A peça chama-se “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” e tem estreia marcada para 4 de junho no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Inicialmente, no site do teatro público, um texto que resumia a peça, entretanto substituído, referia-se ao polémico juiz Neto de Moura. No texto, que esta segunda-feira à tarde, 17 de fevereiro, ainda aparecia na descrição oficial do espetáculo na página de venda de bilhetes da Fnac, lia-se que este pretendia “usar o teatro para ensaiar a vida” e que esta seria “a história de um rapto”. Um rapto de quem? De “um juiz português com um polémico historial de decisões a favor de homens que agridem mulheres”, que na peça “é raptado por um grupo de atrizes e atores. O rapto é ficcional, mas o juiz existe mesmo”. Ei-lo nomeado, com todas as letras: “Chama-se Neto de Moura”.

No texto que fazia referência a este “rapto” por atores e atrizes de que a peça supostamente se iria alimentar, lia-se também: “Não estamos a contar uma história que mistura realidade e ficção. Estamos a ensaiar o verdadeiro rapto que poderá ser levado a cabo depois de o termos imaginado no teatro. Em palco, Neto de Moura é interpretado por um ator, mas tudo o que vemos poderá acontecer ao verdadeiro Neto de Moura. Ou seja, o rapto é ficcional, mas apenas por agora”.

Trata-se de uma mensagem provocatória subversiva, mero exercício imaginativo e irónico, ou uma ameaça velada e um incitamento a um crime? Nas redes sociais, alguns utilizadores, apercebendo-se do teor do texto, criticaram-no. Em dezembro, em entrevista ao Observador, o autor do texto e encenador de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, que é também diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II e recém-vencedor do Prémio Pessoa, Tiago Rodrigues, apontava ao Observador que não se poderia dizer que o juiz Neto de Moura o tivesse inspirado, mas admitia que fora “um impulso” para a escrita.

“É uma ideia que começa a partir de uma polémica pública. Os acórdãos do juiz (…) são um sintoma de como a influência de um patriarcado machista na nossa sociedade pode ser também institucional (…) A ideia é tentar misturar também outras figuras relativamente controversas da sociedade portuguesa. (…) Há vários nomes que poderiam ser interessantes nesta fricção entre real e ficção. O que me interessa neste espetáculo é ter uma família ficcional, feita de personagens ficcionais e interpretadas por atores, a confrontar-se com fenómenos da nossa sociedade que são encarnados por figuras que conseguimos reconhecer dos jornais, dos telejornais, da rádio. Neto de Moura é um deles”.

Nessa altura, o texto que sugeria um rapto “ficcional, mas apenas por agora” ainda não era tema de discussão nas redes sociais mas Tiago Rodrigues já admitia que a peça tinha “potencial de polémica”, embora defendesse que “a coisa mais importante não é a polémica, mas a qualidade do espetáculo e a reflexão a que possa levar. Aliás, não sei ainda se Neto de Moura, apesar da sinopse, acabará por estar nesta peça”. Ia mais longe e deixava algumas salvaguardas: “Posso garantir que não vou caluniar, não vou apelar à violência, não vou desculpar a violência e vou ter mais cuidado a escrever a peça do que Neto de Moura teve a escrever os acórdãos”.

Tiago Rodrigues ao Observador: “A iniciativa de alterar o texto foi minha. Este é mais adequado”

Questionado pelo Observador esta sexta-feira, o encenador e autor do texto da peça começou por confirmar que a primeira sinopse da peça, entretanto substituída, esteve de facto no site oficial do teatro. “Foi alterada por volta de 20, 21 de janeiro e está em vias de ser alterada em outras plataformas, que a partir do site do Teatro Nacional D. Maria II ou informação que divulgamos fazem a sua divulgação”, acrescentou Tiago Rodrigues. O facto da primeira sinopse ainda persistir em sites de vendas de bilhetes é assim explicado: “Desde que decidimos alterar a sinopse, temos estado no processo de, junto de parceiros e das plataformas de venda bilhetes, alterar para esta situação” de mudança.

