12 de março. No dia 12 de março, uma quinta-feira, jogaram-se algumas das primeiras mãos dos oitavos de final da Liga Europa. A sensação já não era de normalidade: tanto o Inter-Getafe como o Sevilha-Roma tinham sido suspensos, pela situação que já se vivia na altura em Itália e pelo início da transmissão comunitária em Espanha. Ainda assim, naquela quinta-feira, disputaram-se seis jogos. Os últimos seis jogos até este fim de semana. Nos dias seguintes, a Primeira Liga, a Liga espanhola, a Serie A, a Bundesliga, a Premier League e praticamente todos os campeonatos europeus foram suspensos.

Este sábado, mais de dois longos meses depois, o grande futebol vai voltar. Este sábado, mais de dois meses depois, a Bundesliga vai regressar, o futebol europeu vai regressar e uma das principais ligas da Europa vai regressar. E num texto escrito para o site The Players’ Tribune, Serge Gnabry resumiu o que todos os adeptos de futebol do mundo sentiram durante estes dois meses: a ausência da coisa mais importante das menos importantes da vida. Numa altura em que as preocupações menores desapareceram, em que o fulcral e o crucial se tornou o mais básico — viver, sobreviver, cuidar de nós e dos outros –, ter saudades do futebol parecia fútil. E provavelmente era. Mas, e se tudo correr bem, esse sentimento termina este sábado. E volta a coisa mais essencial das mais banais do mundo.

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No texto, Gnabry recorda o período em que se lesionou, ainda jovem e ao serviço do Arsenal, e como se recordou frequentemente dessa fase inicial da carreira durante estes dois meses de isolamento. “Quando és um jogador de futebol, tudo o queres fazer é jogar. Talvez as pessoas não entendam o quão profundamente o sentimos. Quando não podemos jogar, é como se o tempo congelasse. Na verdade, nestes últimos dois meses de quarentena tenho tido vários flashbacks. Lutar contra tudo, como eu fiz, assinar pelo Bayern Munique, corresponder sob tanta pressão para ganhar, jogar na Liga dos Campeões… estás no topo do mundo e de repente… Poof. Foi-se”, escreveu o internacional alemão. O avançado de 24 anos detalha ainda as “surreais” sessões de treino em conjunto com o restante plantel, por vídeoconferência, e os momentos em que se apanhava a questionar-se internamente se tudo era verdadeiro e se era realmente jogador do maior clube alemão.

O jogador do Bayern, que antes da interrupção forçada e depois de dois empréstimos ao Hoffenheim estava a viver a melhor temporada da carreira, recordou também o momento em que chegou ao Arsenal, com apenas 16 anos, e conheceu Arsène Wenger. “Entrei no escritório dele com a minha mãe e o meu pai e ele disse algo simples como: ‘Benvindo, Serge, como estás?’. E lembro-me de não conseguir parar de sorrir. Tipo quando estás a pensar, na tua cabeça, ‘meu, pára de sorrir, por favor, pára de sorrir, está a tornar-se embaraçoso. Mas eu não conseguia. Os meus joelhos estavam a tremer. Não devo ter dito mais de 10 palavras durante a reunião toda. Só pensava: ‘Meu Deus, o Arsène Wenger sabe mesmo o meu nome'”, conta o avançado, que chegou a estrear-se na equipa principal do Arsenal, foi emprestado ao West Bromwich depois de uma lesão e acabou em seguida por regressar à Alemanha.

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Gnabry aborda também o facto de ser filho de mãe alemã e de pai costa-marfinense e de os pais sempre lhe terem dito que tinha de se esforçar mais do que os outros devido à cor da pele — ainda que ele, pessoalmente, nunca tenha sentido qualquer tipo de diferenciação. “Diziam-me isso tantas vezes que me cansei de o ouvir, honestamente. Vivíamos numa cidade pequena nos arredores de Estugarda e eu não tive qualquer experiência direta de racismo enquanto crescia. É óbvio que era um bocadinho diferente da maioria dos outros miúdos na escola, mas não me sentia diferente”, conta o jovem jogador.

O alemão fala ainda do deslumbramento que sentiu ao conhecer jogadores como Özil, ainda no Arsenal, e como os pais tiveram de o alertar para a quantidade elevada de dinheiro que estava a gastar em compras desnecessárias durante os primeiros meses em Londres. No final do texto, Gnabry volta a colocar-se no papel de um adepto de futebol e explica a importância que “um jogo” tem quando se estão a passar “tantas coisas sérias no mundo”.

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“É um jogo que aproxima as pessoas. Não podes sentir-te muito mal quando tens a bola nos pés, não interessa onde estás. Ainda me lembro da primeira vez que visitei a família do meu pai na Costa do Marfim, quando tinha 13 anos, e joguei com todos os meus primos na aldeia deles. A relva dava-nos pelos joelhos e o meu francês era terrível mas nem precisávamos de dizer nada. Estávamos a divertir-nos tanto só a dar pontapés numa bola de um lado para o outro. A coisa mais importante das menos importantes do mundo, sabem?”, termina Gnabry.