O Comité Olímpico de Portugal (COP) acusou esta quarta-feira o governo de “desconsideração” e “ausência de uma visão estratégica” para o desporto na recuperação económica do país, reiterando-se “totalmente disponível” para cooperar e ajudar a reverter essa “realidade”.

A apresentação do Programa de Estabilização Económica e Social (PEES), no âmbito do qual o desporto primou pela ausência, constituiu um elemento revelador do parco peso político que o desporto tem junto dos outros setores da governação (…) e da total desconsideração e ausência de uma visão estratégica para o país na qual o desporto tenha lugar”, criticou José Manuel Constantino, presidente do COP.

O dirigente censura o facto de o desporto não estar incluindo no projeto que define 10 eixos estratégicos para a recuperação do país — “é totalmente ignorado e negligenciado” -, lembrando que essa opção vai ao arrepio de diretrizes das Nações Unidas e da União Europeia.

“O Comité Olímpico de Portugal revela a sua total disponibilidade para cooperar no encontrar das melhores medidas de apoio ao desporto e acertar as formas de execução das mesmas, garantindo assim que este setor não é negligenciado como até ao momento tem sido”, insiste José Manuel Constantino.

O dirigente assume-se “preocupado” com a posição da tutela, que no primeiro semestre de 2021 terá a cargo a presidência da União Europeia, pois discorda da falta de visão em “incluir o desporto num dos eixos estruturantes” da recuperação.

Essa ausência, não sendo propriamente uma novidade no pensamento político de quem projeta o futuro do país, é, infelizmente, a manifestação, uma vez mais, de uma completa insensibilidade e capacidade cultural e política para entender o desporto como fenómeno global e, como tal, indispensável na construção das sociedades modernas. Nesta descapitalização do pensamento político para o desporto perde o país, o desporto e gerações de portugueses para as quais o desporto surge, quanto muito, reduzido à condição de entretenimento de fim de semana”, sentenciou.

José Manuel Constantino realça o facto de Portugal acolher “as mais importantes competições desportivas mundiais”, considerando-os “convenientes” em determinados “contextos e circunstâncias”, contudo lamenta o facto de ao setor “não ser reconhecida suficiente importância política e económica para ser incluído no seu PEES”.

Lembrou que o desporto “tem um valor acrescentado bruto na economia portuguesa de 1,2%” e que em termos de emprego vale 1,4%.

“O desporto vale muito mais do que aquilo que custa, assim o comprovam os efeitos na redução do absentismo, no aumento da produtividade, no aumento da esperança de vida e no combate às morbilidades geradas pelo sedentarismo, conforme abundantemente estudado e divulgado por organizações de referência, como a Organização Mundial de Saúde”, ilustrou.

O presidente do COP recorda que, no plano económico, a atividade física e desportiva “é um dos setores com maior capacidade de atração de investimento, consumo e criação de valor acrescentado, figurando como um instrumento primordial para alcançar 11 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030, como reconhecido no parágrafo 37 da Resolução das Nações Unidas deste plano de ação global para o Planeta”.

Insiste que “a transversalidade do desporto figura como uma prioridade no domínio do Turismo, da Inclusão Social, da Saúde Pública, da Educação, da Economia Regional, do Comércio, da Coesão do Território, ou de um Novo Paradigma para as Cidades e a Mobilidade”.

Recordou que o Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas aconselhou as autoridades governamentais a adotarem políticas que pudessem proteger o desporto do forte impacto causado pela pandemia da Covid-19.

No âmbito da União Europeia, recorda que quer o Conselho quer o Parlamento Europeu produziram documentos nos quais “exortaram os governos dos Estados-membros a dedicarem uma parte dos apoios comunitários à área do Desporto”, algo que lamenta não estar a acontecer em Portugal.

“A ausência de uma resposta governamental agudiza as vulnerabilidades de um setor económico de emprego intensivo que representa cerca de 2,12% do PIB da União Europeia e que agora se vê condicionado no desenvolvimento da principal atividade geradora de receitas”, completou, insistindo que o COP “não conhece qualquer medida específica de proteção e recuperação económica do setor desportivo” português.