Vincando que o primeiro texto de síntese da peça foi “de sua autoria”, o encenador acrescentou que “este segundo texto, que está agora no site do Teatro Nacional D. Maria II e que continuará a ser pelo menos para já o texto que vamos veicular, também é de minha autoria. Cabe-me, nas qualidades de autor do texto do espetáculo e de encenador do espetáculo, fornecer ao teatro informações sobre a peça”.

A iniciativa de alterar o texto foi minha, este texto é mais adequado às ideias do espetáculo. Não houve nem há qualquer espécie de pressão externa: aliás, queria deixar claro que no meu exercício de direção artística do Teatro Nacional D. Maria II nunca sofri qualquer espécie de pressão ou tentativa de influência de forma alguma que condicionasse a minha liberdade artística”, apontou.

Também fonte oficial do gabinete da ministra da Cultura, Graça Fonseca, confirmou ao Observador que não teve qualquer intervenção na alteração da sinopse da peça do teatro público e preferiu não se pronunciar sobre o conteúdo do primeiro texto: “O Ministério da Cultura não teve nem tem que ter conhecimento deste tipo de questões, uma vez que se inserem no âmbito das funções do diretor artístico”, referiu apenas.

O primeiro texto de Tiago Rodrigues, com maior potencial de polémica, “era o texto de abertura de um dossiê mais alargado escrito em maio de 2019, que dava a conhecer o espetáculo e as ideias do espetáculo a teatros e festivais nacionais e internacionais que o vão apresentar, ou seja, a parceiros do Teatro Nacional D. Maria II”. Essa primeira versão era “um texto muito prévio” e, disse ainda Tiago Rodrigues, “à medida que o tempo foi passando, entre maio do ano passado e agora, as ideias acerca do espetáculo foram evoluindo. Pareceu-me importante alterar a sinopse para atualizar a informação do espetáculo. Perguntaram-me, na altura da preparação do programa trimestral [primeiro trimestre de 2020] se queria manter ou alterar a sinopse. Decidi alterar”.

Tiago Rodrigues numa das janelas do Teatro Nacional D. Maria II (@ FILIPE AMORIM/OBSERVADOR)

Os motivos para substituir por completo a sinopse foram dois, referiu o mais recente vencedor do Prémio Pessoa. Por um lado, entendeu que a primeira versão já não apresentava fielmente aquilo que seria a peça. Por outro lado, “embora escrita no contexto artístico, com ironia”, o que entende ser importante ter em conta, esta primeira versão “é um texto que, reconheci eu, se for amplificado num contexto jornalístico pode não ser lido com a ironia com que o escrevi enquanto autor“. Também por isso, sublinha, nas entrevistas que deu em dezembro passado, ao Observador e ao Correio da Manhã, esforçou-se por “deixar bem claro que tanto o espetáculo como o material associado a este espetáculo, se está numa zona complexa de mistura de realidade com ficção, teria sempre toda a cautela para não pisar limites de legalidade e de civismo”.

O texto anterior, independentemente de ser passível de críticas, foi escrito recorrendo muitas vezes à ironia. Obviamente, não tem qualquer objetivo de apelar a qualquer espécie de conduta que não seja legal ou cívica“, garante. E acrescenta: “Percebo que o primeiro texto possa ser tomado demasiado à letra e que possa ser complicado defender que é um texto irónico. A ironia também é uma figura de estilo acessível aos jornalistas e à imprensa. No entanto, reconheço que era um texto que podia levar a leituras erróneas e também já não se adequava à evolução do espetáculo”.

Sindicato dos juízes discorda: “Aquilo é bullying” e “apologia de atos violentos”

Quem discorda do encenador e autor do texto da peça, é a Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Ao Observador, o seu presidente, Manuel Ramos Soares, teceu fortes críticas à primeira sinopse da peça, que não chegou a ler no site do teatro lisboeta mas que encontrou “já difundida na internet”.

