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O sorteio da Champions para os quartos e para as meias, feito com várias intervenções por videoconferência dos clubes, não correu propriamente bem pela quebra de ligação em alguns pontos de reportagem mas teve um final que era por muitos desejado. Problema? Correu quase tudo ao contrário. E o que não correu ao contrário era posto ao contrário. Erro 1: colocar Ronaldo no primeiro encontro a eliminar em Lisboa e a poder defrontar o seu antigo clube, Real Madrid. Erro 2: colocar Ronaldo e Messi em rota de colisão nas meias. Ambos os cenários caíram logo nos oitavos, pela derrota da Juventus e dos espanhóis, mas o segundo partia de uma premissa errada na antevisão do terceiro encontro desta fase da Liga milionária – o Bayern chegava como favorito ao jogo com o Barcelona.

Olhando individualmente a cada um dos jogadores dos dois conjuntos, a começar até pela baliza onde estavam os dois melhores guarda-redes alemães da atualidade que ao que parece de amigos têm pouco ou nada (Manuel Neuer e Ter Stegen) e a terminar na frente de ataque onde se encontram dois dos melhores avançados da atualidade (Luis Suárez e Lewandowski, sendo que a comparação da temporada entre ambos coloca o polaco a anos-luz nesta fase), não há assim tantas diferenças entre Barcelona e Bayern. Todavia, e quando se junta tudo, sobram duas distinções que marcariam o grande duelo dos quartos da Champions: Messi, o melhor do mundo numa equipa que procura voltar a ser a melhor, e a equipa dos bávaros, a melhor do mundo fazendo do coletivo o seu melhor. Traduzindo, o conjunto blaugrana de hoje é Messi e mais dez, a formação germânica de hoje são onze e mesmo onze.

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Puxemos a fita atrás. Quando Quique Setién assinou pelo Barcelona após a saída de Ernesto Valverde, estava ali à frente de todos aquilo que poderia ser descrito como um casamento perfeito. O técnico nunca ganhou qualquer título após ter deixado os relvados (como jogador conquistou uma Supertaça pelo Atl. Madrid) mas a forma como colocou o Betis a jogar, numa equipa que por exemplo foi a Camp Nou de peito aberto ganhar por 4-3 a Messi e companhia, prometia na chegada à Catalunha. O plantel também. A relação, desde janeiro, foi atribulada – e esse divórcio parecia estar mais do que anunciado. E porquê? Porque o estilo romântico que quis adotar coaduna-se com Xavis e Iniestas (e até com o outro Busquets, que não este) e não com Robertos e Vidales. A equipa passou a ter mais dificuldades na forma como colocava a posse ao serviço do ataque ao último terço, perdeu mecanismos nas transições defensivas e sobretudo deixou a sua principal referência, Messi, entregue a si mesmo.

Muito se falou sobre a continuidade ou não do argentino no Barcelona mas, aos 33 anos, pode estar chateado com o mundo mas continua a ser o farol que dá alguma luz a toda uma equipa. E não foi por ele, nem pelos 25 golos em 32 jogos da Liga, que os catalães deixaram fugir o Campeonato. Messi está em choque há muito com o presidente do clube, Josep Maria Bartomeu – e as negociações do corte salarial durante a pandemia foram mais um exemplo disso mesmo. Messi está em choque com o diretor desportivo, Éric Abidal – e as palavras do antigo companheiro de equipa francês sobre os jogadores aquando da saída de Valverde com respetiva resposta pronta do argentino nas redes sociais não deixaram dúvida. Messi está em choque com a equipa técnica, em especial Eder Sarabia – e a forma como foi apanhado a ignorar o adjunto numa pausa para hidratação em Vigo dispensou palavras. Mas até em choque, Messi não perdia o foco. O futebol é o seu estímulo e o Nápoles tinha apanhado o último choque.

Puxemos a fita atrás. Também Niko Kovac, o médio criativo que passara por Sub-21 e seleção da Croácia antes de estar dois anos no Eintracht Frankfurt e ganhar uma Taça da Alemanha, tinha tudo para um casamento perfeito com o Bayern mas o divórcio até pecou por tardio e teve de surgir uma goleada contra a antiga equipa para sair. Com as devidas diferenças, os bávaros são há anos uma espécie de Juventus da Alemanha: ganhar a Bundesliga é quase um cumprir de obrigação, vencer as restantes competições são troféus que compõem um museu já extenso, o grande objetivo passa pelas competições europeias. No entanto, até esse objetivo estava em risco. Saiu o balcânico, foi promovido Hans-Dieter Flick (ou apenas Hansi). À condição, de forma assumida. Ganhou quatro jogos, perdeu dois no Campeonato, o Bayern desceu à sétima posição. Ficou. E de repente criou a melhor equipa europeia.

