Num ano, tudo mudou. Depois da passagem pelo Manchester United, que terminou pouco antes do Natal de 2018, José Mourinho foi recebendo várias abordagens e convites de clubes europeus e asiáticos mas esperou até chegar “o” convite que o fizesse regressar da melhor forma ao futebol. Que, na última edição da Web Summit, no início de novembro, ainda não tinha chegado. Um ano depois, orienta um Tottenham que está na frente da Premier League, que lidera o grupo da Liga Europa e que está nos quartos da Taça da Liga. Hoje, o treinador que ao longo de várias temporadas foi descrito como Special One descreve-se agora como o Experienced One. Tão experienced que deu a volta a um dos desafios que o futebol atual lhe colocava e que estava relacionado com a evolução dos tempos.

Mourinho recebe prémio de inovação no desporto durante a Web Summit

Numa conversa recente, o português explicava que não é tão fácil construir um grupo como aqueles que valeram a conquista da Liga dos Campeões pelo FC Porto e pelo Inter, assim como o triunfo em várias competições nacionais pelo Chelsea há muito em jejum de títulos. Em resumo, se nas concentrações das equipas não havia propriamente muitas formas de passar o tempo, o que aumentava a proximidade entre todos os elementos, hoje existe todo um mundo à distância de um clique que faz com que cada jogador passe o tempo de forma mais isolada. Porque há o fenómeno das redes sociais, as chamadas por vídeo, as interações com os fãs. Foi isso também que explicou quando partilhou uma fotografia do balneário após um triunfo “arrancado a ferros” em que os jogadores estavam todos com o telefone. “Fez-me lembrar os tempos em que eu era adjunto de Louis van Gaal [no Barcelona], em que ele dizia: ‘Não quero os jogadores ao telefone’. Vinte anos mais tarde, estamos numa situação em que depois dos jogos cada jogador pega no seu telefone, é normal. Eu também o faço”, explicou o treinador.

“Como treinadores duramos mais do que os jogadores na profissão, por isso passamos por diferentes gerações de futebolistas. Uma das nossas qualidades tem de ser adaptarmo-nos a eles e aos novos tempos. Por isso foi um post engraçado”, adiantou ainda. Mourinho não existia nas redes sociais, Mourinho passou a existir e tornou-se também notícia por isso. “Mas não aceito que isso [o Instagram] fique apenas nas mãos de outros, tenho de pôr sal e pimenta”, salientou. “Não é uma maneira de mostrar que estou mais próximo dos jogadores, apenas tento abrir um pouco o nosso mundo ao mundo. As pessoas gostam de ver coisas a que normalmente não teriam acesso. O sucesso daquele documentário da Amazon [sobre o Tottenham, All or Nothing] foi precisamente por tudo estar aberto. Por exemplo, eu adoraria saber como funciona por dentro uma grande equipa de Fórmula 1. Neste caso o Instagram é uma oportunidade para pequenas coisas que não prejudicam e até podem ser engraçadas”, frisou.

Foi também neste contexto que José Mourinho recebeu esta quinta-feira o prémio Web Summit Innovation in Sport, que reconhece “pessoas e organizações que incorporaram com sucesso tecnologia na busca da excelência”. “É o maior treinador do futebol moderno, incomparável em termos de troféus, longevidade e sucessos consistentes. Estamos a homenagear o melhor treinador de todos os tempos”, salientara em comunicado Darren Cleary, diretor de desporto da Web Summit. E também por isso este era um dos principais momentos do dia. “Portugal é também um dos países de um dos treinadores com mais sucesso no futebol, o miúdo de Setúbal que se tornou um dos maiores com 25 títulos ganhos com duas Ligas dos Campeões e oito Campeonatos. Mas mais do que esses feitos, foi importante pela crença e pela inspiração que deu a uma geração de jovens de que é possível chegar ao topo com trabalho e dedicação”, sublinhou o primeiro-ministro, António Costa, na entrega do galardão.

“Não tento passar lições a ninguém, apenas aproveitar a minha vida e ter o privilégio de um trabalho que é uma paixão, um hobbie a full time, o meu mundo, o mundo onde nasci e ao qual pertenço. Todos dizem que a minha carreira é longa mas a verdade é que não vejo o fim. Sinto o mesmo desejo e paixão para aprender todos os dias, os meus cabelos brancos não têm nada a ver como stress da profissão”, começou por explicar o português, antes de balizar aquela que foi a principal dificuldade no início da carreira para se afirmar como treinador.

