“Jogo de futebol + insultos racistas”. Esta era uma conta que nunca tinha surgido nos exames semanais da Primeira Liga e do futebol português. A atitude de Marega, a abandonar o campo ao sentir-se “uma m****” naquilo que descreveu esta segunda-feira como “uma grande humilhação”, fez multiplicar uma onda de indignação um pouco por todo o mundo, somando apoios pela atitude enquanto se diminuem as possibilidades de atenuantes levantadas este domingo e se dividem as ideias de agir perante aquilo que aconteceu em Guimarães. E lá fora?

Existem mais ou menos casos por país num flagelo que é transversal a todas as ligas e continentes. O Observador foi procurar o que se passou nas cinco principais ligas europeias (Espanha, França, Itália, Inglaterra e Alemanha), a realidade dos outros campeonatos do continente e o que acontece lá fora para perceber em que ponto se encontra o binómio ação-reação. E há três grandes exemplos: 1) as ligas/países que atuam de imediato e que pedem aos adeptos mais comuns que denunciem às autoridades qualquer tipo de comportamento xenófobo e/ou racista; 2) as ligas/países que sabem há muito que convivem com esse flagelo mas que só agora estão a tomar medidas mais duras e concretas para inverter o problema; 3) as ligas/países que em termos internos têm tendência a desvalorizar os casos mas que, nos jogos europeus, vão acumulando sanções atrás de sanções por questões racistas.

Balotelli, Koulibaly, “Black Friday” e as câmaras dos stewards

O racismo no futebol, nos estádios e no desporto não é, infelizmente, novidade em Itália. Lilian Thuram, antigo internacional francês e jogador do Barcelona, já disse e repetiu em entrevistas que foi precisamente durante os cinco anos que passou no Parma que foi mais vezes discriminado e insultado. A Lazio, clube de Roma que está nesta altura no segundo lugar da Serie A a lutar pela conquista do título, tem-se tornado reincidente nestes casos e um dos emblemas mais castigados pelas entidades responsáveis devido a cânticos, insultos e tarjas racistas.

Não é, pelos piores motivos, caso único. Se o racismo nos estádios de futebol sempre foi uma realidade em Itália, a verdade é que a última temporada trouxe um aumento considerável de episódios infelizes – e, principalmente, um aumento da gravidade desses mesmos episódios. Mario Balotelli, avançado italiano que já passou por Manchester City, Liverpool e Marselha e está nesta altura no Brescia, é há vários anos um dos jogadores mais visados e maltratados em cenários de discriminação. No passado mês de novembro, protagonizou mesmo uma situação em tudo semelhante à de Marega: enquanto o Brescia perdia com o Hellas Verona, onde joga o português Miguel Veloso, o avançado ameaçou deixar o relvado por estar a ser insultado pelos adeptos nas bancadas.

Mario Balotelli, avançado italiano atualmente ao serviço do Brescia, tem sido uma das principais vozes ativas contra o racismo no futebol italiano

Acabou por permanecer em campo e já durante este mês de janeiro viu o Conselho de Disciplina da Liga Italiana aplicar uma multa de 20 mil euros à Lazio, devido aos insultos racistas que lhe foram dirigidos durante toda a primeira parte e que provocaram mesmo uma interrupção do jogo. A par de Balotelli, quem sido uma das vozes mais ativas em Itália contra o racismo, também Kalidou Koulibaly tem sido um dos alvos preferenciais do racismo vindo das bancadas dos estádios. Em dezembro de 2018, o AC Milan foi punido com dois jogos à porta fechada devido aos cânticos dirigidos ao central do Nápoles – que acabou expulso por acumulação, sendo que o segundo lhe foi atribuído por ter aplaudido com ironia a decisão do árbitro de lhe mostrar o primeiro. A suspensão de Koulibaly por um jogo, sanção habitual depois de uma expulsão, não foi revertida pela Liga italiana.

Também Romelu Lukaku, avançado belga que se mudou no verão passado do Manchester United para o Inter Milão, tem sido um dos jogadores mais assíduos em episódios racistas. Logo em setembro, a Liga italiana castigou o Cagliari pelos cânticos insultuosos dirigidos ao avançado: decisão que acabaria por ser revertida e que teve como ponto surreal o facto de os próprios adeptos do Inter terem defendido os apoiantes do Cagliari, sublinhando que as músicas entoadas nas bancadas nada mais são do que “formas de apoio”. Um comentário sobre o mesmo Lukaku provocou ainda o despedimento do jornalista Luciano Passirani, que aos microfones do canal TopCalcio24 disse que o belga só seria travado em campo se lhe dessem “dez bananas para comer” – um caso que serve para exemplificar que o racismo em Itália está longe de se restringir às bancadas dos estádios de futebol em dia de jogo.

