“A responsabilidade do grupo é sempre em responder em cada um dos jogos. Se nos falta um ponto, mentalizamo-nos em conseguir três. Estamos habituados a ganhar, é a mentalidade que o treinador nos incute”. Uribe está só a fazer a segunda temporada no Dragão agora com um papel um pouco mais relevante depois da saída de Danilo e com o período de adaptação do 6 mais puro Grujic, mas fala com as características que fazem o ADN Porto e que, a propósito da morte do histórico dirigente Reinaldo Teles, voltaram a ser recordados numa casa que se fez grande e com estatuto internacional assente em princípios inalienáveis que ainda hoje se mantêm – e que, como se viu no hiato de sucessos entre 2013 e 2017, quanto menos presentes estão, menos sucesso conseguem propiciar. E foi com essa base que Sérgio Conceição comentou a publicação de Bernardo Silva após o jogo em Manchester.

FC Porto-Manchester City. Otávio cai na área e pede penálti (0-0, 18′)

“As nossas vitórias são todas saborosas. Obviamente que as vitórias que coincidem com títulos, mais saborosas são. Festejamos títulos e não vitórias. Esta é a minha análise e a minha forma de estar no futebol. Isso é uma criancice, uma picardia, que não me diz nada. As vitórias são todas saborosas se forem importantes para chegar ao fim da caminhada e festejar alguma coisa”, comentou o técnico, antes de recordar uma estratégia que há uns anos era seguida por alguns treinadores de “grandes”: “Apesar de o meu estado normal parecer zangado, quem entra com esse tipo de postura no jogo, não entra bem. Temos que entrar libertos de tudo, mas com ambição e vontade de ganhar. Isso faz parte do que nós somos. A confiança vem do trabalho diário, não através de uma vitória ou porque alguém disse alguma coisa. Senão tinha que colocar frases de adversários no balneário para motivar”.

Luis disse que era hoje o Día(z). Mas a maldição inglesa ainda não caiu (a crónica do Manchester City-FC Porto)

O FC Porto nunca tinha jogado antes com o Manchester City na Champions mas trazia um currículo interessante nos encontros contra outros tubarões do futebol europeu, como os triunfos com Manchester United, Chelsea, Inter, Arsenal, PSG, Atl. Madrid ou Bayern que teve antes na fase de grupos ou a eliminar. E mostrou no primeiro jogo em Inglaterra que tinha argumentos para marcar e para discutir o jogo com o conjunto de Guardiola. “Fizemos golo lá, fizemos golos contra o Olympiacos e golos contra Marselha, ofensivamente como equipa criamos muitos. Agora depende também da valia e do poderio e do adversário, também, jogam, não somos só nós. Para sermos fiéis ao que fazemos e trabalhamos, não temos de provar nada a ninguém. Os golos acabam por surgir de forma natural se tivermos bem em todos os momentos do jogo e não só num. Depende do momento, dos espaços que os adversários nos deixam…”, focou. E é aqui que entra também um destaque subvalorizado da equipa: Otávio.

Com 11 jogos feitos entre Campeonato, Taça de Portugal e Liga dos Campeões, o brasileiro assume protagonismo crescente que se vê não só em campo, nas ações com e sem bola mas ainda na voz de liderança que foi assumindo em campo (e com um espírito guerreiro que lhe vale um número mais elevado de amarelos), mas também fora dele, com um valor de mercado atual recorde de 18 milhões de euros estando em final de contrato com os dragões. Seja como ala ou como interior, como médio mais ofensivo a jogar com o avançado ou mais defensivo a apoiar o 6 mais posicional, Sérgio Conceição construiu um jogador polivalente, mais evoluído em termos táticos, mais regular nas participações sem tantas ausências por lesão, mais agressivo e intenso no jogo, tudo sem perder aquela ginga que valeu a contratação ao Internacional então para a equipa B dos azuis e brancos em 2014.

“O Otávio, como outros, é um jogador muito importante no equilíbrio. Frente ao Santa Clara, o MVP para nós, FC Porto, foi o Otávio, exatamente por esse trabalho quase invisível que ele tem, tanto quando a equipa tem bola como quando não tem. Quando joga como médio ofensivo e na primeira fase de construção se mostra mais, é muito difícil estar na linha avançada, promovemos outros jogadores que aparecem mais na frente, pela nossa dinâmica. Se calhar paga um bocadinho por isso… Quando defendemos, é um jogador agressivo, que sabe ocupar espaço, que sabe limitar o adversário. É um jogador importante na equipa como outros mas muitas vezes não é realçado o trabalho e a qualidade dele em campo”, fez questão de destacar Sérgio Conceição antes do jogo.

