Tudo começou na mente de Duarte Torres, professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) que depois de tirar o doutoramento na Universidade do Minho na área da tecnologia alimentar se especializou no desenvolvimento industrial destes produtos.

“Um dos projetos em que estive envolvido recentemente foi no inquérito alimentar nacional, um estudo populacional que mostra como são o consumo e os hábitos alimentares dos portugueses. Este tipo de informação não existia no nosso país desde 1980, ou seja, não sabíamos muito bem o que andávamos a comer. Foi aí que percebemos que o consumo de leguminosas estava bastante abaixo daquilo que é recomendado para a população portuguesa”, explica em entrevista ao Observador.

Assim, em 2015, surgiu a ideia de explorar o potencial das leguminosas num snack. Duarte Torres juntou-se a quatro estudantes e investigadores da FCNAUP – Márcia Gonçalves, Gonçalo Barreto dos Santos e Débora Teixeira – para juntos desenvolverem os primeiros testes.

“Em grandes países densamente habitados, como a China ou a Índia, a procura de proteína animal está a aumentar de forma muito acelerada e isso trará alguns constrangimentos na oferta, nos preços e até em termos ambientais. Muitos vegetais têm uma fonte de proteína muito interessante e não são valorizados. A ideia foi usar uma fonte proteica vegetal para produzir algo que fosse consumido de uma forma prática, simples e conveniente”, sublinha Duarte Torres.

“Foi fácil chegar à conclusão de que valeria a pena criar uma empresa e investir”, disse o fundador

Inicialmente, a equipa pensou em incorporar as leguminosas num pão ou em bebidas, mas acabou por concretizar a intenção num produto seco, sem grandes necessidades de conservação e com um prazo de validade que pode ir até um ano. O processo laboratorial, que nunca está concluído uma vez que o produto pode ser sempre melhorado, durou dois anos e passou à fase seguinte: investir.

“Encontrar investidores foi um caminho que demorou muito tempo, teve muito avanços e recuos”, recorda Duarte Torres. A viagem começou quando reencontrou Alexandre Santos, seu antigo aluno e atualmente CEO da empresa. “Ele acabou por seguir gestão e trabalhar na avaliação da viabilidade de projetos de investimento. Cruzámo-nos num fórum, mostrei-lhe esta ideia e ele ficou muito entusiasmado. Foi fácil chegar à conclusão que valeria a pena criar uma empresa e investir.”

Depois de estudar gestão, Alexandre Santos ficou ligado à área científica e ao investimento, tendo passado pela Portugal Ventures. Quando teve contacto pela primeira vez com a ideia de Duarte, teve a certeza de que se tratava “de uma oportunidade muito madura” que deveria ser aproveitada. “Todos sabemos que hoje as pessoas têm cada vez menos tempo para preparar as suas refeições, mas estão cada vez estão mais preocupadas com a saúde. Poder usar um ingrediente como as leguminosas e transformá-lo num produto interessante, que não existia, foi um desafio”, recorda em entrevista ao Observador.

A primeira tranche de investimento foi conseguida com a ajuda de familiares e amigos

A marca foi registada em 2017 e, sem adiantar números, Duarte Torres afirma que a primeira tranche de investimento foi conseguida com a ajuda de familiares e amigos, já a segunda ronda contou com a mão de outros investidores. Hoje a Snoods Foods tem oito sócios e uma fábrica no Porto responsável pela produção dos Bean’Go, a primeira marca desta startup.

100% natural, feito no forno e sem glúten

A confeção dos seis snacks disponíveis segue processos já utilizados por outras indústrias. “Nenhuma das operações tecnológicas são novidade, apenas associamos uma série de processos que nos permite obter uma massa com farinha feita de leguminosas”, explica Duarte Torres.

Ao contrário das massas feitas com uma base de farinha de trigo, esta tem características especiais, muito menos elasticidade, não tem glúten e apresenta desafios tecnológicos diferentes para se conseguir um produto leve, crocante e saciante. “Depois de amassada, levamos o preparado a uma espécie de batedeira. A massa é depois estendida e laminada em forma de uma pequena película, sendo depois cozida no forno durante muito pouco tempo”, descreve o investigador, acrescentando que após a cozedura são adicionados temperos em pó e azeite.

Ervilha, feijão vermelho e grão de bico são as três bases disponíveis, mas no futuro o objetivo passa por explorar outras leguminosas como o feijão preto ou a lentilha. “As fontes de proteína animal não nos suscitam tanto interesse. As leguminosas têm um potencial muito grande e sentimos que não estamos a aproveitar este recurso, nem em termos agrícolas nem em termos alimentares. O nosso foco é este e ainda há muita coisa a fazer.”

O empreendedor espera que em breve os snacks estejam nas máquinas de venda de comida nas escolas e no Serviço Nacional de Saúde

Próximas paragens: escolas, hospitais e Europa

Para Alexandre Santos, CEO da Snood Foods, o Bean’Go é um produto bastante democrático e versátil, consumido “pelo pai que o acompanha com uma cerveja a ver o futebol e pelo filho que o leva para a escola como lanche”. Atualmente podemos encontrar estes snacks nas 50 maiores lojas do Pingo Doce, a 1,39€ cada caixa. “Até ao momento vendemos cerca de 50 mil pacotes, mas temos instalada capacidade para cerca de 100 mil pacotes por mês”, adianta o responsável.

No entanto, o grande retalho não é o único foco da Snood Foods, que em breve espera entrar nas máquinas de venda de comida nas escolas e no Serviço Nacional de Saúde. Para já, a prioridade não passa pela venda online, mas por internacionalizar a marca. “Interessa-nos o mercado espanhol, por uma questão e de proximidade e logística, e depois a França, a Alemanha e o Reino Unido, onde uma grande parte da população se preocupa com a saúde e está aberta a este tipo de produto.”