“No vídeo de hoje vou fazer uma maquiagem bem rápida, prática, pra você que tá na correria, ou então pra você que vai ser estuprada caso tenha merecido”. O vídeo da atriz brasileira Maria Bopp tem pouco mais de 24 horas e, assim que chegou ao Instagram, não demorou muito até ficar conhecido como “o tutorial de maquiagem anti-Bolsonaro”. Viral? Sem dúvida. Só no perfil de Bopp, o vídeo, online há 21 horas, foi visto quase 140 mil vezes, reunindo 41.700 gostos.

Para a atriz de 28 anos, as dicas de maquilhagem eram, na verdade, um pretexto para abordar de uma forma mais ou menos dissimulada os escândalos do governo de Jair Bolsonaro, bem como os estereótipos sociais reforçados pelo pensamento conservador, das suspeitas de lavagem de dinheiro por detrás da loja de chocolates Kopenhagen à célebre frase: “Menino veste azul e menina veste rosa”.

Mas há mais: prender bem o cabelo antes de começar a maquilhar, “com convicção, mas sem provas”, não se preocupar com o desperdício de base ao aplicá-la com a mão “porque o importante é tirar o PT do poder” (além disso, a base é mesmo boa, cobre borbulhas, “escândalos de corrupção” e “a ligação com a milícia”) e ainda espalhar o corretor com o dedo “como espalha fake news no Whatsapp da família”.

A ironia da atriz, ali na pele da personagem “blogueirinha do fim do mundo”, conduz os quase quatro minutos do vídeo. “Tem problema se eu rir de nervoso?”, pergunta um dos seguidores na área de comentários. O texto foi preparado com antecedência para criar a analogia entre produtos de maquilhagem e episódios da administração Bolsonaro, mas Maria Bopp, atualmente conhecida por interpretar Bruna Surfistinha numa produção da Fox, está longe de ser a primeira a usar um tutorial de maquilhagem, ainda que sem grande aproveitamento nesse sentido, para passar mensagens políticas.

A norte-americana Feroza Aziz fez o mesmo em novembro do ano passado. “A primeira coisas que tens de fazer é pegar no revirador de pestanas”, começou por explicar durante os primeiros segundos do vídeo, partilhado na rede social TikTok. Mas rapidamente a adolescente de 17 anos partiu para um assunto completamente diferente. “Depois, vão pousar o revirador de pestanas e usar o vosso telemóvel para pesquisar o que se passa na China. Como eles estão a fazer campos de concentração, a atirar para lá muçulmanos inocentes, a separar famílias, a raptar pessoas, a assiná-las, a violá-las, a obrigá-las a comer carne de porco, a obrigá-las a beber, a obrigá-las a converterem-se”, continuou a jovem.

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Hi guys, I made a video about the situation in China with how the government is capturing the Uyghur Muslims and placing them into concentration camps. Once you enter these camps, you’re lucky if you get out. Innocent humans are being murdered, tortured, raped, receiving shock therapy, and so much more that I can’t even describe. They are holding a genocide against Muslims and they’re getting away with it. We need to spread awareness. I know it might sound useless, what can spreading awareness and talking about this even do? What are we supposed to do about it? We have our voices and technology to help us. Speak to those who can help! The UN failed to stop this genocide in the summer, we can’t let that happen again. We can’t be silent on another holocaust that is bound to happen. We can’t be another failed generation of “what could’ve, should’ve, would’ve”. We are strong people. We can do this. Only if we try #muslim #islam #tiktok #uyghurmuslims #china #freepalestine

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Em causa, estava o tratamento dado à minoria muçulmana Uyghur na China. O vídeo de Feroza Aziz, ela própria de origem muçulmana, tornou-se viral, embora a TikTok (onde quase atingiu 1,5 milhões de visualizações), aplicação desenvolvida por uma empresa chinesa, tenha bloqueado a conta da adolescente na sequência da publicação do falso tutorial. O vídeo continua disponível no Instagram e no Twitter (aí chegou rapidamente à marca dos 5 milhões de visualizações), onde Feroza partilhou outras mensagens nas semanas que se seguiram — chamando a atenção para as mulheres que são vítimas nos referidos campos de concentração, pedindo em forma de donativos feitos através das Nações Unidas e esclarecendo uma falsa notícia de que os muçulmanos não estariam a conseguir legalizar-se na Índia.

