Artigo atualizado

Rosalina Machado morreu esta segunda-feira, na sequência de um cancro do pulmão, doença contra a qual lutava há anos, segundo noticia o Diário de Notícias. Tinha 80 anos. Casada há mais de cinco décadas com Francisco Machado, morreu um dia depois do marido, que, no último domingo, não resistiu a complicações causadas pela Covid-19. João Pedro é o único filho de casal, que tem também dois netos, Catarina e Diogo.

Nome histórico da publicidade em Portugal, destacou-se no setor ao ser a primeira mulher portuguesa presidente de uma multinacional, tendo permanecido ligada à gestão da Ogilvy durante duas décadas. Durante anos, Rosalina Machado fez parte dos circuitos sociais, sendo presença assídua nas páginas da imprensa dita cor-de-rosa, mas foi como empresária que fez carreira.

“Havia um primo direito da minha sogra, o Manuel Queiroz Pereira, que tinha nessa altura o jornal A Capital e convidou-me para estar à frente do suplemento feminino. Nessa altura contratámos uma agência de publicidade para divulgar aquele que foi o primeiro suplemento a cores. Eu tinha 23 anos”, recordou em 2010, à revista VIP, sobre a sua chegada ao mundo dos negócios.

Rosalina Machado em 2012 © Ângelo Lucas/Global Imagens

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A janela de oportunidade conduziu à criação da agência de publicidade DC3, que ajudou a fundar, em 1976. “Nessa altura, a multinacional Ogilvy andava em Portugal a estudar a compra de uma agência ou começar uma de raiz. Uma prima minha que conhecia o presidente europeu pediu-me para dar informações sobre as pessoas e empresas que eles já tinham selecionado. A meio do processo, o presidente da empresa disse-me que gostava de fazer essa empresa comigo”, relatou na mesma entrevista.

Em 1986, Rosalina Machado assumia a direção da Ogilvy & Mather Portugal. A conquista foi duplamente história — não só foi a primeira mulher no mundo a dirigir uma agência de publicidade Ogilvy, como foi a primeira mulher a gerir uma multinacional em Portugal, segundo refere a Meios & Publicidade.

Só deixou a empresa em 2009, altura em que abandonou definitivamente o ramo da publicidade. A partir daí, dedicou-se aos negócios da família. Através da FTM Holdings, continuou a trabalhar em áreas como o imobiliário e a metalomecânica. No mesmo período, dedicou-se, juntamente com o marido, ao restaurante Belcanto, dos quais eram proprietários. O casal viria a vender o restaurante do Chiado ao chef José Avillez dois anos mais tarde.

Em 2013, na inauguração da Cartier, na Avenida da Liberdade, em Lisboa © Sidónio Félix/Global Imagens

“Muitas pessoas perguntam por que é que me envolvi nesta brincadeira. E isto não é nenhuma brincadeira. Sou uma apaixonada por Lisboa e este restaurante faz parte da história desta cidade. E o mais importante de tudo, não fui eu que decidi, foi o meu marido. Chegou um dia à noite e disse-me que havia um restaurante muito giro que estava prestes a fechar e que mo oferecia”, afirmou em entrevista à Caras, nesse mesmo ano.

“Não sinto saudades. Ao lon­go da minha carreira tentei sempre marcar pela diferença. Não gosto de dizer que assumi uma gestão feminina, mas a verdade é que as mulheres que trabalham em gestão conseguem criar um ambiente mais familiar e afetivo. Nunca me sentei numa cadeira à espera que as coisas acontecessem. Mas agora, que trabalho na empre­sa familiar, sinto que há uma grande diferença. Hoje, sou eu que mando na agenda e durante anos foi a agenda que mandou em mim”, referiu numa entrevista à revista Caras, em 2013.

“Morreu uma das melhores profissionais do mundo da comunicação, publicidade, marketing e o mais que quiserem que Portugal teve até hoje. Afirmou-se no mundo empresarial como poucos e, no seu tempo, como muito poucas. Uma mulher linda, elegante, sabia ensinar com diplomacia, ceder e ser dura”, partilhou António Cunha Vaz, CEO da empresa de comunicação Cunha Vaz, no Facebook.

Na imprensa do social, surgiu como alvo de interesse no final dos anos 70, como recordou o cronista Carlos Castro ao Público, em 2001. “Depois do 25 de Abril apareceram muitos patos bravos, como se dizia na altura. Gente que tinha dinheiro e que queria ser lançada — e ingenuamente ou não eram lançados. Ou porque elas iam giras e bem vestidas, pelo seu posicionamento nas festas, pela simpatia. Foram feitas várias figuras: o caso da Margarida Prieto, da Rosalina Machado que vem dessa altura, de 1977. A Ana Salazar também é dessa época, a Tita Balsemão, a Lili Caneças”, resumiu Castro na altura.

“Muito triste com a partida de uma mulher de exceção quer pessoal quer profissionalmente, com quem tive o privilégio de trabalhar e ser amiga. Rosalina Machado deixou-nos hoje e o seu marido Francisco Machado também partiu ontem. Um casal que deixa a sua marca num Portugal cada vez mais pobre. Os meus sentidos pêsames a toda a família”, escreveu Fernanda Dias, antiga diretora da revista Caras, no Facebook.

Quem também já reagiu à morte de Rosalina Machado e do marido foi Lili Caneças. “Rosalina e Francisco Machado, amigos duma vida viveram e partiram juntos”, partilhou na sua conta de Instagram.