Nome: Tropel
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editor: Porto Editora
Páginas: 152
Preço: 14,40€

A capa de “Tropel”, de Manuel Jorge Marmelo (Porto Editora)

Não se percebe em que ponto da Europa, provavelmente algures entre a Hungria e a Roménia, se situa a cidade ficcional de Székely, mas foi para lá, por motivos fáceis de compreender, que Manuel Jorge Marmelo transferiu a narrativa do seu mais recente romance. Em Tropel, inspirado por notícias que davam conta de um grupo xenófobo que, na fronteira da Bulgária, caçava e expulsava migrantes, Manuel Jorge Marmelo conta a história do Clube dos Caçadores de Székely. Neste Clube, reúne-se um bando de homens zangados que, fartos de ver as suas fronteiras invadidas por refugiados e imigrantes, decide abrir um buraco na rede que os separa do seu país vizinho, para servir de isco, atraindo os povos inimigos, assim desviando o objeto da caça, das raposas para pessoas em desespero. Mal os estrangeiros entram no país, são ou abatidos (caso sejam homens ou crianças) ou capturados e colocados em redes de prostituição (caso sejam mulheres saudáveis), tudo perante a impassividade da União Europeia.

Contudo, importa sublinhar que o maior mérito de Tropel não é, ao contrário do que o primeiro parágrafo possa ter sugerido, o de criar uma metáfora política tão significativa e impactante. Isso seria uma tarefa relativamente simples e sem grande interesse. A maior virtude de Manuel Jorge Marmelo é, pelo contrário, a de não se deixar cair nos exageros e simplificações que uma metáfora tão violenta sempre propicia. De uma história destas, esperaríamos, por exemplo, que o Clube de Caçadores se recusasse a reconhecer humanidade nas peças de caça humana que persegue. Esperaríamos que, ao convencerem-se a rasgar a fronteira física do seu país, erguessem uma outra, impenetrável, dentro das suas cabeças que separasse os imigrantes dos que lhes são próximos para que o núcleo familiar não pudesse ser contaminado pela forma como os membros do Clube tratam os estrangeiros.  Não é isso que vemos acontecer em Tropel. No romance, as regras que levam os caçadores a aplacar refugiados eritreus são exatamente as mesmas que aplicam a si mesmos e que conduzem, por exemplo, ao abate do pai de Hirónimo por parte do seu filho. Não existem, aliás, diferenças substanciais entre dentro e fora, visto que a mulher de Hirónimo e mãe de Atanas, o protagonista, é tratada pelo seu marido exatamente da forma que este trata a amante com que todos os dias se deita ou a eritreia que aprisiona no quintal.

Mesmo o facto de Atanas ter notórias dificuldades em referir-se aos seus pais de outra forma que não pelos seus nomes próprios parece sublinhar este problema: quando tratamos desrespeitosamente os de fora, os estrangeiros, os diferentes de nós, não estamos apenas a falhar a um dever nuclear da nossa humanidade para os que estão longe. Pelo contrário, ao fazê-lo, rapidamente os nossos iguais, a nossa família, os que lutam pelas mesmas bandeiras que nós, também esses passam a ser vistos como estrangeiros. Não deixa, aliás, de ser curioso vermos acontecer precisamente isso em certos partidos com assento parlamentar na Assembleia da República, mas isso são contas de outro rosário. Ainda que o racismo e o machismo premeiem Tropel por todos os lados, a visão do mundo deste Clube de Caçadores parece, contudo, resultar não tanto de um olhar discriminatório em relação a segmentos específicos da população, mas antes da busca de uma regra única e implacável através da qual se possa observar e julgar o mundo.

É comum descrever-se romances deste tipo como sendo extraordinariamente actuais, mas descrições destas revelam-se incapazes de captar um aspecto fundamental do que aqui se passa. Tropel não é um romance atual e não o é apenas pelas alusões, por exemplo, a Turguéniev ou pelas semelhanças que encontramos entre Hirónimo e Enkidu, o grande amigo de Gilgamesh no épico sumério. Tropel não é atual precisamente porque, ao contrário do que vemos acontecer em todo o lado à nossa volta, Manuel Jorge Marmelo é capaz de reconhecer humanidade à trincheira oposta. Ainda que o protagonista seja uma personagem moralmente abjeta, em nenhum momento a história deixa de fazer um esforço empático, tornando-o mais do que um simples caçador de humanos, mais do que um violador de refugiadas, mais do que todo o leque de abomináveis pecados que carrega. Ao forçar-nos a reconhecer humanidade em Atanas, o escritor está a impedir que também nós embarquemos na visão do mundo que premeia o Clube de Caçadores de Székely, uma visão que é, essa sim, extraordinariamente atual e peculiarmente universal.

Finalmente, é também peculiar o papel da igreja no romance, uma vez que esta diz repetidamente as mesmas coisas aos fiéis que, repetidamente, as ouvem com um sorriso irónico, como se toda a Palavra de Deus não passasse de uma leviana piscadela de olho, só devendo ser levada a sério em cinco ou seis versículos muito específicos que, por alguma razão bizarra, são, afinal, o centro da Bíblia.

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