O fundo de inovação Digital News Initiative (DNI) atribuiu 7,8 milhões de euros a 32 projetos de jornalismo digital em Portugal no acumulado das seis rondas de financiamento, nos últimos cinco anos, divulgou esta quinta-feira a Google. Um deles foi o Observador, com o seu serviço de rádio online, com um financiamento de 390 mil euros.

Portugal é o sexto país que mais financiamento recebeu do DNI, depois de Alemanha (21,5 milhões de euros), França (20,1 milhões), Espanha (12,1 milhões), Itália (11,5 milhões) e Reino Unido (14,9 milhões), de acordo com o relatório do DNI. Quase metade dos projetos (49%) apresentados por Portugal foram para a exploração de novas tecnologias, 24% para o combate à desinformação, 15% para a divulgação de histórias locais e 12% para o impulso das receitas digitais.

No global do fundo de 150 milhões de euros, “financiámos 662 projetos em 30 países em toda a Europa”, disse à Lusa Madhav Chinnappa, diretor de desenvolvimento do ecossistema de notícias da Google.

“Acho que todos os projetos são fantásticos”, referiu, destacando, no caso português, dois, entre os quais o do jornal online Observador, com o seu serviço de rádio online, que recebeu um financiamento de 390 mil euros. “Este movimento para o áudio e desenvolvimento do serviço de voz foi muito interessante porque tem sido bem sucedido” e é “um exemplo interessante de inovação”, considerou Madhav Chinnappa.

Outro dos projetos é o Nónio, uma plataforma tecnológica única criada pelos maiores grupos de comunicação que oferece conteúdos personalizados. “O Nónio tem a capacidade de inspirar a indústria” e também envolve a colaboração, acrescentou.

As pessoas estão a perceber como podem colaborar e em que podem competir, em vez de competir em tudo. Vamos ser mais sábios e escolher onde competir e onde podemos colaborar. Acho que essa tendência de colaboração vai continuar, o que é bom”, considerou o responsável.

“A colaboração em todas as formas é importante e a pandemia demonstrou o quão interconectados estamos”, disse Madhav Chinnappa.

Entre as várias entidades que receberam financiamento do DNI, desde que foi lançado em 2015, constam, além do Observador e da Plataforma de Media Privados (PMP), a Lusa, a Cofina Media, Impresa, INESC, Público, Universidade do Porto, Global Notícias ou a Empresa Jornalística Região de Leiria, entre outros, refere o relatório do DNI. Em termos globais, mais de um quarto (27,2%) dos projetos apoiados pelo DNI foram para publishers de âmbito regional e nacional, e 14,5% para startups de notícias.

As agências de notícias e organizações sem fins lucrativos representaram 14,2%, os publishers locais 11% e as organizações unicamente online 10,4%. Ainda por tipo de organizações apoiadas pelo fundo, as instituições académicas representaram 3% e a televisão 1,8%, tal como a rádio. No global, o fundo DNI apoiou projetos que abordam quatro principais desafios da indústria: aumentar as receitas digitais (12%), contar histórias locais (15%), combate à desinformação (21%) e explorar novas tecnologias (52%), de acordo com o relatório.

“Foi uma experiência fascinante porque tivemos seis rondas de financiamento”, apontou Madhav Chinnappa.

No início, foi criado o fundo assente nas respostas dos publishers, há cerca de cinco anos, sobre como é que a indústria de media poderia ser ajudada.

Criámos um fundo de inovação para as notícias e nem sequer definimos o que era a inovação, deixámos isso o mais aberto possível”, prosseguiu.

Considerando estes cinco interessantes, o responsável adianta que foram analisados neste período “mais de 5.000 projetos”, onde se pode observar “como as pessoas definem ideias e o que consideram inovação”. E, por isso, “é que mais de metade dos projetos que apoiámos têm a ver com nova tecnologia, como envolvemos as audiências”, acrescentou. Mas com o tempo, em resposta às preocupações dos publishers sobre os problemas do ecossistema de media, as rondas seguintes passaram a ter o foco em como obter receitas dos leitores e também “tentámos colocar foco no local”, explicou Madhav Chinnappa.

Por isso, “temos um conjunto de projetos nessas áreas, o que é interessante”, considerou o diretor de desenvolvimento do ecossistema de notícias da Google. Segundo o responsável da Google, o apoio ao ecossistema dos media vai continuar, através dos vários instrumentos que a empresa dispõe. “Mais colaboração, mais debate, mais desenvolvimento e mais formação” no setor, este é um movimento que “não pode parar”, defendeu o responsável.

“Temos um compromisso a longo prazo, somos uma empresa de ecossistema e prosperamos quando os ecossistemas em que operamos prosperam”, salientou. Questionado sobre o fundo DNI foi positivo para o setor dos media, Madhav Chinnappa afirmou: “Espero que sim, mas não me cabe julgar”.

O responsável deixa essa avaliação para os “donos dos 662 projetos ou, ainda antes disso, para os mais de 5.000 que se candidataram” ao fundo, pois são “eles que devem avaliar se foi positivo ou não”.

21% dos projetos apoiados pelo fundo Google são de combate à desinformação

Segundo o documento, 21% dos projetos apoiados estão ligados ao combate à desinformação e, em Portugal, do total dos projetos apoiados — 32 —, a percentagem sobe para 24%.

No relatório, é destacado o projeto Debunk (Lituânia), da Delfi, um dos maiores publishers de notícias online dos Bálticos, que visa combater as fake news na Internet utilizando uma combinação entre inteligência artificial assente em dados analíticos e uma dedicada comunidade de voluntários. Este projeto recebeu do fundo DNI 315 mil euros.

“Nos Bálticos, os ciberataques e a desinformação são os principais problemas. Para dar uma ideia de escala do tema, o Debunk analisou 9.881 artigos entre abril e junho” deste ano, “identificando 617 casos de desinformação relacionados com a Lituânia, Letónia e Estónia no contexto da Covid-19”, refere o relatório.

Com o objetivo de fornecer análises dos conteúdos ‘online’ naquela escala, a empresa criou ferramentas e filtros inteligentes que identificam automaticamente potencial desinformação”, adianta.

Notificações regulares são enviadas a uma rede de fact checkers [verificadores de factos], que ganharam o nome de “elfos” devido “aos seus poderes de luta contra trolls” [criatura do folclore escandinavo que na gíria da Internet caracteriza algo ou alguém destabilizador].

Esta mistura entre “tecnologia e intervenção humana significa que artigos com conteúdos prejudiciais podem ser sinalizados e os jornalistas automaticamente notificados”. Desde que foi lançado em 2018, o Debunk tem trabalhado com organizações em 17 países do mundo.

Precisávamos de encontrar pessoas que tivessem conhecimento em ciência política e relações internacionais, a par de desenvolvedores que fossem capazes de trabalhar com ‘machine learning’ [aprendizagem de máquinas] e inteligência artificial”, explica Ieva Ivanauskaite, responsável pelo desenvolvimento de negócio da Delfi, citado no relatório.

Outro dos projetos mencionados é a startup polaca Edge NPD, que obteve um financiamento de 662 mil euros.

“Ao contruir um escudo anti-bots [aplicação que simula ações humanas padronizadas] e trolls, a Edge NPD ajudou a proteger os leitores, editores e anunciantes em todo o mundo do impacto negativo do tráfego falso, estimado em dezenas de mil milhões de euros por ano e a crescer”, salienta a relatório do DNI.

Cerca de 1,8 milhões de bots e trolls foram bloqueados pelo escudo.