Das corridas atrás da posse às faltas cirúrgicas após sprints que tentavam travar jogadas em que existam alguns desposicionamentos defensivos, Otávio terminou o jogo com 9,9 quilómetros corridos e muitas dessas tais ações invisíveis contabilizadas. A ele juntaram-se ainda Uribe (11,8km) e Sérgio Oliveira (10,8km). Os três médios foram tendo um enorme trabalho num jogo onde o FC Porto teve sobretudo de destacar-se sem posse, com uma exibição quase irrepreensível dos três centrais (sobretudo Diogo Leite, a surpresa) e Marchesín a acabar como o melhor dos dragões no jogo, com algumas intervenções na segunda parte que seguraram o empate e carimbaram de forma matemática a passagem dos azuis e brancos aos oitavos da Liga dos Campeões a uma jornada do final.

Ficha de jogo

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FC Porto-Manchester City, 0-0

5.ª jornada do grupo C da Liga dos Campeões

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Bjorn Kuipers (Holanda)

FC Porto: Marchesín; Mbemba, Diogo Leite, Sarr; Wilson Manafá (Nanu, 72′), Sérgio Oliveira, Uribe, Zaidu; Corona (Luis Díaz, 62′), Otávio (Fábio Vieira, 87′) e Marega (Evanilson, 72′)

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Cláudio Ramos, Taremi, Nakajima, Romário Baró, João Mário, Felipe Anderson e Toni Martínez

Treinador: Sérgio Conceição

Manchester City: Ederson; João Cancelo, Rúben Dias, Eric Garcia, Zinchenko: Rodri, Fernandinho; Bernardo Silva, Phil Foden, Sterling e Ferran Torres (Gabriel Jesus, 71′)

Suplentes não utilizados: Steffen, Carson, Kyle Walker, Stones, Ake, Gundogan, Laporte, Kevin De Bruyne, Mendy, Mahrez e Doyle

Treinador: Pep Guardiola

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rodri (51′) e Marega (68′)

Os ingleses entraram melhor no jogo, com posse ou sem bola – e com isso o FC Porto praticamente não existiu do meio-campo para a frente nos minutos iniciais. Explorando muito o jogo pelos corredores laterais (sobretudo pela esquerda, onde Zinchenko era mais um ala do que um defesa), o Manchester City foi ganhando cantos, tentou as habituais diagonais na zona entre lateral e central e conseguiu “abafar” por completo não só as transições mas também a própria primeira fase de construção dos azuis e brancos, perante insistentes pedidos de Sérgio Conceição para que a equipa avançasse alguns metros num relvado onde se jogava apenas a metade. Para se ter noção desse período, foi preciso esperar 14 minutos para que o FC Porto conseguisse trocar dois passes no último terço do campo, aproveitando uma subida de Zaidu pela esquerda numa jogada que acabou por não ter consequências.

Durante alguns minutos ainda deu a sensação que o FC Porto iria conseguir dividir mais o encontro, tendo mais vezes trocas de passes que permitiam a defesa “respirar” de outra forma perante as ofensivas contrárias. Todavia, essa seria a exceção dentro da regra que imperou no primeiro tempo: o Manchester City com muito mais posse, a dominar em termos posicionais, a chocar de forma quase invariável numa muralha que tinha em Sarr e Diogo Leite as principais referências em noite inspirada. Contas feitas, os azuis e brancos terminaram os 45 minutos iniciais com apenas um remate e muito por cima, de Sérgio Oliveira, ao passo que os ingleses tiveram somente um tiro enquadrado naquela que foi a melhor chance por Stering mas cortada por Zaidu em cima da linha (32′).

O passe mais frequente do FC Porto, de Mbemba para Marchesín, resumia bem o que tinha sido o FC Porto nesses 45 minutos iniciais e, ao mesmo tempo, mostrava o que teria de melhorar para o segundo tempo. E Sérgio Oliveira voltou a dar o morte, com o primeiro remate enquadrado à baliza do City para defesa de Ederson no seguimento de uma transição rápida com passe longo de Marega para Zaidu antes de a bola circular até ao corredor central (51′). Zinchenko, de livre direto, respondeu a essa tentativa mas saiu à figura do argentino, que teve a primeira grande intervenção quase dobrar a hora do jogo quando Sterling ganhou a Sarr em velocidade mas, sozinho na área, não conseguiu inaugurar o marcador (59′). O FC Porto equilibrava mais mas as características mantinham-se.

Corona, “amassado” após algumas entradas duras, foi substituído por Luis Díaz, mais tarde houve as trocas de Wilson Manafá e Marega por Nanu e Evanilson. No entanto, o domínio do Manchester City ia sendo cada vez mais evidente, sendo que só Sterling tocou mais vezes a bola na área do que todos os jogadores azuis e brancos juntos. Aí, apareceu Marchesín. E quando não chegou, o VAR anulou o lance: primeiro fez uma grande intervenção numa recarga de Ferran Torres na área após canto em que Rúben Dias fez o mais difícil e conseguiu não desviar para a baliza a um metro da linha (70′), depois foi Bernardo Silva a fazer a diagonal para um remate de pé esquerdo que foi travado para canto (77′) e por  fim Gabriel Jesus, após cruzamento do ala português, a marcar na recarga após mais uma defesa para a trave mas com o golo a ser anulado pelo VAR por fora de jogo no início do lance (80′).