À medida que os portugueses “desconfinam”, muitos de nós lamentam as viagens canceladas e procuram novas soluções de férias. A verdade é que não é preciso procurar muito. Portugal está cheio de maravilhas naturais, e o Centro de Portugal ainda esconde algumas pérolas que valem a pena descobrir e explorar. O Observador passeou pela Ria de Aveiro e descobriu um lugar onde a terra encontra o mar e se transforma em Ria e nos proporciona experiências incríveis.

A nossa viagem começa em Aveiro. Ainda antes do pequeno-almoço, fazemos a nossa primeira visita às salinas de Aveiro. Visitando o Ecomuseu Marinha da Troncalhada, pode aprender sobre a produção milenar do “ouro branco” e a história das salinas, que foram uma importante atividade económica da cidade. Entre julho e setembro, é também possível ir a banhos salgados – as águas e as lamas (de que são feitas as piscinas) são ricas em vários nutrientes e minerais benéficos para a circulação sanguínea e para a hidratação da pele. Se preferir não ir a banhos, a imagem do sol nascente na paisagem geométrica da salina são o suficiente para começar bem a manhã.

Fotografia: Nuno Neves

E, já que estamos em Aveiro, é importante falar dos famosos moliceiros e dos seus passeios no canal, um favorito dos turistas. Faça um passeio num moliceiro e aproveite para passar pela ponte mais conhecida da cidade.

Não deixe de visitar museus em Aveiro, como o Museu da Cidade, o Museu de Aveiro/Santa Joana e, ainda, o Museu Arte Nova, que lhe vão dar a conhecer de uma forma mais aprofundada a história da cidade. E, claro, uma vez em Aveiro, sejamos todos aveirenses e provemos a comida mais típica da zona: a carne marinhoa DOP, uma raça autóctone das terras banhadas pelos estuários do Vouga, Cértima e Antuã, que desembocam na Ria de Aveiro.

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Ílhavo e os seus palheiros icónicos

Rumando a oeste, vamos para uma das zonas mais famosas da zona, Ílhavo. Primeiro, há que tomar o pequeno-almoço com vista para o Farol da Barra, o maior farol de Portugal e segundo na Península Ibérica, que se ergue 66 metros acima do nível do mar. Se tiver coragem, pode subir os cerca de 288 degraus que levam ao topo do farol, onde poderá usufruir da vista desimpedida sobre o mar e a praia da Barra.

De seguida, outro clássico: a praia da Costa Nova, conhecida pelos seus palheiros – as casinhas típicas decoradas com riscas verticais – nunca deixam de impressionar pelo seu ar mimoso e característico. Situada entre o canal de Mira da Ria de Aveiro e o Atlântico, é uma zona por excelência para a prática de desportos náuticos – o Clube de Vela da Costa Nova é um dos mais antigos clubes de vela do país. Não se esqueça de comer um gelado ou uma famosa tripa, um dos mais famosos doces regionais que teve origem na Costa Nova. Aproveite para conhecer o Complexo da Vista Alegre ou o Museu Marítimo de Ílhavo. E, claro, se a fome apertar, não deixe de provar a famosa caldeirada de enguias ou os rojões à Lavrador.

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Se está à procura de praias com areais sem fim à vista, então deve rumar da Costa Nova até à Reserva Natural das Dunas de São Jacinto. É nos labirintos de trilhos que vai conhecer bosques, costas de areais e lagoas que o levam ao encontro de aves como chapim-real, o guincho, a negrinha e o pato-marinho.

Vagos, local para os amantes de ondas e para os exploradores

Depois, vá até Vagos, o município contíguo onde encontrará algumas das melhores praias da zona – a praia da Vagueira e a praia do Areão, com extensos areais e com um mar que convida os amantes de desportos náuticos a uma tarde relaxante nesta praia. Aproveite para praticar surf, bodyboard, entre outros desportos para os amantes de ondas.

