Foi em 2001 que a Virgin Classics lançou um registo da oratória Sedecia, re di Gerusalemme, de Alessandro Scarlatti, por Il Seminario Musicale, sob a direcção de Gérard Lesne. Para lá de ter sido a primeira gravação desta notável oratória e de a interpretação ter a excelência usual na série de discos que Lesne gravou com Il Seminario Musicale para a Virgin, o disco tinha um atractivo adicional: revelava ao mundo, no papel de Ismaele, o jovem filho de Sedecia, um contratenor que tinha apenas 21 anos à data da gravação (em 1999), mas já evidenciava qualidades invulgares: Philippe Jaroussky. Jaroussky converteu-se rapidamente numa das mais cintilantes estrelas da música antiga, cobrindo repertório de Monteverdi a Gluck (com incursões pontuais à mélodie francesa do final do século XIX, nos álbuns Green e Opium, ao ou Requiem de Fauré), percurso em que sempre tem estado rodeado pela elite dos cantores, músicos e maestros da “interpretação historicamente informada” (sobre o seu disco de música sacra germânica do século XVII, na companhia de L’Arpeggiata, ver Como do inferno da guerra se fez música para salvar as almas).

Decorridos 20 anos sobre esta estreia, Jaroussky revisita o ponto de partida com La vanità del mondo (Erato/Warner), uma selecção de árias de oratórias de compositores barrocos italianos (ou activos em Itália). Tal como acontece com a ópera barroca, também a oratória barroca é um vasto tesouro submerso que só pouco a pouco começa a ser resgatado ao olvido e Jaroussky faz questão (como Cecilia Bartoli) de seleccionar obras e compositores que, embora sendo pouco conhecidos, nada ficam a dever aos consagrados. Das 18 faixas do CD, sete são estreias absolutas em disco e, com excepção da ária “Lascia la spina”, de Il trionfo del Tempo i del Disinganno, de Handel, as restantes faixas têm sido raramente gravadas ou apresentadas em palco.

Talvez não seja coincidência que o papel da estreia discográfica de Jaroussky tenha sido o de um rapaz inocente e voluntarioso que acaba por ser executado no lugar do pai (Ismaele) e que a primeira faixa do novo CD coloque um rapaz indefeso perante a iminência da morte (Isacco). A faixa é a ária “Perché più franco”, de Abramo (1731, Munique), de Pietro Torri (c.1665-1737), um italiano que esteve ao serviço das cortes de Bayreuth e Munique e passou alguns anos nos Países Baixos Espanhóis (correspondendo aproximadamente à actual Bélgica), antes de regressar à corte do príncipe-eleitor da Baviera, em Munique. Torri compôs meia centena de óperas e algumas dezenas de oratórias, entre as quais está este Abramo, sobre o patriarca Abraão (Abramo) e a terrível incumbência que Deus lhe confiou, de lhe sacrificar o próprio filho, Isaac (Isacco). Em “Perché più franco”, o libretista coloca Isacco numa insólita posição: em vez de oferecer resistência ou tentar dissuadir o pai-carrasco, tenta tornar a cruenta tarefa deste mais fácil e aliviá-lo de qualquer remorso, num momento de abnegação e amor filial a que Jaroussky dá magnífica expressão – apesar de possuir grande versatilidade, quer do ponto de vista técnico quer do emocional, é no registo “angelical”, quando dá voz à pureza e à inocência, que Jaroussky tem colhido mais elogios.

[“Perché più franco”, de Torri:]

Do mesmo Torri, Jaroussky seleccionou a exultante ária “Esiliativi pene funeste”, da oratória La vanità del mondo (1706, Bruxelas), com uma parte B em que a voz entra num refinado diálogo com um oboé solista (uma excepção num programa em que o acompanhamento está circunscrito a cordas e baixo contínuo, sem lugar para solistas).