Também o jornal Gazzetta dello Sport esteve no olho do furacão em dezembro, quando aproveitou a partida entre Inter e Roma para aprofundar o reencontro dos ex-colegas Lukaku e Smalling e atirar a manchete “Black Friday”, numa piada com o evento comercial que tinha lugar nessa sexta-feira. O jornal defendeu-se, os atletas mostraram-se chocados com a capa, os clubes reagiram em protesto. No final, em termos práticos, nada aconteceu.

Balotelli, Koulibaly e Lukaku à parte, a verdade é que também o Brescia, o Hellas Verona e a Atalanta já foram castigados esta época devido a episódios racistas. Em março do ano passado, o Comité Disciplinar da UEFA interditou parte do estádio da Lazio (assim como do Shakhtar Donetsk) depois de adeptos do clube de Roma terem feito saudações nazis durante um jogo contra o Sevilha. O exemplo mais recente de demonstração de força aconteceu apenas na passada sexta-feira, quando o Cagliari anunciou que baniu de forma permanente três adeptos identificados por insultos e cânticos racistas em jogos da Serie A. O combate ao racismo no futebol acaba por ter o seu apogeu precisamente em Itália, onde ainda este mês foi inaugurado um novo sistema de prevenção. No início do mês, num jogo entre a Juventus e o Hellas Verona, os stewards utilizaram pela primeira vez coletes equipados com pequenas câmaras, de forma a facilitar a identificação dos adeptos em causa.

A banana a Dani Alves, 12 identificados e o “estranho” caso do Rayo Vallecano

O recente caso a envolver Roman Zozulya num Rayo Vallecano-Albacete funcionou como despertador em Espanha para a eliminação de todos os atos racistas e xenófobos do futebol. Mais: o encontro, a contar para a Segunda Liga, foi interrompido ao intervalo, com os jogadores da formação visitante a recusarem entrar em campo na segunda parte por solidariedade com o companheiro ucraniano. “Zozulya és um nazi” ou “Fascistas fora de Vallecas” foram alguns dos cânticos que se ouviram ao longo de 45 minutos, numa relação azeda que já vinha desde janeiro de 2017 quando esteve para reforçar o Rayo por empréstimo do Betis mas a transferência ficou congelada no seguimento de uma manifestação dos adeptos locais. E porquê? Porque circularam fotografias do atleta a combater ao lado dos separatistas (munido de uma arma e tudo), algo que o jogador não desmentiu mas explicando que estava apenas a defender o seu país sem ser apoiante ou ter alguma ligação a movimentos paramilitares ou nazis.

A segunda parte foi recalendarizada para esta quarta-feira (à condição porque decorre um processo no Tribunal Arbitral do Desporto) mas nem por isso deixou de ficar uma “mancha” no futebol espanhol, naquela que foi a primeira ocasião em que um encontro das divisões profissionais esteve interrompido por estas razões. E logo com um clube que tem um jogador negro, Wilfred Agbonavbare, mais conhecido por Willy, como símbolo contra qualquer forma de racismo, depois do que aconteceu por mais do que uma vez nos jogos com o Real Madrid nos anos 90 em que se gritava “Ku Klux Klan” nas bancadas entre outros cânticos com “vai apanhar algodão”, como conta uma reportagem do El País que mostra como se trata de um problema existente há décadas.

Daí se depreende que não foi caso isolado. Longe disso. Diferença? Nos últimos tempos a reação é célere. No mês passado, os 12 adeptos do Espanyol que fizeram sons de um macaco a Iñaki Williams, do Athl. Bilbao, foram identificados, correm o risco de ser expulsos e decorre um processo que pode levar ao encerramento de parte da bancada; antes, em 2014, quando adeptos do Villarreal atiraram uma banana ao brasileiro Dani Alves do Barcelona (que agarrou na fruta e começou a comer, sob forma de “protesto”), o clube foi punido só com multa pecuniária (12.000 euros). Neymar ou Eto’o também foram vítimas de racismo, havendo mesmo a ameaça do camaronês em deixar um jogo com Saragoça. Os cânticos racistas contra o guarda-redes Kameni, do Espanyol, a quem foi atirada uma banana num jogo fora valeram em 2005 uma multa de 6.000 euros ao Atl. Madrid. Quando esses atos foram em jogos das provas europeias, os castigos foram diferentes e o Real Madrid viu dois setores do estádio fechados por insultos racistas no jogo da Liga dos Campeões com o Bayern, na temporada de 2013/14.