“Era um período completamente diferente. Hoje as pessoas acreditam que há diferentes formas de ser treinador, que há diferentes formas de chegar lá. Há 20 ou 30 anos a maior barreira era o foco estar centrado nos antigos jogadores, esquecendo que os académicos de carreira com experiências de futebol mesmo não sendo ao nível mais alto também podiam lá chegar. Esse foi o principal obstáculo, fazer acreditar num perfil diferente. Esse é um legado que vou deixar, qualquer miúdo que ame futebol e que não consiga ser um jogador de topo pode virar-se para a parte académica e ser tão bom ou melhor do que os outros. Mas nunca quis ser a cara de nenhuma luta entre ambos, existem treinadores fantásticos com diferentes formações. Era só uma questão de provar que existem caminhos diferentes, que há espaço para todos os que adorem competir, treinar e liderar e que cada vez mais as equipas técnicas são mais importantes para que as pessoas se complementem”, explicou.

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“Quando comecei a carreira no meu país, o objetivo era fazer o que fizemos em 2003/04 [no FC Porto]: chegar ao topo do futebol mundial, porque a Europa representa isso, com uma equipa portuguesa e cheia de jogadores portugueses. Nunca mais ninguém fez isso. Foi o clique na minha carreira. Primeiro foi tempo para trabalhar em Portugal, depois foi o tempo para ser português: aventureiro, sem medo de arriscar, sem receio de ir contra as probabilidades, chegar a todos os campeonatos de topo como Inglaterra, Espanha ou Itália sem medo. Fiz com que os mais novos sonhassem. Na minha geração, os mais novos queriam ser jogadores mas a realidade é que hoje há muitos miúdos que sonham ser treinadores. Se ajudei nisso, é algo tão ou mais importante do que ter mais ou menos troféus, mais ou menos medalhas”, assumiu de seguida, recordando o início do trajeto.

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“Há uma diferença entre sucesso e uma carreira de sucesso. O sucesso é o momento, pode estar relacionado com o talento mas só ligado ao facto de estar no sítio certo no momento certo. Outra coisa é a carreira de sucesso, ano atrás ano. Sempre quis essa carreira, faz parte do meu ADN. Alguns se calhar não acham isso mas sou uma pessoa humilde, tento sempre aprender mais, tento sempre ser melhor. Sou muito melhor do que era há dez ou 20 anos. Se amo o que faço, se estou motivado, se me sinto fresco, se mudo meu perfil, se penso hoje mais neles do que em mim… Tenho 57 anos, sou muito novo em relação ao meu trabalho. Não fiquem surpreendidos se tiver mais dez ou 15 anos pela frente. Sempre pensei que os jogadores são aqueles que têm maior responsabilidade nas carreiras deles. Podemos ajudar, podemos desenvolver, podemos apontar o caminho certo à pessoa e ao jogador mas no final são sempre eles. Nunca achei que tenha feiro milagres, apenas ajudei”, prosseguiu.

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“Quando saí de Portugal, tinha aquela mentalidade portuguesa de ter de tentar. Não gosto de zonas de conforto, por isso não passei por uma liga intermédia antes de ir para a Premier League. Depois diziam que era difícil em Itália um treinador com outra metodologia, depois em Espanha tinha o Barcelona que era a melhor equipa do mundo mas quis ir para lá. Temos de ser humildes para perceber que quando se vai para um novo país se tem de estudar muito, até sobre o próprio país. Nunca perdi a minha identidade mas estive sempre aberto para ouvir e adaptar-me. Às vezes tive de mudar um pouco em termos táticos para crescer. Hoje sou uma pessoa rica, com uma experiência fantástica por ter feito esse caminho”, destacou, lamentando o facto de ter estado mais de metade dos 11 meses no Tottenham sem público nos estádios, “o que é importante para perceber o ADN do clube”.

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“A minha maior conquista? Bem, esta resposta pode parecer tonta se não perceber mas a minha maior conquista foi a última vitória, o último jogo que ganhei. Quero sempre mais, mais, mais. Tenho medalhas, réplicas de taças mas as minhas memórias estão muito bem escondidas e fechadas. Treinar é divertido mas ao mesmo tempo pode ser complicado. Se não nos divertirmos, se não tivermos prazer, não conseguimos ir para a dimensão em que fazemos a diferença. Só os jogadores que trabalham comigo algum tempo, a minha família e os meus melhores amigos me conhecem, o resto das pessoas veem aquela pessoa com ar durão durante 90 minutos, depois ouvem as flashes onde ainda estamos com a adrenalina. O que é para mim um jogadores estrela? É aquele que acredita que a equipa é o mais importante. Se for assim, é tão fácil… Quando aparece um que não partilha essa mentalidade e se acha mais importante do que qualquer sacrifício que tenha de fazer pela equipa, é mais complicado, embora os treinadores tenham perdido peso. Mas vou acreditar até ao fim que são esses”, concluiu.