Para o porta-voz sindical dos juízes, “aquilo está a muitos anos luz da liberdade de criação e expressão artística. Aquilo é bullying. Não sei se o autor atuou intencionalmente ou não, mas aquilo parece um convite para alguém atuar com violência sobre outra pessoa”.

Manuel Ramos Soares mostrou-se preocupado e afirmou: “Se amanhã um tresloucado qualquer fizer alguma coisa, levar aquilo a sério, sempre quero ver o que é que o teatro e as pessoas responsáveis pelo teatro vão dizer”.

Considerando o teor da primeira sinopse mesmo “inadmissível”, defendeu que “a capa da expressão artística” não pode servir para encobrir “a apologia pública de atos violentos” que lê na primeira versão da apresentação da peça. E acescentou, já sobre o juiz que surgia nomeado na primeira sinopse, que Neto de Moura “sofreu uma censura social muito intensa — não quero dizer que bem ou mal, já lá vai. Se errou, já pagou por isso. Não é preciso pendurar o homem pelo pescoço e pelo colarinho. Isto parece um absurdo completo e custa-me a crer que um teatro que recebe dinheiros públicos faça uma coisa assim”.

Um novo texto diferente e “mais cuidadoso” e a defesa da honra: “Nunca iria fazer qualquer apelo à violência”

A nova sinopse, já presente no site oficial do teatro, é bastante diferente da primeira. Desde logo, não tem qualquer referência ao juiz Neto de Moura. O novo texto fala de uma família que “mata fascistas”, uma “tradição com mais de 70 anos”. Até aparecer um elemento mais jovem, Catarina, que “vai matar o seu primeiro fascista, raptado de propósito para o efeito”, mas “é incapaz de matar ou recusa-se a fazê-lo”. É aí que surge um conflito familiar que motiva várias perguntas, como “o que é um fascista?”, “há lugar para a violência na luta por um mundo melhor?” e “podemos violar as regras da democracia para melhor a defender?”.

Este novo texto, reiterou Tiago Rodrigues, “não deixa de recorrer à ironia, mas é mais cuidadoso em imaginar que eventualmente, se retirado de um site de um teatro e colocado num outro contexto poderia não ser lido como sendo irónico”. O autor, contudo, mantém a defesa de que a primeira versão da sinopse não deveria nunca ser lida como apologia de qualquer ato de violência: “Tenho 20 anos de carreira, um percurso como artista e nunca iria fazer qualquer apelo à violência. Qualquer pessoa com o mínimo de atenção em relação ao que o primeiro texto divulgava percebia que não havia qualquer espécie de má fé. Nunca deveria ser lido com outra intenção que não a puramente artística”.

O escritor, encenador e mais recente vencedor do Prémio Pessoa, Tiago Rodrigues, no Teatro Nacional D. Maria II, de que é diretor artístico (@ FILIPE AMORIM/OBSERVADOR)

A peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, prometeu ainda o seu autor, pretende “discutir a questão da violência nas nossas sociedades”, da “violência de linguagem” à “representação da violência”. A escolha do tema e abordagem poderá não ser consensual, mas o encenador defende que “o teatro deve ter a liberdade de abordar temas delicados. Isso implica riscos e cautelas e é importante para nós que aquilo que é um discurso que queremos desenvolver com este espetáculo não seja confundido com um desejo de provocação e polémica a todo custo”.

Porém, se a polémica não deve ser procurada a todo o custo, “o receio da polémica não deve impedir-nos de abordarmos temas que achamos importante abordar com liberdade artística. Temas como a violência no contexto político mas também no contexto íntimo. Esta será a história de uma família que está reticente em seguir uma tradição, em que há quem recuse a possibilidade de cometer um crime e ser violenta. É um ponto de partida fantasista mas que coloca questões relevantes. Não consigo ainda responder se Joaquim Neto de Moura será representado como personagem nesta ficção, se outras figuras e personalidades públicas poderão ser nomeadas e representadas. Escrevo em colaboração com atores e equipa artística e os ensaios ainda não começaram”, rematou.