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[“Esiliativi pene funeste”, de Torri:]

Numa panorâmica da oratória barroca italiana não poderia faltar Alessandro Scarlatti (1660-1725), um dos mais prolíficos e influentes autores neste género, que está representado com a segunda das duas oratórias que compôs com o título La Giuditta (estreada em Roma ou Nápoles em 1697), sobre o tema da heroína judia que se insinua no acampamento do exército babilónio para seduzir e assassinar o seu comandante, Holofernes (ver Assassínio selectivo: Uma história sangrenta com mais de 2500 anos). Na ária “Dormi, o fulmine de guerra”, quem se exprime é a ama de Judith (Nutrice), que é sua cúmplice na missão e tem o encargo de adormecer Holofernes e deixá-lo à mercê da lâmina de Judith. A ária é uma das mais belas canções de embalar jamais compostas, embora não devamos esquecer que a sua suavidade oculta uma intenção homicida: “Dorme, oh relâmpago da guerra/ Esquece a ira/ Tu és a prova de que/ O arco e a flecha/ De uns belos olhos/ Têm poder para derrubar os fortes”.

[“Dormi, o fulmine de guerra”, de Scarlatti:]

Entre os muitos compositores barrocos que abordaram a história de Judith e Holofernes está também o veneziano Benedetto Marcello (1686-1739), cuja La Giuditta (com libreto do próprio compositor, o que era muito invulgar para a época) estreou em Veneza c.1709. É uma das raras versões que faz intervir a personagem Achior, um capitão das forças babilónias que fica tão revoltado com as atrocidades cometidas por Holofernes que desertou para o campo israelita. Na ária “Tuona il ciel”, Achior regozija-se com a perspectiva de que, através de Judith, o infame Holofernes não tardará a ser punido – “Ribomba o céu sobre a cabeça do ímpio/ E envia para o aniquilar/ Um braço forte e um coração indómito” – e Jaroussky faz plena justiça a esta peça de exemplar concisão, incisividade e virtuosismo vocal. O tom desafiador de Achior é o que na ópera barroca costuma ser atribuído ao herói que avança resoluto para o combate, mas surge aqui com um twist: o valente guerreiro que o canta ficou na retaguarda e é uma mulher (de “braço forte e um coração indómito”) que desempenha a arriscada missão.

[“Tuona il ciel”, de Marcello:]

De Nicola Fago (1677-1745), um natural de Taranto (no tacão da “bota” italiana) que fez toda a sua formação e carreira em Nápoles (então uma das capitais musicais da Europa), seleccionou-se uma ária da oratória Il faraone sommerso (1709, Nápoles), sobre a fuga dos israelitas do Egipto: a ária “Forz’è pur nel proprio sangue”, tensa e dramática, capta o momento angustiante em que os israelitas se vêem encurralados entre o Mar Vermelho e o exército do faraó, que os persegue: “No nosso próprio sangue/ Ou nas ondas, iremos afogar-nos/ Iremos cair sob a espada inimiga/ Ou perecer no jogo do mar”.

[“Forz’è pur nel proprio sangue”, de Fago:]

O disco encerra com a oratória Morte e sepoltura di Cristo (1724, Viena), de Antonio Caldara, a cujas óperas Jaroussky já dedicara o CD Caldara in Vienna. O veneziano Caldara (1670-1736) foi um dos muitos italianos que dominaram a música na corte imperial de Viena nos séculos XVII-XVIII, tendo sido vice-mestre de capela do imperador Carlos VI entre 1716 e a sua morte. As oratórias sobre a paixão e morte de Cristo, conhecidas como sepolcri, eram parte integrante das tradições musicais da corte vienense, sendo representadas regularmente na Quinta ou Sexta-Feira Santas; Caldara, que compôs várias oratórias neste género, dá provas da sua mestria na pungente ária “È morto il mio Gesù”, em que a voz lamentosa voga sobre um doce embalo das cordas.

[“È morto il mio Gesù”, de Caldara:]

O ensemble Artaserse, um conjunto de especialistas em música barroca que desde 2002 acompanha Jaroussky (sob a direcção do próprio cantor), surge aqui numa versão um pouco mais encorpada (uma quinzena de elementos), mas com o rendilhado e agilidade usuais, e a captação de som é perfeita, delineando um amplo palco sonoro, pelo que esta música que passou dois séculos e meio nas profundezas emerge tão fresca e límpida como se tivesse sido composta ontem.