadeiras menos duas, aquelas que eram ocupadas por Kobe e a filha Gianna numa das imagens recentes mais marcantes que se perpetuaram onde o ex-jogador explicava algumas jogadas e movimentações à discípula que tinha sido a escolhida para lhe seguir as pisadas.

Aí, nas costas dessas duas cadeiras da primeira fila do pavilhão, estava a camisola amarela dos Lakers com o número 24 de Kobe e a camisola preta da Mamba Sports Academy com o número 2 de Gianna. Durante quase meia hora, o jogo com os Portland Trail Blazers foi sobretudo uma homenagem ao antigo jogador que morreu num acidente de helicóptero no passado domingo. E a imagem dessas duas cadeiras com rosas no assento contou tudo.

O cantor Usher, que conhecia Kobe desde os 19 anos (e foi apanhado pelas câmaras desolado após os ensaios, sentado numa cadeira da bancada), foi o primeiro a chegar ao centro do pavilhão onde estavam duas coroas de flores com o 8 e o 24, interpretando o “Amazing Grace”. Seguiu-se um vídeo que juntou as melhores jogadas, imagens e frases do “Dear Basketball” que lhe valeu o óscar de melhor curta de animação acompanhado pelo “Hallelujah” tocado pelo violoncelista Ben Hong. E o hino dos Estados Unidos. Entre um e outro momento, LeBron James e Anthony Davis eram dos mais emocionados. O número 23 respirou fundo e fez também ele um discurso.

“Tenho aqui algo que escrevi, disseram-me para vir dizer algumas palavras mas se leio esta mer… Não, vou falar do coração. A primeira coisa que me vem à cabeça é a minha família, a família em geral porque olho à volta deste pavilhão, estamos todos tristes e a primeira coisa que devemos fazer quando se passa algo como isto é ir para o ombro de algum familiar. Este domingo percebi o que significa a palavra família”, começou por referir, após um gesto onde agarrou nos papéis que levava preparados e atirou para o lado para falar de forma espontânea já depois de ter dito o nome das nove vítimas mortais do acidente de helicóptero que tirou a vida a Kobe.

“Teremos um dia de fazer o funeral do Kobe mas agora é um momento de celebração. De celebrar os seus 20 anos de carreira, o seu sangue e suor que deixou aqui, a exigência do corpo ao máximo durante horas incontáveis, a sua determinação para ser o melhor que podia ser e é isso que vamos celebrar. Hoje celebramos o menino que chegou aqui com 18 anos, que se retirou com 38 e que se converteu provavelmente no melhor pai que vimos nestes seus últimos três anos. Esta noite é uma noite de celebração”, continuou, com o cântico de fundo de “Kobe, Kobe, Kobe, Kobe” que marcou no pavilhão e fora dele uma noite diferente em Los Angeles, enquanto tentava disfarçar a emoção e o nervosismo andando de um lado para o outro no centro do campo.

O Kobe foi como um irmão para mim desde que estava ainda na escola secundária, quando cheguei à NBA com 18 anos, a vê-lo de perto, todas as batalhas que tivemos. Ambos partilhámos a mesma determinação e partilhámos a mesma vontade de ganhar, de sermos grandes. O resultado é que estou aqui, com a mensagem que quero continuar o seu legado não só esta temporada mas sempre que estiver a jogar basquetebol. Isso era o que quereria o Kobe. Nas palavras dele, “Mamba out“; nas nossas, nunca te esqueceremos, até sempre irmão”, concluiu LeBron.

O atual líder dos Lakers, antigo companheiro do 24 na seleção com quem travou muitos duelos quando jogava nos Cleveland Cavaliers e nos Miami Heat, tinha nos ténis a mensagem “Mamba 4 Life a caneta, a mesma frase que entretanto tatuou em homenagem ao amigo. Foi ele também que agarrou na primeira posse de bola, levou para o meio-campo contrário e deixou que passassem os 24.2 segundos – o dois em homenagem a Gianna, que de uma forma ou outra nunca foi esquecida ao longo de uma das noites mais longas e difíceis em Los Angeles.

No final do jogo, os Portland Trail Blazers ganharam por 127-119 com um Damian Lillard, aquele que um dia Kobe descreveu com “real deal“, a ter uma exibição enorme com 48 pontos – o que lhe permitiu assinar um recorde na NBA, somando 40 ou mais pontos em cinco jogos consecutivos. No entanto, e em relação aos visitantes, até deu mais nas vistas a ausência de Carmelo Anthony, jogador próximo de Kobe que pediu à equipa e aos companheiros para não fazer este encontro por não sentir condições para tal. Tudo porque, mais do que jogar ou estar, este era o jogo para homenagear o legado de Kobe Bryant, um dos melhores de sempre da NBA, do desporto e de muito mais.