Podem ser já quatro dias de fuga, mas para a polícia não é certo que o homem que, na semana passada, terá disparado contra a ex-mulher, em Lamego, esteja, de facto, escondido. As buscas começaram logo depois do crime e ainda continuam. Mas, ao que o Observador apurou, vão passar a incluir também cães pisteiros que detetam o odor a cadáver, admitindo a possibilidade de, entretanto, o suspeito ter cometido o suicídio.

Na passada sexta-feira de manhã, uma mulher de 56 anos dirigia-se para o seu local de trabalho, a fábrica Fumeiro Porfírios, em Lalim, com uma colega, quando foi surpreendida pelo ex-marido. Segundo confirmou ao Observador fonte oficial do Comando Territorial de Viseu da GNR, o homem, de 63 anos, disparou, com uma arma de fogo, sete vezes, atingindo mortalmente a ex-mulher e baleando a sua colega na perna. Esta chegou a ser hospitalizada, mas já se encontra “fora de perigo”.

O alegado autor do crime foi acusado no ano passado de violência doméstica, mas o juiz de instrução acabou por determinar a suspensão provisória do processo, pelo período de oito meses, que ainda estava a decorrer. Na altura, o agressor foi obrigado a pagar 300 euros e estava proibido de se aproximar da ex-mulher, que acabou por sair de casa e avançar com o processo de divórcio.

A mesma fonte da GNR adianta que a mulher encontrava-se em teleassistência, tendo na sua pose um mecanismo telefónico, uma espécie de botão que poderia acionar sempre que se sentisse ameaçada. Esse ato colocá-la-ia em contacto com um call center da Cruz Vermelha Portuguesa, que, posteriormente, iria contactar a força policial mais adequada ao momento. Mas tal não chegou a acontecer.

No local do crime, “uma estrada com bastante arvoredo”, o homicida “estacionou o veículo, esperou que a vítima passasse, abordou-a e disparou, premeditando todo o seu alinhamento”, adianta a GNR de Viseu. Após os disparos, o homem pôs-se em fuga para uma zona florestal, não tendo sido localizado até ao momento.

Para a GNR, “nada previa este fim trágico”. “O processo foi avaliado e entretanto suspenso, o juiz viu, por isso, um baixo risco que isto acontecesse, não o considerando potencialmente perigoso”.

O ex-casal tem dois filhos maiores de idade que estão a ter apoio psicológico, mas o mais velho é dado pelo Correio da Manhã como integrando “uma lista de alvos”, uma teoria afastada pelas autoridades. A GNR não tem conhecimento que um dos filhos “corra um risco especial”, já a PJ explica que “quando há desaguisados familiares e quando se ultrapassam os limites, não podemos fabular, é necessário recolher elementos”.

Na Padaria Tele Bôla, junto à vila de Lalim, em Lamego, o crime tomou conta das conversas em quase todas as mesas. Uma funcionária do estabelecimento, que preferiu não ser identificada, confirma ao Observador que conhecia de vista o suspeito. “Não apresentava sinais de violência ou comportamentos estranhos, convivia com bastante normalidade.”

A mesma funcionária explica que existe “alguma apreensão no ar”. “Não é normal alguém fazer aquilo a sangue frio, não é? Algumas pessoas que o conheciam melhor ficaram mesmo incrédulas. Não há medo, há receio, mas claro que continuamos fazer a nossa vida normal.”

O local para onde o alegado homicida fugiu é descrito por esta mulher como “mato com bastante vegetação, sem barracos ou casas abandonadas”, fazendo-a crer que, para se manter desaparecido durante quatro dias, o homem “ter-se-á preparado muito bem para tal”. “Principalmente agora que a temperatura baixou durante a noite.” As autoridades, porém, não têm essa certeza.

Condições meteorológicas dificultam buscas e tese de suicídio é dada como possível

Desde sexta-feira, a GNR de Viseu esclarece que, em coordenação com a PJ, tem feito patrulhamento e buscas pela zona florestal, para onde o suspeito terá fugido, e nas imediações da vila de Lalim, em Lamego, local onde ocorreu o crime. No entanto, as condições meteorológicas dos últimos dias, com a descida da temperatura e vários períodos de chuva, não têm facilitado os trabalhos no terrenos.

“Nos próximos dias, assim que a chuva acalmar, iremos usar binómios [equipas com cães pisteiros] que detetam o odor a cadáver, colocando a hipótese de ele já estar morto”, confirma fonte oficial da GNR ao Observador, acrescentando que com o mau tempo, a capacidade de trabalho destes cães diminui.

Apesar de não ter qualquer indicador concreto nesse sentido, ao fim de quatro dias, a PJ também admite ao Observador a possibilidade de o alegado autor do crime poder já estar morto. “A casuística indica-nos que isso pode acontecer”, afirma, sendo algo recorrente neste tipo de crimes — o suicídio após o homicídio.

Para a PJ, o facto de o local do crime ser “um espaço rural, com muitos recantos” pode não representar propriamente uma dificuldade, uma vez que, não sendo uma vila muito povoada, faz com que as pessoas sejam facilmente e rapidamente reconhecidas e identificadas.

O CM avança ainda que o carro do suspeito “continua parado junto à sua casa e no dia em que disparou contra a ex-mulher” e que este tem “o telemóvel desligado”, factos que as autoridades não confirmam ao Observador.