E, como Vagos não é apenas local para praias, passeie e conheça o Museu do Brincar, instalado no Palacete do Visconde de Valdemouro. Se pensa que este museu é apenas para crianças, clarificamos já: é o local apropriado para conhecer brinquedos de outros tempos e fazer uma viagem até ao passado.

Oliveira do Bairro e a génese da Rádio

Como praia não é tudo, damos um salto rápido a Oliveira do Bairro, para visitar a Radiolândia. Um espaço museológico que contém a maior coleção de peças de rádio do país e que celebra a sua importância histórica – e que agrada a miúdos e graúdos. Pode sempre complementar a visita com um piquenique no jardim adjacente, que oferece espaço, mesas e a sombra de árvores frondosas que criam um ambiente fresco mesmo no mais quente dia de verão.

Aproveite a viagem para relaxar no Parque Ribeirinho do Carreiro Velho, em Perrães. É um local encantador, perfeito para uma tarde muito bem passada com a melhor companhia. Pode aproveitar para fazer um piquenique aqui. Estenda a toalha e desfrute.

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Se pretende relaxar, vá até Anadia

Se gosta de relaxar, então os 20 minutos até Anadia são um saltinho e garantimos que valem a pena. Lá, poderá encontrar as famosas Termas da Curia, um local centenário e único, preservado no tempo. No hotel e spa, podem encontrar vários tratamentos de bem-estar, bem como fazer a toma das águas: as águas mineromedicinais das Termas da Curia são de natureza sulfatada cálcica e magnésica, que podem ser benéficas para os aparelhos nefro-urinário, ao metabolismo, problemas reumáticos e músculo-esqueléticos. Se tratamentos termais não forem bem a sua onda, as termas têm um enorme jardim privado, geralmente aberto ao público, que vale a pena a visita: inclui um lago artificial, onde é possível passear de gaivota, diversas pontes, campos de jogos e casa de chá e uma gruta, num ambiente romântico e luxurioso.

Em Águeda, aventure-se na maior lagoa natural da Península Ibérica e na arte urbana

Depois de recuperarmos as energias em Anadia, lançamos-nos à descoberta da Pateira de Fermentelos. É, nada mais, nada menos do que a maior lagoa natural da Península Ibérica, que percorre Águeda, Aveiro e Oliveira do Bairro. O nome vem dos seus principais habitantes – os patos. Mais de 50 espécies de aves chamam a pateira de casa, o que lhe valeu um estatuto de Zona de Proteção Especial ao abrigo da diretiva da União Europeia sobre a Conservação das Aves Selvagens. Um lugar calmo e tranquilo, em que se podem praticar desportos aquáticos, ou simplesmente caminhar os trilhos das margens, aproveitando a beleza do espaço. Se viajar com crianças, a Pateira de Espinhel é um bom local para deixá-las brincarem e tornarem-se parte da Natureza que os rodeia.

E, já que estamos por Águeda, não deixe de visitar a arte urbana que a mesma contempla, inserida no projeto AgitÁgueda. Perca-se nas ruas e deslumbre-se com as cores garridas e obras de arte que as mesmas contêm.

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Albergaria-a-Velha e as suas rotas por moinhos emblemáticos

Se procura um plano mais educativo, também o encontra na zona. Rumando a Macieira de Alcoba, vai encontrar a Aldeia Pedagógica do Milho, um projeto criado para celebrar e preservar a tradição do milho, da sua plantação à utilização. Seguindo este tema, fomos parar à Rota dos Moinhos. Em Albergaria-a-Velha, o concelho com mais moinhos antigos funcionais da Europa, fazemos uma das nossas melhores visitas: o Moinho do Ti Miguel. Se, depois de uma descida íngreme da serra, ficar com medo ter ter ido parar a uma propriedade privada acidentalmente, então está no sítio certo. Apesar de ser propriedade privada, é possível visitá-la. Poderá ver, em funcionamento, um moinho de milho e outro de arroz selvagem, e aprender como a presa reserva a água e a empurra para fazer funcionar o moinho. E, se ficou entusiasmado com este passeio, aproveite para fazer a Rota dos Moinhos, um local que esconde uma das maiores concentrações de moinhos de água conhecidas na Europa.

