Basta procurar pela hashtag #VogueChallenge no Instagram que em menos de nada surgem mais de 150 mil publicações. Por todo o mundo pessoas estão a recriar capas da Vogue com um objetivo claro: promover a diversidade na indústria da moda. O desafio foi originalmente criado no início de junho por uma estudante em Oslo, quando Salma Moor publicou nas redes sociais uma capa daquela que é considerada a bíblia da moda feita com uma fotografia sua. Na legenda estava a seguinte mensagem: “Ser negra não é um crime”.

O desafio que ganhou projeção à escala global não está isolado da atualidade noticiosa e está antes intimamente associado ao movimento “Black Lives Matter” que alcançou outra magnitude após a morte de George Floyd às mãos da polícia no passado dia 25 de maio — os protestos daí derivados ultrapassaram as fronteiras dos Estados Unidos e chegaram inclusivamente a Lisboa.

© Instagram

Naturalmente que a própria Vogue não ficou indiferente ao sucedido e exemplo disso foi o facto de Janelle Okwodu, jornalista na publicação, ter escrito que #VogueChallenge é mais do que uma hashtag. No artigo em questão explica-se que nos últimos dias as redes sociais foram invadidas por falsas capas da Vogue que, de um momento para o outro, são protagonizadas por vizinhos, colegas de trabalho ou até estudantes de arte. Mais do que isso, assinala Okwodu, são imagens cujos criadores “foram historicamente excluídos da conversa”.

“Não é segredo que os fotógrafos por detrás da maioria das capas de revistas são homens e caucasianos. Poucas mulheres, pessoas de cor e indivíduos não binários receberam essas oportunidades”, continua a jornalista, para depois enfatizar que foi só há dois anos que Tyler Mitchell se tornou no primeiro fotógrafo afro-americano a fotografar a capa da Vogue, referindo-se à edição de setembro de 2018 protagonizada por Beyoncé.

Naomi Campbell. A cor que transformou a indústria da moda faz 50 anos

Nem de propósito, a CNN recorda que a edição norte-americana da revista teve pela primeira vez uma mulher negra na capa em 1974 — mais de 80 anos após a estreia do título.

Para a conversa é também relevante o comunicado interno que Anna Wintour, diretora da Vogue, enviou à equipa e no qual admitiu ter cometido erros e publicado conteúdos intolerantes, além de não ter feito o suficiente para promover staff e designers negros na revista de moda. “Quero dizer claramente que sei que a Vogue não encontrou formas suficientes para elevar e dar espaço a editores, escritores, fotógrafos, designers e outros criadores negros”, disse Wintour, que está há mais de 30 anos à frente daquela publicação.

Entretanto, o desafio continua a ganhar projeção e exemplo disso é o post de Kalekye Mumo, uma personalidade televisiva sediada em Nairobi, capital do Quénia. Também ela replicou uma capa da Vogue e, citada pela CNN, explica que o fez por considerar que o desafio amplifica os rostos e as vozes negras na indústria da moda.