Houve a pandemia pelo meio mas desde 11 de dezembro, a seguir a um desaire com o B. Mönchengladbach, que o Bayern ligou o modo “rolo compressor” em todas as provas entre Campeonato, Taça e Liga dos Campeões: em 28 jogos realizados, 27 vitórias e apenas um empate sem golos frente ao RB Leipzig. O que mexeu Hansi Flick? 1) Lewandowski fez a temporada com mais golos de sempre porque se tornou o primeiro defesa da equipa sem bola que permitia colocar dez jogadores no meio-campo adversário; 2) Kimmich (ou Thiago Alcântara, quando não estava lesionado) e Goretzka começaram a mandar no meio-campo; 3) os laterais tornaram-se alas porque os alas jogavam por dentro e havia sempre um segundo avançado como Müller para jogar por fora ou entre linhas. Para alguns, o domínio dos bávaros justificava-se também pelo nível dos adversários; para quem via mais à frente, o domínio dos bávaros era apenas e só a demonstração prática da equipa melhor trabalhada. E o Barcelona sentiu isso mesmo da pior forma, com uma primeira parte que fez lembrar o 7-1 da Alemanha ao Brasil em 2014.

O encontro começou em ritmo PlayStation. Nos golos, na forma como se ouvia a bola, no ruído de fundo que de quando em vez se ouvia e que vinha da bancada central entretanto readaptada para banco de suplentes. E não houve propriamente muito tempo para estudo de equipas – quem sabia ao que vinha sabia, quem não sabia ao que vinha limitava-se a ver o que deve ser um jogo de futebol. Numa jogada de antologia, iniciada num cruzamento de Perisic e com uma tabelinha simples entre Müller e Lewandowski, o alemão inaugurou o marcador logo ao quarto minuto; logo na resposta, Jordi Alba ganhou as costas a Kimmich na esquerda, cruzou para Suárez e o desvio inadvertido de Alaba passou por cima de Neuer e fez o empate (7′); Messi, num canto marcado de forma curta, cruzou em arco da direita, ninguém desviou e a bola bateu de forma caprichosa no poste (10′) já depois de Neuer ter feito a “mancha” a uma oportunidade de Suárez “inventada” por Nelson Semedo.

A seguir houve um curto período para recuperar fôlego (para quem jogava e para quem via, acrescente-se), uns minutos sem bola no último terço e o arranque para um segundo início de jogo: o Bayern ganhou quatro cantos quase consecutivos, o Barcelona teve uma oportunidade flagrante numa jogada individual de Messi que acabou nas mãos de Neuer, os alemães “chatearam-se” com a desfaçatez e ligaram o modo arrasador em dez minutos que para não haver dúvidas acabaram com o encontro: depois de um roubo de bola de Gnabry em zona ofensiva, Perisic recebeu na área descaído na esquerda, rematou cruzado e fez o 2-1 (21′); o próprio Gnabry marcou o 3-1 numa fabulosa jogada que começou num passe a olhar para um lado e a dar para o outro de Thiago Alcântara e teve pelo meio uma assistência por cima de Jordi Alba de Goretzka (27′); e Müller bisou num lance em que os germânicos voltaram a ganhar a bola numa zona de pressão alta, Kimmich cruzou e o avançado fez o 4-1 (31′).

Em 35 minutos, o Bayern tinha conseguido fazer 12 remates à baliza do Barcelona. Só esse número, se calhar tanto ou mais do que o 4-1 ao intervalo, provava que estávamos perante aquilo que era o fim de uma era no futebol que coincidia com o início da era que se vai seguir. O futebol de hoje é mais do que posse, talento e desequilíbrio na frente como os catalães conseguiram ao longo de anos a fio; é saber pressionar alto, é jogar tão bem com como sem bola, é envolver dez jogadores de campo como um todo a defender ou a atacar.

Foi a isso que se resumiu a segunda parte: já depois de um golo anulado ao Bayern por clara posição irregular, Luis Suárez ainda conseguiu reduzir para 4-2 com um remate na área (57′) mas os alemães voltaram a tomar conta do jogo e de forma natural ampliaram os números da goleada sem terem propriamente a necessidade de acelerarem muito o ritmo: Kimmich aumentou para 5-2 após uma jogada fabulosa na esquerda de Alphonso Davies a deixar Nelson Semedo no chão (63′); Lewandowski apontou o 14.º golo na presente edição da Champions após mais uma iniciativa individual de Coutinho que entrou no encontro para fazer o resto da diferença (82′); e o mesmo Coutinho fechou o resultado com dois golos (85′ e 89′) aproveitando os buracos na defesa dos catalães.