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Entre em contacto com a Natureza em Sever do Vouga

Seguimos para Sever do Vouga, onde encontrámos um cenário quase tropical, aqui mesmo ao lado. A cascata da Cabreia inclui vários espaços onde pode nadar nas águas de origem fluvial, e uma das mais belas cascatas que vai encontrar, a da cabreia. Os caminhos sinuosos, as passagens entre rochas sobre os riachos e a própria cascata vão transportá-lo para um cenário idílico, que merece, sem sombra de dúvida, uma visita.

Depois desta visita, não deixe de visitar uma das mais belas ecopistas da zona, a Ecopista do Vouga, que tem um trajeto de 10 quilómetros e sempre como companhia o Rio Vouga.

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Ovar e os seus percursos imperdíveis

Subindo para Ovar, o concelho mais norte do distrito, visitámos o Parque do Buçaquinho. Perto da costa, é um parque ambiental de 24 hectares com seis lagoas, um vasto pinhal, parque infantil e zonas de lazer. Além de todas as espécies que populam o parque e que vai poder ver, vale a pena visitar o jardim aromático, cujos aromas lhe vão conduzir os sentidos e levá-lo à esplanada onde poderá provar tostas aromatizadas com as plantas do jardim.

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Para uma tarde relaxante, sugerimos ainda uma visita às praias de Ovar, que são bastante conhecidas pelos grandes areais que tem. Dê um mergulho na Praia do Esmoriz ou de São Pedro de Maceda. Ou, até, na praia do Furadouro. Cada uma delas merece uma visita.

Se é fã de arquitetura, não vai resistir em dar um saltinho à Igreja Matriz de Válega. Originalmente no estilo barroco, é conhecida pela extravagância da sua decoração: está coberta de azulejos coloridos no interior e exterior. Se passar aqui ao fim da tarde, a fachada virada a poente vai estar a brilhar com o pôr do sol.

Estarreja e a sua biodiversidade

E porque a zona da Ria de Aveiro, pelas suas condições atmosféricas e geológicas, é o habitat ideal para diversas espécies e culturas, não podemos deixar de visitar o projeto da Bioria, nomeadamente o percurso de Salreu. Um percurso circular, que pode ser feito em algumas horas a pé, ou em menos de uma hora de bicicleta (que pode alugar no Centro de Interpretação Ambiental, no início do percurso). A beleza do percurso está na sua variedade. A parte norte do percurso, banhada pelo rio Antuã, revela-se nos imensos arrozais da paisagem. Já a parte sul, influenciada pela água salubre da ria, reflete-se na paisagem de caniçais. Pelo meio, várias espécies de aves podem ser observadas no local, em especial as cegonhas que habitam a zona.

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Murtosa, um local de experiências sem fim

Estando nesta região, não podíamos deixar de mencionar um dos seus ex-libris: o moliceiro. Apesar de a apanha do moliço já não ser uma atividade de importância económica na região, ainda o é historicamente – e o moliceiro é o seu símbolo mais reconhecido. Na praia do Monte Branco, na Murtosa, encontramos um Museu Estaleiro, onde se valoriza a arte da construção de embarcações tradicionais. Aqui pudemos observar o Mestre José Oliveira no seu processo de trabalho e na pintura das cenas caricatas que adornam os moliceiros. Aproveite para conhecer a Praia da Torreira, local perfeito para conhecer a arte xávega, característica da área.

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A nossa viagem já vai longa, mas o dia não poderia acabar sem os típicos ovos moles – e para queimar imediatamente as calorias, um longo passeio nos “Via Ecológica Ciclável”, onde o pôr do sol reflete na água, criando um efeito espelho e sensação de caminhar sobre a água.

Saiba mais sobre este projeto
em https://observador.pt/seccao/centro-de-portugal/