A seleção duas décadas depois e a bancada fechada do Bastia

Em 1998, no Campeonato do Mundo, a seleção francesa deu uma lição de multiculturalidade ao futebol em particular e ao mundo no geral. A equipa gaulesa, que conquistou em Paris o primeiro Mundial da própria história, tornou-se a mais poderosa seleção do mundo com vários jogadores que tinham nascido fora do território francês ou cujos pais eram imigrantes no país. Exatamente 20 anos depois, em 2018, a mesma seleção francesa tornou-se novamente campeã do mundo – com a mesma mistura de raças, origens, culturas e cores de pele que duas décadas antes tinha inspirado toda a gente.

O problema foi que a inspiração, a mudança e a quase revolução causada pela seleção de Desailly, Zidane e Vieira parece ter sofrido uma erosão nesse período de 20 anos. Depois da final da Rússia, onde Mbappé, Griezmann e companhia venceram sem grandes dúvidas a Croácia, várias vozes surgiram na opinião pública francesa para referir que a seleção orientada por Didier Deschamps não “representava” França. Isto porque a maioria dos jogadores convocados tinha nascido ou era originária de países africanos. De 1998 para 2018, de Zidane para Griezmann, algo mudou – algo retrocedeu. E isso teve também impacto na Ligue 1, a principal liga francesa.

Em 2018, a multiculturalidade da seleção francesa que conquistou o Campeonato do Mundo acabou por sofrer críticas por parte de alguns adeptos

Por incrível que pareça, a verdade é que Balotelli é novamente um nome a assinalar quando se fala de racismo em França. No início de 2018, a Liga francesa de futebol chegou a investigar um jogo entre o Nice, onde o avançado italiano jogava, e o Dijon. Na altura, Balotelli foi sancionado com um cartão amarelo depois de ter protestado com os adeptos adversários, que o estavam a insultar, mas o caso acabou por não ter repercussões disciplinares. Um ano antes, já ao serviço do Nice, o italiano já se tinha queixado de uma situação semelhante contra o Bastia – mas aí, a Liga francesa concluiu a investigação com a aplicação do encerramento de parte das bancadas durante três jogos, para além da pena suspensa da perda de um ponto na classificação.

Nesse mesmo ano, em agosto, o Lyon foi castigado pela UEFA com dois jogos europeus à porta fechada e 100 mil euros de multa, depois de os adeptos do clube francês terem entoado cânticos e insultos racistas contra os jogadores do CSKA durante uma partida da Liga Europa. Já em 2019, em abril, um jogo entre o Dijon e o Amiens chegou a estar interrompido porque os jogadores pararam de correr em formato de protesto: em causa estavam os insultos dirigidos a Prince Gouano, defesa do Amiens, por parte dos adeptos adversários.

Suárez, Bernardo, a Kick It Out e o aumento das ocorrências

Em 2011, Luis Suárez, avançado hoje no Barcelona que representava o Liverpool, teve comentários de índole racista contra Patrice Evra, lateral do Manchester United. Foi aberto um inquérito pela Federação Inglesa e o uruguaio levou uma das sanções mais pesadas de sempre da Premier League: oito jogos de castigo. Já Ron Atkinson, antigo treinador do Manchester United que se tornara comentador, referiu-se ao internacional francês Marcel Desailly como um “negro preguiçoso” e não só foi afastado da ITV como viu o The Guardian acabar com a sua coluna de opinião. Há muito que Inglaterra atua com mão pesada nos casos de racismo mas só isso parece não chegar: os números da Administração Interna e da própria competição mostram um aumento de ocorrências. Por isso, foi a própria Premier League a pedir não só aos clubes mas também aos próprios adeptos para passarem a denunciar através da prova ou da organização Kick It Out qualquer comportamento racista dentro e fora dos estádios.

