Deu entrada no Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na cidade de São Paulo, no dia 18 de março, quando aquele estado contabilizava 240 casos confirmados de Covid-19 e três mortes por infeção do coronavírus. Foi ali que a gastroenterologista Angelita Habr-Gama passou 50 dias internada e sedada, com os pulmões em estado bastante comprometido.

Em maio, quando a região de São Paulo atingia já a marca dos 46.131 casos e 3.743 mortes, chegava a notícia de que uma das mais reputadas cirurgiãs do Brasil recebia finalmente alta, uma vez recuperada da doença, e que desejava voltar à rotina assim que possível — e depois de se inteirar de todas as novidades sobre a evolução da doença no país, atualização que garante ter feito “em 24 horas”. A veterana volta a ser notícia em junho por ter regressado ao local onde passou os últimos meses — mas agora para retomar as suas funções enquanto médica, ali desempenhadas há 60 anos.

A Folha de São Paulo descreve este recomeço da especialista que acumulou dezenas de prémios ao longo da carreira e cuja história de superação contraria os cenários mais dramáticos que se esboçavam no horizonte face à sua avançada idade. “Não achei que resistiria. Era um caso muito grave”, admitiu Angelita, citada pela BBC Brasil, recordando o tempo em que esteve intubada e o impacto de um “vírus bandido”, como o classificou. De resto, e num passo em falso, o próprio Ministro da Saúde do Brasil chegou a anunciar a morte de Habr-Gama quando o país ficou a par do seu internamento.

“Pés, mãos, cabeça, tudo está funcionado perfeitamente. Eu só fiquei com uma fraqueza muscular porque perdi um pouco de peso, massa magra. Mas isso seguramente recuperarei em pouco tempo”, descreveu a especialista em coloproctologia, que admite que não esperava o diagnóstico inicial já que na altura a dimensão do novo coronavírus no Brasil era ainda diminuta.

Angelita, a primeira mulher residente na cirurgia do Hospital das Clínicas, entrou na faculdade de medicina de São Paulo em 1952, aos 19 anos, e apesar de não gostar de revelar a sua idade não é difícil confirmar a longevidade.

Uma vida intensa que deu mesmo origem a um livro lançado a 8 de março numa grande festa, pouco depois de Gama e do marido, o também médico Joaquim José Gama, terem regressado de uma viagem pela Europa. Angelita acredita que terá contraído o vírus numa destas situações, sendo o evento que reuniu 400 pessoas em torno da biografia “Não, não é resposta” o palco mais provável do contágio. Dias depois da distribuição de beijos e abraços pelos convidados, a médica apresentava febre e tosse.

Estimando ter feito mais de 50 mil cirurgias ao longo do trajeto profissional, voltava a dar consultas a 1 de junho, e no dia 6 deste mês realizava a sua primeira intervenção cirúrgica depois da recuperação, tendo entretanto feito mais de 20 operações.