A narração da SportTV, honra lhe seja feita, bem tentou no início aumentar os decibéis da entoação com que estava a lançar o dérbi mas este era aquele jogo que, mais do que qualquer outro tirando os que envolvem “grandes”, devia ter público. 90 minutos depois, o verbo tem de ser outro: merecia ter público. Fosse com mais bracarenses, fosse com mais vimaranenses, fosse com mais adeptos do futebol, fosse com tudo aquilo que existe de melhor neste desporto e que nem alguns excessos nos últimos anos fora de campo conseguem apagar. À 28.ª jornada, a quarta após a retoma e onde as equipas já se começam a assemelhar ao que podem fazer (depois a questão do momento que atravessam e o contexto é outra coisa), Sp. Braga e V. Guimarães protagonizaram um hino sem som.

Saíram os visitados com a bola. Apito inicial de Tiago Martins, atraso até à linha defensiva, início da construção a partir de trás, chegada à entrada do último terço com corte de Bruno Viana, saída paralela de André Horta na sobra, passe para Francisco Trincão que foi desarmado por Ola John. Os primeiros 30 segundos podiam ser apenas de mais um jogo como outro qualquer mas o lançamento feito por Ricardo Esgaio começou a jogada que mostrou que este não seria um encontro qualquer: bola em Bruno Viana, passe ao lado para David Carmo, circulação para a lateral esquerda, passe em profundidade de Sequeira para a corrida de Galeno, cruzamento tenso para a área e entrada de rompante de Paulinho ao primeiro poste a rematar de primeira para o golo.

Com menos de um minuto disputado, o Sp. Braga estava na frente do marcador com aquele que foi um dos golos mais rápidos da prova e que nasceu de uma jogada que pensada dessa forma não sairia tão bem. No entanto, a reação do V. Guimarães também não demorou o ritmo estava cada vez mais frenético – mesmo sem adeptos nas bancadas para puxarem com as equipas mas com muita vontade, intensidade e coração para dar uma alegria aos grandes ausentes do dérbi e ultrapassar o regresso ziguezagueante à competição de ambos os conjuntos.

Já depois de um remate com muito perigo da surpresa Ola John (6′) e de um chapéu imperfeito de Fransérgio que tentava aproveitar de longe a ausência de Douglas na baliza (8′), os vimaranenses foram conseguindo chegar-se mais à frente aproveitando a colocação de Lucas Evangelista no meio-campo para dar muitas vezes vantagem numérica nessa zona e chegaram mesmo ao empate em cima do quarto de hora inicial, com André André a ser rasteirado por André Horta na área e a assumir a conversão da grande penalidade com sucesso (15′). E três minutos depois a reviravolta até ficou perto, numa insistência de André André que assistiu de cabeça Lucas Evangelista para o remate em boa posição central que saiu por cima da baliza do guarda-redes Matheus (18′).

No jogo do bola-cá-bola-lá, com vários lances que poderiam ter dado oportunidades, a intensidade na partida teve uma ligeira quebra mas nem por isso as equipas perderam a objetividade e o sentido de baliza que valeram ao V. Guimarães o segundo golo: grande jogada de Ola John na esquerda do ataque, a fintar para a frente e para trás Ricardo Esgaio, cruzamento para a zona entre os centrais e cabeceamento de Bruno Duarte a bater no poste e a seguir para dentro da baliza dos visitados, que em 20 minutos passaram do avanço à desvantagem (35′). Com o intervalo a avizinhar-se e uma vantagem percetível em termos anímicos, as coisas corriam da melhor forma aos visitantes mas foi aí que apareceu mais uma vez o rasgo de génio do jovem Francisco Trincão.

Na melhor jogada de envolvimento no encontro, com Fransérgio a lançar longo em Ricardo Esgaio na direita antes de Ricardo Horta surgir numa zona mais central para servir quase de pivô, o avançado já contratado pelo Barcelona rematou de fora da área ao ângulo para o empate (41′), num tiro que não demorou a chegar à imprensa catalã (mais do mesmo, tem sido sempre assim quando Trincão marca ou tem algum pormenor de maior destaque) e que deu ao Sp. Braga um outro fôlego até ao descanso, que poderia ter chegado com nova reviravolta no marcador com mais um remate com muito perigo de Paulinho já no segundo minuto de descontos.

A segunda parte teve contornos diferentes e bastou a introdução de João Palhinha no lugar de André Horta para concretizar aquilo que ambos os técnicos tinham referido no lançamento da partida – mais do que jogar bem, o que era preciso neste dérbi era ganhar bem. E foi isso que o Sp. Braga começou a construir com a entrada de um médio mais posicional, dando outro equilíbrio à equipa bracarense que beneficiou depois do rasgo individual de outro dos grandes destaques da partida, Galeno, para passar mais uma vez para a frente: o brasileiro recuperou uma bola na linha de meio-campo descaído para a esquerda, progrediu 30 a 40 metros com bola entrando numa zona mais central sem que ninguém lhe saísse pela frente e rematou colocado para o 3-2 aos 65′, que seria final depois de Matheus ter evitado o golo de Venâncio com uma grande defesa entre outras chances dos vitorianos.

Num encontro marcado por grandes golos em jogadas coletivas e por uma obra prima de Trincão, o Sp. Braga conseguiu a primeira vitória após a retoma com a consolidação de um novo sistema de 4x2x3x1 que consegue dar outra profundidade e segurança à equipa que o 3x4x3 deixado por Amorim não estava a conseguir pelos erros sobretudo nas transições defensivas, ao passo que o V. Guimarães mostrou que, mesmo mexendo na sua estrutura para reforçar o corredor central, encontra sempre caminhos para colocar a sua ideia ofensiva de jogo em campo num trajeto que depois falha nos resultados. Assim acabou um dérbi que no final ainda teve um momento de tensão entre jogadores de ambas as equipas. Assim acabou um dérbi que não devia chegar ao fim.