Em dezembro deste ano, quando Fred tentava marcar um canto num dérbi de Manchester entre City e United, um homem foi apanhado nas câmaras a fazer gestos racistas e detido no dia seguinte ao encontro, com os citizens a pedirem uma proibição vitalícia para o adepto da sua equipa. Em 2018, um adepto do Bournemouth foi condenado a cinco anos sem acesso a recintos desportivos e uma proibição vitalícia nos jogos com o Manchester City após ter admitido ofensas racistas a Raheem Sterling. Nesse mesmo ano, um adepto do Tottenham também foi condenado a quatro anos de interdição por ter atirado uma casca de banana ao avançado do rival Arsenal Pierre-Emerick Aubameyang. E no ano anterior houve mesmo um homem condenado a 16 semanas de prisão por ofensas racistas a Sterling antes do encontro com o Tottenham. Tudo de forma célere e à luz das leis existentes no país.

O caso mais “extremo”, que até foi criticado exatamente por ter sido demasiado rigoroso mas que mostra bem a luta que está a ser travada pela Federação Inglesa, envolveu o português Bernardo Silva e um tweet onde brincou com o companheiro (e um dos melhores amigos) Mendy, por causa da imagem do boneco da marca de chocolates Conguitos. Mesmo com o próprio lateral francês a defender o internacional do Manchester City, o esquerdino foi sancionado com um jogo de suspensão e uma multa de quase 60 mil euros por causa do impacto público da partilha que fez nas redes sociais, mesmo assumindo que não existia essa vontade de ofender Mendy.

Özil, Torunarigha e uma ameaça de exclusão da prova

“Com dor no coração e depois de pensar muito sobre os acontecimentos recentes, não vou continuar a jogar na seleção da Alemanha, por ter sentido racismo e falta de respeito. Vesti a camisola da Alemanha com orgulho e emoção, mas agora já não (…) Quando altos cargos da Federação me trataram como trataram, com falta de respeito pelas minhas raízes turcas, e me acusaram injustamente de propaganda política, então chega (…) Nasci e fui educado na Alemanha. Porque é que há gente que continua sem aceitar que sou alemão? Sou alemão quando vencemos e um imigrante quando perdemos”. As frases, duras, pertencem a Mesut Özil, jogador do Arsenal que representou a seleção alemã de 2009 a 2018 e foi campeão do mundo no Rio de Janeiro, em 2014. Há dois anos, Özil decidiu anunciar o fim da carreira internacional – não por terminar a carreira, não por estar perto disso, mas por não se sentir respeitado no interior da seleção.

O caso do médio ex-Real Madrid, que tem raízes turcas e é amigo pessoal do presidente Recep Tayyip Erdoğan, serve para explicar que os principais casos de racismo e de discriminação surgem na própria seleção – onde jogadores como o próprio Özil, o defesa Jérôme Boateng, Gündoğan ou Emre Can têm sofrido nos últimos anos com comentários que parecem colocá-los à margem dos restantes elementos orientados por Joachim Löw. No início deste mês, porém, o Schalke 04 foi multado em 50 mil euros devido a insultos racistas dirigidos a Jordan Torunarigha, jogador do Hertha Berlim, durante um jogo dos oitavos de final da Taça da Alemanha.

Nessa partida – e tal como na maioria dos casos semelhantes –, Torunarigha acabou expulso devido à forma como reagiu aos cânticos vindos das bancadas. O castigo aplicado pela Federação Alemã de Futebol (que explicou que 16 dos 50 mil euros totais seriam utilizados diretamente na luta contra o racismo e a discriminação) foi criticado por ter sido demasiado brando: ainda que o organismo tenha acrescentado que, em caso de reincidência, a pena seria mais pesada e poderia chegar “à exclusão da prova”.

Boateng (à direita), defesa do Bayern Munique e da seleção alemã, foi um dos últimos jogadores do país a pedir castigos mais pesados para episódios de racismo

“Atingiu-me. E dói. Infelizmente, não é sempre possível localizar a origem dos insultos e também não queremos dar-lhes o gostinho de perceberem que nos afeta. Mas não é algo agradável de ouvir. Precisamos, nestes casos, de ajuda dos adeptos que estão ao lado, que identifiquem os autores. É uma sensação muito desagradável. Faz-me pensar no futuro, eu tenho filhos na Alemanha, achava que tínhamos superado esse ponto. Mas, infelizmente, demos um passo atrás, algo que é doloroso para muita gente”, comentou na altura Jérôme Boateng, que tem pai ganês e cujo irmão, Kevin-Prince Boateng, representa a seleção do Gana. O pedido de Boateng, de que os adeptos circundantes tomassem a responsabilidade de criticar os insultos, foi respeitado já na passada sexta-feira, num jogo da terceira liga alemã. Alguns apoiantes do Münster entoaram cânticos racistas contra Leroy Kwadwo, um defesa alemão de origem ganesa do Würzburger Kickers: em resposta, os adeptos adversários e uma franja de apoio ao Münster uniram-se para gritar “fora, nazis”, sobrepondo-se dessa forma aos insultos ao jogador.