Foi a própria Aziz a denunciar o bloqueio da conta no TikTok. “Isto é uma prova de que a China está a usar o TikTok para não deixar que a verdade seja conhecida. A China está assustada”, afirmou a jovem norte-americana, ao mesmo tempo que identificou o Presidente Donald Trump e o desafiou para uma conversa.

Desigualdade de género, crise imobiliária, fascismo e outras dicas de beleza

Não obstante a pertinência dos argumentos políticos per se, há quem não se limite às intervenções desprovidas de qualquer aproveitamento na área da beleza. Porque não falar de política e, ao mesmo tempo, dar conselhos válidos a quem se interessa por maquilhagem? Afinal, por defeito, os canais da especialidade têm audiências colossais. E quando as questões políticas e sociais abordadas são, na verdade, problemas que podem bater à porta de qualquer um, estes vídeos ganham, de repente, um duplo interesse.

“Olá, Combabes. Bem-vindos ao meu canal! Hoje, vou mostrar-vos como fazer este visual clássico e ainda contar-vos porque é que o sistema imobiliário está completamente lixado”. Combabe Clem, o nome público de Clementine Boucher, arranca assim um dos seus vídeos mais populares. No canal de YouTube, esta vlogger de beleza começou há menos de um ano a seguir uma fórmula sagrada — enquanto exemplifica técnicas de auto-maquilhagem e testa novos produtos, partilha reflexões sobre questões políticas e sociais proeminentes.

Alguns exemplos: eye-liner para olhos encovados e racismo ambiental, olhos esfumados para principiantes, videojogos, futebol, sexo e fascismo ou maquilhagem sem base e dívidas da universidade. Ah, e sobrancelhas e o novo modelo de arrendamento, um tema bastante recorrente para esta francesa a viver no Reino Unido. “Quis criar um canal que desafiasse a ideia de que temos de esconder as coisas de que não gostamos, em vez de atacá-las na raiz. Enquanto os outros YouTubers de beleza oferecem soluções individuais, quero aproveitar essa mesma audiência massiva para falar de uma mudança feminista e estrutural”, explicou à Vice, numa entrevista publicada no último mês de outubro.

Em vários dos vídeos, Clementine conta com convidados, pessoas que maquilha e com quem dialoga sobre os temas sobre a mesa. “Alguns tópicos políticos são realmente difíceis, mas ao estar a maquilhar alguém ao mesmo tempo, quero relembrar de que somos apenas corpos e emoções a existir no mundo […] mesmo que as pessoas sejam especialistas, continuam a ter sentimentos. Não quero perpetuar a ideia masculina, patriarcal e capitalista de que, por estares a falar sobre um tema, tens de te distanciar dele”, afirmou ainda na mesma entrevista. Curiosamente, uma rápida ronda pela área de comentários mostra que os vídeos de Combabe Clem cativam sobretudo um público interessado nas reflexões políticas e sociais e não tanto a comunidade afeta à beleza e à cosmética.

Em outubro de 2017, Sailor J alcançou uma audiência maior — “Arranjar um Homem 101”, o primeiro vídeo do seu canal do YouTube soma mais de dois milhões de visualizações, enquanto o referido canal está à beira dos 500.000 seguidores. A produção de conteúdos pode ter abrandado, mas a primeira frase deste tutorial de estreia diz tudo: “Os homens não podem saber que usamos maquilhagem. Acabaria tudo, para todas”. O humor na forma de sarcasmo e a maquilhagem serviram-lhe de ferramentas para abordar questões como o feminismo, a igualdade racial e a justiça social.

Numa primeira impressão, o vídeo questiona os padrões de beleza que, pela via da generalização, se tornaram impositivos para as mulheres. Numa segunda análise, são as desigualdades de género que espreitam por detrás da ironia de Sailor J. “Vejo um rapaz no Facebook dizer algo do género: ‘Não gostamos de mulheres que usam maquilhagem muito pesada’. Então fiz o vídeo para trazê-los para a conversa. Acham que é tudo para eles […] Depois disso, tornou-se prioritário incluir comentários políticos no meio das piadas e da maquilhagem”, contou a autora do canal numa entrevista.

Em fevereiro de 2018, o mesmo rosto protagonizaria outro vídeo viral. “Pensamentos e Orações” foi uma reação ao massacre de Parkland, onde 17 pessoas perderam a vida numa escola. Sem qualquer produto de maquilhagem, Sailor J apenas os imaginou e inventou-lhes nomes. “Primeiro, vamos começar com um pouco de base. Chama-se ‘se fores branco é uma doença mental e se fores castanho és um terrorista. Se não percebes isso, é provável que não tenha um espírito suficientemente forte”.