Dois pesos e duas medidas no resto da Europa (que muda com a UEFA)

Os cânticos racistas e as saudações nazis de um grupo claramente assumido nas bancadas durante o Bulgária-Inglaterra de qualificação para o Campeonato da Europa, no final de outubro, que motivou um castigo de dois jogos à porta fechada e uma multa de 85.000 euros à Federação Búlgara de Futebol, é exemplo paradigmático de um problema crescente fora das cinco principais ligas europeias, até por ser um caso surgido pouco mais de uma semana depois de um Sérvia-Portugal que levou os visitados a serem multados em 33.250 euros e um encontro sem adeptos por manifestações racistas, neste caso até mais percecionadas por telemóveis nas bancadas. Um mês antes, Roménia, Hungria e Eslováquia também receberam as mesmas punições de uma partida à porta fechada.

Em termos de ligas locais, não são muitos os casos em que uma equipa é punida por manifestações racistas (sendo que em muitos casos os problemas até se centram mais na xenofobia e em questões políticas). Da Ucrânia veio uma dessas “exceções”, o Dínamo de Kiev a ser castigado com um jogo à porta fechada e cerca de 20.000 euros de multa por insultos racistas ao brasileiro Taison, do rival Shakhtar, que saiu em lágrimas e a chutar a bola para a bancada após ter sido expulso. Quando os encontros se realizam nas provas europeias, aí o caso muda de figura e basta recordar que, no ano passado, Kostiantyn Makhnovskyi, ucraniano que atua no Ventspils, foi sancionado com dez jogos de castigo após terem ficado provados os insultos racistas ao senegalês Samb Amadou, do Gzira.

Nas últimas épocas, e ainda atentando nos encontros sob a tutela da UEFA a contar para rondas de qualificação para a Liga dos Campeões e para a Liga Europa, são várias as equipas que foram sancionadas com encontros sem adeptos nos seus estádios, casos de Steaua de Bucareste (Roménia), Maribor (Eslovénia), Partizan de Belgrado (Sérvia), Chikhura Sachkhere (Geórgia) ou Debrecen (Húngria), entre outros.

A exclusão do Grémio, o exemplo japonês e as desculpas do governo chileno

Em 2014, há seis anos, o Brasil deu o exemplo. Na altura, depois de os adeptos terem proferido insultos racistas ao guarda-redes Aranha, do Santos, o Grémio de Porto Alegre foi excluído da Taça do Brasil por decisão do Superior Tribunal de Justiça. Numa decisão totalmente inédita no futebol brasileiro, o clube na altura orientado por Luiz Felipe Scolari foi ainda multado no valor de 50 mil reais (algo como 11 mil euros) e os adeptos identificados foram impedidos de entrar em recintos desportivos durante 720 dias. Além disso, também a equipa de arbitragem foi multada e suspensa, neste caso por não ter descrito o que se passou no relatório de jogo.

A demonstração de força da justiça brasileira dificilmente encontra paralelo no resto do mundo. No Japão, os Urawa Red Diamonds foram sancionados com um jogo à porta fechada em 2014, depois de os respetivos adeptos terem mostrado tarjas racistas nas partidas anteriores. Na Argentina, em 2005, um jogador do Quilmes chegou a ser detido por insultar Grafite, um jogador negro – o caso acabou por não ter conclusão depois de Grafite decidir não apresentar uma queixa formal quanto ao episódio em questão. No Chile, Emilio Rentería saiu a chorar de um jogo do Campeonato chileno depois de ser insultado no seguimento de um golo; o avançado venezuelano recebeu um pedido de desculpas formal do governo do país sul-americano mas o caso não teve qualquer repercussão legal, com Rentería a abandonar o San Marcos de Arica no final desse ano.